Cadê o ‘Tiririca americano’? Candidatos ‘meme’ são raros nas eleições dos EUA; entenda por quê

As eleições brasileiras costumam ser palco de personagens que chegam às urnas mais como figuras de entretenimento do que como políticos tradicionais. Tiririca, Cabo Daciolo, Enéas e Padre Kelmon são exemplos de candidatos que, ao transformar suas campanhas em verdadeiros memes nas redes sociais, conseguiram atrair atenção e, em alguns casos, votos suficientes para influenciar o resultado de outras disputas. Nos Estados Unidos, porém, a presença de concorrentes com esse perfil tão extravagante é rara, sobretudo nas chamadas midterms – as eleições de meio de mandato que acontecerão em 3 de novembro para escolher governadores, representantes ao Congresso e legisladores estaduais.
A principal explicação para essa diferença reside no sistema eleitoral americano. O país adota um modelo de primárias nas quais os dois grandes partidos, Democrata e Republicano, selecionam seus candidatos antes da disputa geral, o que costuma eliminar os aspirantes menos preparados ainda nas fases internas. Além disso, o voto distrital obriga os eleitores a escolherem candidatos que tenham ligação direta com a comunidade local, reduzindo a margem para figuras de destaque nacional que não possuam base regional consolidada. No Brasil, por outro lado, a inscrição em um partido garante ao candidato acesso gratuito à propaganda televisiva, ampliando sua visibilidade e possibilitando que personalidades de TV ou da internet atraiam eleitores para a legenda, mesmo que não tenham experiência política.
Mesmo assim, a tendência de celebridades e influenciadores tentarem a carreira política, que vem ganhando força no Brasil, também aparece nos Estados Unidos. No Texas, o youtuber conhecido como “The AK Guy”, cujo nome real é Brandon Herrera, acumula mais de quatro milhões de inscritos produzindo conteúdo sobre armamento e agora disputa uma vaga na Câmara dos Representantes pelo Partido Republicano. Outro caso marcante foi o de Adam Dunigan, ex‑agente da CIA que se reinventou como influenciador de geopolítica; ele concorreu nas primárias democratas da Virgínia, mas ficou em terceiro lugar, longe da vitória. O ator Luke Gulbranson, famoso pelo reality “Summer House”, tentou ser escolhido para o 8º distrito de Minnesota, mas acabou em segundo lugar, enquanto a servidora pública Trina Swanson foi eleita. Já Shelby Campbell, advogada de 32 anos do Michigan, tentou chamar a atenção dos eleitores jovens com vídeos de dança e twerking nas redes, mas acabou desqualificada por não constar na cédula das primárias.
Esses exemplos revelam que, embora a presença digital ofereça alcance e potencial de arrecadação, ela não garante sucesso nas urnas americanas. A necessidade de financiar cada espaço publicitário, a exigência de construir uma base local sólida e a competição acirrada nas primárias limitam a eficácia de estratégias baseadas apenas em notoriedade online. O caso de Shelby Campbell, que viu seus perfis de campanha removidos e foi excluída da disputa, gerou ainda um debate interno no Partido Democrata sobre os limites da comunicação política na era das redes sociais.
Em suma, a estrutura institucional dos Estados Unidos impede que candidatos caricatos alcancem o mesmo nível de exposição que no Brasil, mas a busca por visibilidade nas plataformas digitais continua a influenciar a forma como as campanhas são conduzidas. Enquanto os influenciadores podem transformar seguidores em doadores e gerar repercussão, ainda precisam adaptar suas narrativas ao rigor dos processos eleitorais distritais e às exigências de financiamento, o que torna a transição de celebridade para parlamentar muito mais desafiadora do que parece à primeira vista.
Fonte: G1 Mundo





