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A Ilha de Coiba, a brutal prisão a céu aberto que se tornou um paraíso natural e para onde o Panamá está enviando prisioneiros novamente

Por Liberal FM•02/11/2026 às 04:00
A Ilha de Coiba, a brutal prisão a céu aberto que se tornou um paraíso natural e para onde o Panamá está enviando prisioneiros novamente

Coiba, um arquipélago de 38 ilhas situado a cerca de 25 km da costa de Veraguas, no Pacífico panamenho, combina praias de areia branca, águas cristalinas e uma vegetação densa que ainda parece uma muralha verde. Por quase um século a ilha foi usada como colônia penal a céu aberto, onde prisioneiros – tanto criminosos quanto opositores políticos durante a ditadura militar de 1968‑1989 – foram submetidos a trabalhos forçados, torturas e um massacre que marcou a história do país. Quando a prisão foi encerrada em 2004, o governo transformou Coiba em reserva natural, o que lhe rendeu a designação de Patrimônio Mundial da Unesco e preservou, por décadas, ecossistemas praticamente intocados.

Em junho deste ano, após a fuga de quase 200 detentos da prisão de La Joyita, o presidente José Raúl Mulino autorizou a transferência de 29 presos de alto risco para uma base aeronaval instalada na ilha, seguida de mais três transferências em agosto. A justificativa oficial foi a necessidade de garantir a segurança nacional, mas a medida reacendeu o debate sobre a compatibilidade da presença de detentos com a proteção ambiental de Coiba. Organizações de defesa ambiental argumentam que a lei que rege a reserva não contempla a permanência de presos, enquanto o Ministério do Meio Ambiente assegura que não foram construídas novas infraestruturas e que o impacto seria mínimo.

Coiba hoje abriga o maior parque marinho da América Central, com 270 mil hectares de terra e mar que funcionam como um laboratório a céu aberto. Pesquisadores como o biólogo marinho Edgardo Díaz Ferguson estudam recifes, rotas migratórias de tubarões e baleias, e a regeneração de habitats que permanecem praticamente inalterados há 12 mil anos. A presença de um ex‑presidiário, Narciso “Mali Mali” Bastidas, que cumpriu dez anos na colônia e agora atua como guarda‑parque e assistente de pesquisa, ilustra a complexa intersecção entre história, ciência e conservação. Mali, que foi condenado por assassinato e afirma inocência, ajuda a equipe a compreender como áreas anteriormente usadas para agricultura e pastagem se recuperam naturalmente.

O relato de Mali revela as condições brutais que marcaram a vida na prisão: trabalhos exaustivos na selva, castigos que chegavam a espancamentos e humilhações, e a ausência de direitos básicos. Ele descreve como, ao chegar de avião, viu os campos onde teria que trabalhar e, apesar da violência, reconhece a beleza da ilha. Após cumprir a pena, passou a colaborar com cientistas, medindo plantas, instalando equipamentos de gravação e compartilhando memórias que enriquecem a pesquisa sobre a regeneração florestal. Essa transição de prisioneiro a guardião da natureza simboliza, para ele, uma mudança de identidade que vai além da culpa ou da redenção.

A controvérsia permanece, pois familiares dos detentos exigem acesso a seus parentes e advogados, enquanto ambientalistas temem que a presença de presos possa abrir precedentes para usos incompatíveis com a conservação. Até o momento, os cientistas afirmam que a atividade prisional não alterou o andamento das investigações e que a ilha continua sendo um “parque jurássico” onde a biodiversidade endêmica, como a águia‑de‑crista e a arara‑vermelha, prospera. A esperança de muitos, inclusive de Mali, é que Coiba permaneça protegida para as futuras gerações, transformando um passado de sofrimento em um futuro de gratidão e respeito pela natureza.

Fonte: G1 Mundo