Eleições nos EUA: carne bovina vira símbolo de inflação e guerra cultural na disputa pelo Congresso

Eleções legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, podem redefinir o alcance da presidência de Donald Trump ao colocar o controle do Congresso em disputa. A alta dos preços da carne bovina, do diesel e a perda de poder de compra têm sido usadas por candidatos de ambos os partidos como tema central de campanha.
No Mississippi, o candidato democrata ao Senado Scott Colom divulgou um vídeo em que um homem prepara hambúrgueres na churrasqueira e diz: “Escolher outra proteína? Eu prefiro escolher outro senador.” A frase responde à senadora republicana Cindy Hyde‑Smith, que sugeriu que consumidores insatisfeitos com o preço da carne bovina buscassem outras fontes de proteína. A campanha de Colom usa a sugestão de Hyde‑Smith para apontar a insensibilidade da senadora diante das dificuldades econômicas das famílias.
No Texas, o democrata James Talarico tem aparecido em vídeos consumindo churrasco depois de ter sido criticado por uma decisão de campanha de 2022 que anunciava a compra exclusiva de alimentos veganos. Os republicanos recuperaram a declaração de então e a utilizam para questionar a afinidade de Talarico com a pecuária, setor de grande importância econômica e cultural no estado. Ao aparecer comendo carne, Talarico tenta rebater as acusações e demonstrar proximidade com as tradições locais.
Em Colorado, o republicano Gabe Evans, que representa o 8.º distrito congressional, tem explorado o histórico de ativismo do democrata Manny Rutinel em defesa da redução do consumo de carne. Na época da faculdade, Rutinel foi fotografado usando uma faixa da organização PETA e, em 2021, fundou a Climate Refarm, entidade que promove a diminuição do consumo de carne. Ele também assinou cartas pedindo aumento de impostos sobre carne e laticínios e apoiou uma proposta para fechar um abatedouro de cordeiros em Denver, medida rejeitada em 2024. Para responder às críticas, Rutinel passou a aparecer em público comendo tacos de carne e recebeu apoio do sindicato dos trabalhadores da indústria frigorífica, afirmando que os eleitores se preocupam mais com o preço dos alimentos do que com o que está em seus pratos. Evans contrapôs que o que importa são as possíveis políticas públicas que Rutinel poderia promover.
A disputa sobre a carne reflete um cenário econômico mais amplo. Em agosto de 2026, o preço médio da carne moída atingiu US $ 6,92 por libra, o maior valor nominal desde o início da série histórica em 1984. Em setembro, o preço recuou para US $ 6,79, ainda 7,4 % acima do registrado um ano antes. A alta resulta da combinação de oferta restrita e demanda elevada: secas sucessivas nas principais regiões produtoras reduziram o rebanho bovino a níveis não vistos em 75 anos, limitando a quantidade disponível nos supermercados. A recomposição do rebanho leva anos, dificultando uma solução rápida.
Para conter a alta, o governo de Trump suspendeu temporariamente tarifas sobre a importação de até 300 mil toneladas de carne bovina, exigindo que o produto fosse vendido com 25 % de desconto em relação ao preço de mercado. O efeito sobre os consumidores foi limitado; em setembro, o preço da carne moída caiu apenas US $ 0,13 por libra em relação ao mês anterior. Produtores de gado protestaram, alegando que a entrada de carne mais barata pressiona os preços do gado em um momento de margens já reduzidas. A medida também gerou críticas dentro do próprio Partido Republicano. A senadora Ashley Hinson, candidata ao Senado por Iowa, argumentou que a solução passa por apoiar os pecuaristas americanos para que possam expandir seus rebanhos, em vez de recorrer a importações mais baratas.
Assim, em estados rurais e distritos eleitorais apertados, os democratas tentam transformar a alta dos alimentos em votos contra o governo de Trump, enquanto os republicanos buscam associar seus adversários ao veganismo e a supostas ameaças à indústria pecuária. O debate sobre carne e preço alimenta tanto a disputa política quanto a preocupação com a segurança alimentar e a sustentabilidade econômica das regiões produtoras.
Fonte: G1 Mundo





