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Ex-coronel uruguaio é preso no RS por crimes na ditadura

Por Liberal FM•01/11/2026 às 22:42
Ex-coronel uruguaio é preso no RS por crimes na ditadura

A Polícia Federal efetuou a prisão de Pedro Antônio Narbondo Mato, ex‑coronel do exército uruguaio, na cidade de Sant’Ana do Livramento, no Rio Grande do Sul. O militar, conhecido pelo apelido de “El Burro”, foi detido enquanto aguardava o conserto de seu carro em uma oficina local. A captura ocorreu após a Justiça italiana condená‑lo à prisão perpétua por tortura e assassinato de opositores políticos durante a Operação Condor, uma rede de cooperação entre as ditaduras sul‑americanas nas décadas de 1970 e 1980.

A decisão inédita do Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou que a pena fosse cumprida em território brasileiro, convertendo a prisão perpétua – que não existe na legislação nacional – em 30 anos de reclusão. O subprocurador Artur Gueiros ressaltou o marco histórico da medida, afirmando que, pela primeira vez, um condenado por graves violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura militar está pagando sua pena no Brasil. A conversão da sentença reflete a necessidade de adequar a punição ao ordenamento jurídico interno, sem reduzir a gravidade dos crimes.

Narbondo integrou o aparato repressivo uruguaio e recebeu treinamento na Escola das Américas, instituição mantida pelos Estados Unidos e descrita como “escola de torturadores”. Durante a Operação Condor, ele atuou no centro clandestino “Automotores Orletti”, uma oficina mecânica de Buenos Aires que serviu de local de tortura e execuções de militantes. Entre as vítimas atribuídas a ele está o jovem metalúrgico uruguaio Bernardo Arnone, que desapareceu em 1976 na capital argentina. A irmã da vítima, Cristina Arnone, acompanhou o caso por décadas, mantendo viva a memória do irmão e contribuindo ativamente para a investigação internacional.

A fuga de Narbondo para o Brasil ocorreu após o avanço das investigações no Uruguai. Ele obteve o reconhecimento da cidadania brasileira ao comprovar que sua mãe nasceu no país, estratégia que visava impedir a extradição, já que a Constituição brasileira proíbe a entrega de cidadãos natos. Por mais de vinte anos, o ex‑militar viveu de forma discreta em um bairro tranquilo de Sant’Ana do Livramento, surpreendendo os vizinhos que desconheciam seu passado. A descoberta de seu paradeiro se deu quando a esposa divulgou fotos de uma viagem ao Nordeste nas redes sociais, permitindo que ativistas de direitos humanos localizassem o endereço exato.

A prisão de Narbondo segue o precedente estabelecido no caso do ex‑jogador Robinho, que também foi recolhido no Brasil para cumprir sentença italiana. Embora a defesa alegue problemas de saúde e tente contestar a decisão no Supremo Tribunal Federal, a família de Bernardo Arnone celebrou a efetivação da medida como o fim de cinquenta anos de busca por justiça. Para a comunidade jurídica e para os defensores dos direitos humanos, o caso representa um passo significativo na responsabilização de agentes que participaram das repressões ditatoriais na América Latina.

Fonte: G1 Mundo