Espionagem e canhão: Santiago Peña teve dois episódios problemáticos envolvendo o Brasil; relembre

O Senado do Paraguai decidiu, por unanimidade, destituir o presidente Santiago Peña nesta sexta‑feira, encerrando um mandato marcado por uma crise política desencadeada pelo fechamento do banco digital Ueno. A medida foi tomada em meio a um cenário de instabilidade institucional, que já havia colocado o governo sob forte pressão interna e externa.
Nos últimos três anos de governo, Peña também enfrentou duas crises diplomáticas com o Brasil. A primeira surgiu quando a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) foi acusada de conduzir, desde junho de 2022, uma operação hacker contra sistemas da Presidência e do Congresso paraguaios, bem como contra equipamentos ligados às negociações sobre as tarifas da usina de Itaipu. A revelação, confirmada por reportagens do UOL e da TV Globo, levou o Paraguai a convocar o embaixador brasileiro em Assunção e a suspender as discussões sobre a revisão do Anexo C do tratado que regula a energia binacional.
A segunda tensão foi provocada por declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, feitas em julho de 2026 durante um discurso em Jacareí (SP), nas quais o líder brasileiro lembrou que o Paraguai havia invadido território brasileiro na Guerra da Tríplice Aliança (1864‑1870). A fala gerou forte reação do governo de Peña, que, por meio do chanceler Rubén Ramírez Lezcano e da Câmara dos Deputados, emitiu um repúdio oficial e enviou nota diplomática de protesto ao Brasil. O episódio reacendeu também uma reivindicação histórica do Paraguai: a devolução do canhão “El Cristiano”, capturado pelos brasileiros ao final do conflito e atualmente exposto no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.
A Guerra do Paraguai, que ceifou entre 60 % e 70 % da população do país, permanece como um dos episódios mais dolorosos da memória nacional paraguaia. O canhão “El Cristiano”, um obuseiro de 12 toneladas fundido com bronze de sinos de igrejas locais, simboliza a resistência e a perda sofrida. Embora o artefato seja considerado patrimônio histórico brasileiro e esteja tombado pelo Iphan, o governo de Asunción tem reiterado, há mais de uma década, o pedido de sua restituição como forma de reparar parte da ferida histórica.
Com o impeachment de Peña, o futuro das relações bilaterais entre Paraguai e Brasil permanece incerto. A suspensão das negociações sobre Itaipu pode se estender, enquanto a questão da devolução do canhão ainda depende de trâmites diplomáticos que ainda não foram concluídos. Observadores apontam que a nova liderança paraguaia terá o desafio de equilibrar a necessidade de estabilidade interna com a busca por soluções que amenizem as tensões históricas e econômicas com o vizinho sul‑americano.
Fonte: G1 Mundo





