Três entradas na Argentina em 40 minutos: os bastidores da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil

Uma investigação do “Fantástico” trouxe à luz os detalhes de uma operação logística que permitiu ao senador Flávio Bolsonaro deixar o Brasil rumo aos Estados Unidos após o Supremo Tribunal Federal determinar que ele entregasse os passaportes à Polícia Federal. A fuga foi articulada em duas frentes distintas: o senador partiu de Brasília em um jato Cessna Citation Excel, ligado ao advogado Willer Tomaz, e chegou a San Fernando, na região de Buenos Aires, para depois seguir em outro voo privado até Puerto Iguazú, na fronteira com o Brasil. Enquanto isso, a esposa Fernanda e as duas filhas embarcaram em um segundo avião com destino a Cascavel, no Paraná, e de lá foram transferidas para uma van que, segundo registros, pertencia a uma empresa de turismo sem atividade efetiva no endereço cadastrado.
A travessia terrestre foi marcada por múltiplas entradas de documentos migratórios. Na van que saiu de Cascavel, constavam os dados da família Bolsonaro, enquanto outra van transportava o motorista Neri Luiz Dala Corte, o advogado Roberto Jorge Alexandre e o israelense Menachem Booky Halevy, identificado como ex‑oficial do Mossad. O registro mostra que Flávio Bolsonaro entrou na mesma van três vezes, usando primeiro um passaporte italiano, depois a carteira de motorista e, por fim, o passaporte brasileiro, sendo os dois últimos registros posteriormente cancelados. A presença de escolta policial e veículos oficiais, inclusive com placas diplomáticas argentinas, foi confirmada por jornalistas no aeroporto de Puerto Iguazú, levantando dúvidas sobre a regularidade do procedimento junto às autoridades de imigração.
A etapa final da operação envolveu um jato executivo Gulfstream G400, operado pela empresa argentina Baires Fly, que transportou o senador e sua família até a América do Norte. O voo, que custou cerca de 150 mil dólares, foi pago por um intermediário do setor de aviação nos Estados Unidos, embora o contratante final não tenha sido identificado. Após uma parada para reabastecimento em Guayaquil, no Equador, o avião chegou ao aeroporto executivo de Opa‑Locka, em Miami, na manhã de 28 de outubro. O presidente Donald Trump declarou que não tomou partido nas eleições brasileiras, enquanto o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, negou qualquer envolvimento oficial na saída do parlamentar, afirmando que o visto já estava em posse de Flávio.
A reação das autoridades argentinas foi imediata. A justiça local solicitou a preservação das imagens das câmeras de segurança da fronteira e do aeroporto, e a deputada Marcela Pagano cobrou explicações sobre a suposta irregularidade na passagem migratória, a presença de escolta policial e o uso de veículos diplomáticos do Ministério das Relações Exteriores da Argentina. O secretário de Comunicação da Presidência argentina, Fabian Fernandez, não se pronunciou, enquanto o proprietário da Baires Fly, Luis Grande, afirmou desconhecer quem havia contratado o voo.
Ao chegar aos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro enviou uma carta contestando o resultado das eleições presidenciais brasileiras, sem apresentar evidências de fraude, e passou a se autodenominar “líder do Brasil”. Seu advogado, Frederick Wassef, alegou que não há informações oficiais sobre a viagem e negou tratar-se de uma fuga. O senador permanece no cargo até o final de janeiro, quando deixará o mandato e perderá o foro privilegiado. Paralelamente, ele responde a duas investigações do STF: uma sobre suposta lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz e outra relacionada a repasses ao filme “Dark Horse” efetuados pelo ex‑banqueiro Daniel Vorcaro.
Fonte: G1 Mundo





