‘100 dias’ é retrato correto de aventura histórica de Amyr Klink, mas pouco emocionante; g1 já viu

O drama “100 dias”, que chega às salas brasileiras nesta quinta‑feira, traz à tela a extraordinária travessia de Amyr Klink pelo Atlântico Sul, realizada a remo em 1984. Baseado no livro escrito pelo próprio navegador, o longa acompanha o protagonista, interpretado por Filipe Bragança, ao partir de Lüderitz, na Namíbia, rumo a Camaçari, na Bahia, enfrentando a solidão, o medo e as limitações físicas durante cem dias em alto mar. A narrativa se apoia na relação distante com a mãe, Asa (Philippine Leroy‑Beaulieu), e o irmão, Tymur (João Vitor Silva), que tentam orientar o aventureiro a partir da costa.
A produção conta com uma direção competente, assinada por Carlos Saldanha, conhecido por trabalhos de animação, mas que aqui se aventura no live‑action. O diretor consegue criar um clima claustrofóbico nas cenas dentro da pequena embarcação, reforçando a sensação de isolamento que permeia a jornada. As imagens de Klink remando ao lado de golfinhos ou contemplando o céu estrelado são visualmente agradáveis, demonstrando um cuidado estético que eleva a experiência. Contudo, alguns momentos revelam limitações técnicas, sobretudo nos efeitos visuais que, em certas sequências, denunciam a presença de estúdio e comprometem a imersão.
Filipe Bragança assume o desafio de carregar a maior parte do filme praticamente sozinho, e seu desempenho se destaca ao transmitir o desgaste físico e emocional do navegador. A capacidade de sustentar o interesse do público em cenas quase inteiramente solitárias é um ponto alto, e a química com João Vitor Silva, que interpreta o irmão, confere credibilidade à cumplicidade entre os personagens. Philippine Leroy‑Beaulieu, embora apareça brevemente, cumpre bem o papel da mãe preocupada, enquanto Felipe Camargo, no papel do pai, oferece uma presença mais superficial, limitada por um roteiro que não aprofunda sua antagonismo.
O texto, escrito por Elena Soarez e Thais Tavares, alterna momentos de maior profundidade – como as estratégias de Klink para lidar com a solidão – com soluções mais convencionais e previsíveis, especialmente nos flashbacks de infância e nas tensões familiares. Essa variação afeta o ritmo da obra, que perde força na metade antes de retomar alguma energia nos instantes finais. Além disso, a tentativa de dramatizar o encontro com um tubarão acaba por soar artificial, já que a computação gráfica não consegue reproduzir movimentos naturais, gerando uma sensação de falsidade que diminui a tensão esperada.
Em suma, “100 dias” entrega uma narrativa competente sobre uma das maiores conquistas da navegação brasileira, sustentada por um elenco sólido e por uma direção que, embora não consiga extrair toda a carga emocional da história, oferece imagens marcantes. As falhas técnicas e a falta de consistência no roteiro impedem que o filme alcance o impacto dramático que o feito real de Amyr Klink merece, resultando em uma experiência correta e bem realizada, porém aquém da grandiosidade do feito que retrata.
Fonte: G1 Pop & Arte





