Bienal: autores LGBTQIA+ conquistam visibilidade e comemoram audiência


O primeiro livro de Juan Jullian (foto), Meu Querido Ex, só existia em versão digital na Bienal do Livro de 2019. O jovem escritor carioca, de 24 anos na época, tinha se autopublicado na Amazon e investido em marcadores de livros e broches de divulgação para ir em busca de leitores em todos os dias do evento. “Eu ia na fila de outros autores, hoje amigos meus, e falava: ‘você gosta do livro dele? Então, provavelmente você vai gostar do meu’.”

Os esforços dele e os de outros autores LGBTQIA+ para divulgar seus trabalhos naquele ano, porém, foram alvo de um ataque que partiu da própria prefeitura do Rio de Janeiro. O prefeito Marcelo Crivella determinou o recolhimento de livros com personagens LGBTQIA+, por considerar que uma história em quadrinhos de super-heróis (Os Vingadores, a Cruzada das Crianças), era imprópria, por retratar um beijo entre dois adolescentes do sexo masculino. “Livros assim precisam estar embalados em plástico preto e lacrado, informando o conteúdo”, disse na época o prefeito, por meio de nota oficial.

Fiscais da Secretaria Especial de Ordem Pública (Seop) chegaram a ir ao Riocentro para fazer a apreensão dos livros, mas a reação à censura fez com que todos os mais de 20 mil exemplares da HQ se esgotassem em menos de 40 minutos após a abertura da bienal. A organização da feira literária recorreu à Justiça, mas o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, desembargador Claudio de Mello Tavares, decidiu a favor da prefeitura. Coube ao Supremo Tribunal Federal, a pedido da Procuradoria-Geral da República, a decisão de garantir a liberdade para a feira literária, em decisão liminar que saiu apenas no dia do encerramento do evento.

Apesar de violenta, a tentativa de silenciar histórias com pessoas LGBTQIA+ em 2019 teve um efeito reverso naquele ano e nos anos seguintes. Segundo a organização do evento, a Bienal do Livro de 2019 vendeu o triplo de exemplares de obras como a HQ censurada, com personagens LGBTQIA+. Para Juan, que distribuía os broches para divulgar seu livro, a surpresa foi uma onda de leitores que o transformou em um autor best-seller. Em um único dia, foram mais de 10 mil downloads.

“Foi uma combinação dos esforços que eu vinha fazendo para a divulgação com esse momento de boom que a gente não tinha como esperar. Meu Querido Ex fez parte daquele momento. Foi um dos mais baixados naquela época e chegou a pegar o primeiro lugar no ranking geral na Amazon”, lembra o autor, que, só então, chamou a atenção de grandes editoras e passou a ser publicado pela Galera Record.

“Por conta da violência e daquele episódio extremamente homotransfóbico, meu livro chegou a espaços a que ele não teria chegado.”

Protagonistas LGBTQIA+

Juan Jullian foi autor convidado da Bienal do Livro do Rio de Janeiro de 2021, e volta ao evento de 2023 para divulgar sua terceira obra, Viralizou, recheada de referências à cultura pop e a tretas da internet. No enredo, uma funkeira e um jornalista de celebridades que destruiu a carreira dela se unem para sobreviver em meio a um apocalipse zumbi – ele não esconde que a inspiração foi a briga entre a cantora Anitta e o colunista Léo Dias. Assim como em seus dois livros anteriores, o protagonismo da história é de pessoas LGBTQIA+, e a proposta do autor é construir com a literatura um lugar de liberdade e celebração para a diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero.

“Voltar a esse espaço [Bienal do Livro] em um lugar de protagonismo e podendo celebrar as nossas narrativas é sempre simbólico. Houve uma mudança absurda entre o perfil das mesas e autores convidados da bienal antes de 2019 e nessas duas últimas edições. O evento está ficando mais diverso, refletindo mais a pluralidade da audiência, e é bem feliz fazer parte disso”, diz o escritor.

Na bienal de 2023, marcada para o período de 1º a 10 de setembro, o escritor vai participar da mesa Mundos Paralelos, em 2 de setembro, que vai retratar como a diversidade na literatura jovem adulta vai além de falar de romance homoafetivo, e pode trazer o protagonismo LGBTQIA+ em outros gêneros, como a fantasia, a ficção científica e o terror. O público que Juan Jullian tem em mente quando escreve seus livros se parece com ele: jovem, não branco e LGBTQIA+, mas ele acredita que a literatura tem a capacidade de gerar empatia e mostrar que afetos, sofrimentos e outras questões da vida são universais.

“Antes, nos eventos, eu sempre me chocava com uma quantidade enorme de mulheres com entre 30 e 40 anos no público. Mas eu pensei: que tolo eu estou sendo. Apesar de ser a história de um menino gay e negro que quer superar um ex-namorado, é uma história sobre um coração partido. E todo mundo, independentemente de orientação sexual, sabe como é sofrer por um coração partido”, afirma. “Eu acho que a literatura tem um papel fundamental de gerar empatia. É mais fácil se emocionar com uma realidade que não é a sua ou temas que não fazem parte do seu dia a dia quando você vê em uma história do que quando você lê um artigo sobre aquilo. Você se coloca nos sapatos do personagem.”

Corpos diversos

A distopia também está no enredo de Corpos Secos, de Natalia Borges Polesso. A autora lésbica e não binária venceu o prêmio Jabuti de 2021, na categoria Romance de Entretenimento, ao retratar personagens diversos que tentam sobreviver em um Brasil pós-apocalíptico.

“Geralmente, a gente vê um fim do mundo muito hétero, com machões que vão entrar numa espaçonave e evitar um cataclisma. E eu não quero isso, eu quero pensar nas coletividades, compostas também por pessoas que são marginalizadas, pensando sua identidade de gênero e em como isso afeta o nosso viver”, define a autora, que defende uma diversidade de corpos ainda mais rica, com personagens com doenças crônicas e deficiências.

“Romances com pessoas com epilepsia, pessoas com diabetes, e outros corpos que não sejam tão normativos. A gente vive com tantos atravessamentos, tantas questões que nos fazem seres complexos. As questões de gênero e sexualidade estão enredadas – com essa palavra bonita mesmo, de enredo – com corpos não normativos, corpos distintos, pensando em recortes de raça e classe. E vejo a literatura contemporânea se preocupando cada vez mais nisso.”

É com esse ponto de vista que a autora vai participar da mesa Inventar Futuros, no dia 9 de setembro. O protagonismo LGBTQIA+ está presente em todas as obras da autora gaúcha, desde Amora. O livro rendeu outro prêmio Jabuti, na categoria Conto, com uma série de histórias de amor entre mulheres. A proposta de dar visibilidade ao amor entre lésbicas e mulheres bissexuais se mantém em Extinção das Abelhas, outra obra distópica lançada pela autora e que a aproximou de um público mais amplo.

Natalia Borges Polesso já venceu dois prêmios Jabuti
Crédito: Divulgação/Ana Reis

Autora Natalia Borges Polesso já venceu dois prêmios Jabuti – Divulgação/Ana Reis

Extinção das Abelhas tem sido amplamente lido. Já fui em grupo de psicanálise, grupo de apicultores, grupo de ecologistas, em escolas. É um livro que tem feito um caminho quase aleatório”, conta ela, que defende que a literatura com protagonismo LGBTQIA+ também é universal e pode provocar identificação em todos, mas sem que isso signifique apagamento. “Quando eu escrevi Amora, às vezes, me diziam em clubes de leitura, achando que estavam me elogiando: ‘Nossa, que lindo que é o seu livro, nem vejo que as mulheres são lésbicas. Pra mim, é sobre amor’. E eu respondia: ‘Então, você está vendo errado, porque as mulheres são lésbicas. Qual é o problema de ver isso? O que você está vendo, então?’.”

Mais que uma reação

Na sua segunda participação na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, Natalia acredita que a diversidade na curadoria do evento fez a diferença para que ele se tornasse mais inclusivo desde os ataques de 2019. “São curadores que estão prestando atenção no que está acontecendo e que não estão nos convidando só porque somos escritores LGBTQIA+, mas porque somos escritores LGBTQIA+ contemporâneos que estão sendo lidos, têm um público, estão participando de prêmios e têm uma carreira”, elogia ela.

Além da reação do evento à tentativa de censura, Natália destaca que houve uma resposta de influenciadores, leitores, jornalistas e diversas outras pessoas comprometidas com a liberdade e a diversidade na literatura. Essa resposta aconteceu durante os ataques à bienal de 2019 e depois deles, com o fortalecimento da participação de autores LGBTQIA+ no mercado.

“A comunidade leitora e o mercado editorial se fizeram presentes nessa resposta. Apesar de o nosso sistema cultural público ter sido destruído nos últimos anos, eu acho que nossa sede por cultura e por leitura só aumentou nesses últimos anos”, afirma. “É muito ruim a gente ter que reagir a uma opressão ou alguma coisa que nos agride e nos afeta, não só na nossa produção literária, mas na nossa existência. Fico contente que, nesses espaços, as pessoas que estão ali estão ligadas nisso e fazendo esses convites. Eu não gosto de pensar que isso é só uma resposta, porque isso tem a ver com nossos desejos. Não pode ser só uma resposta a uma violência.”

Finais felizes

Assim como Juan e Natalia, o escritor Pedro Rhuas entrou na programação oficial da bienal de 2021 e retorna em 2023. Rhuas, porém, também vai se apresentar como músico, já que, além de autor do best-seller Enquanto Eu não te Encontro, lançou o álbum Contador de História, que passou dos 500 mil streamings no Spotify. O autor conta que estará presente em todos os dias da feira literária, lançando seu próximo romance, que ainda não teve o título divulgado.

“É muito interessante que na literatura as pessoas LGBTQIA+ têm buscado histórias em que elas possam performar suas identidades de maneiras que nunca foram possíveis antes”, conta ele, que tenta proporcionar esse espaço de celebração e acolhimento com seus livros: “Os leitores querem sair do lugar comum de pessoas LGBTQIA+ que apenas sofrem e estão lidando com os preconceitos no seu dia a dia. Na literatura, meu trabalho tem sido muito disso, proporcionar a pessoas LGBTQIAP+ histórias de aquecer o coração, sem fugir de pautas importantes, mas nos dando a alegria que por muito tempo foi roubada.”

Criado na divisa entre o Ceará e o Rio Grande do Norte, Ruas propôs com Enquanto Eu não te Encontro, seu primeiro livro, uma história de amor gay e nordestina, se apropriando da linguagem das comédias românticas para criar seu universo. “O livro ressoou com muitas pessoas por trazer essa representatividade, uma história alegre, que não tem medo de ser exagerada, que usa clichês que não eram nossos, que traz protagonismo nordestino, trapalhadas, comédia.”

Pedro Rhuas vai lançar novo livro na Bienal do Rio de Janeiro. Foto: Divulgação/Olga Gonzales

Pedro Rhuas vai lançar novo livro na Bienal do Rio de Janeiro – Divulgação/Olga Gonzales

Assim como seus leitores, que anseiam por representatividade regional, o escritor sentia a distância do eixo Rio-São Paulo como um bloqueio para se ver representado e também para conseguir publicar. A oportunidade surgiu por meio de um concurso literário do grupo Companhia das Letras, o que possibilitou que ele se inserisse apesar da ausência de uma rede de contatos no mercado literário.

“É somente através desse concurso literário que encontro a possibilidade de acessar esse mercado tradicional. Do contrário, ainda é muito difícil, com a estrutura que está posta, que vozes que não sejam da Região Sudeste, sobretudo, tenham a possibilidade de enviar suas histórias e conseguir uma publicação.”

O sucesso com o público jovem adulto faz com que seus leitores estejam sempre interagindo nas redes sociais, mas o contato direto na bienal, na visão dele, é único. O próprio evento tem um sentido especial para ele, que participou pela primeira vez, ainda como blogueiro literário, após juntar dinheiro em uma vaquinha.

“É um momento muito especial em que a gente enxerga o rosto das pessoas que são apaixonadas pelas nossas histórias, ou mesmo de pessoas que vão conhecer as nossas histórias e que se sentem intrigadas a conhecê-las pessoalmente na bienal. É um momento em que a gente tira o filtro do virtual”, comemora ele, que também festeja o fortalecimento da literatura LGBTQIA+ apesar das tentativas de silenciamento.

“A bienal de 2023 é a continuidade à resposta a esse ato de censura extremamente covarde contra a comunidade LGBTQIAP+. Fico honrado em voltar ao evento ao lado de escritores LGBTQIAP+ do Brasil e do mundo, mostrando que nossa existência em espaços como a bienal é algo permanente e não mudará. Tentaram calar obras, escondê-las na bienal, mas nossas obras ganharam ainda mais espaço e ainda mais destaque. Não só na bienal, mas no espaço nacional da produção de literatura para o público jovem. Voltar à bienal e divulgar minhas obras no evento é simbólico no sentido de que minha presença reforça essa resposta”, completa.




Fonte: Agência Brasil

Bienal do Rio: literatura jovem adulta LGBTQIA+ brilha após censura


O primeiro livro de Juan Jullian (foto), Meu Querido Ex, só existia em versão digital na Bienal do Livro de 2019. O jovem escritor carioca, de 24 anos na época, tinha se autopublicado na Amazon e investido em marcadores de livros e broches de divulgação para ir em busca de leitores em todos os dias do evento. “Eu ia na fila de outros autores, hoje amigos meus, e falava: ‘você gosta do livro dele? Então, provavelmente você vai gostar do meu’.”

Os esforços dele e os de outros autores LGBTQIA+ para divulgar seus trabalhos naquele ano, porém, foram alvo de um ataque que partiu da própria prefeitura do Rio de Janeiro. O prefeito Marcelo Crivella determinou o recolhimento de livros com personagens LGBTQIA+, por considerar que uma história em quadrinhos de super-heróis (Os Vingadores, a Cruzada das Crianças), era imprópria, por retratar um beijo entre dois adolescentes do sexo masculino. “Livros assim precisam estar embalados em plástico preto e lacrado, informando o conteúdo”, disse na época o prefeito, por meio de nota oficial.

Fiscais da Secretaria Especial de Ordem Pública (Seop) chegaram a ir ao Riocentro para fazer a apreensão dos livros, mas a reação à censura fez com que todos os mais de 20 mil exemplares da HQ se esgotassem em menos de 40 minutos após a abertura da bienal. A organização da feira literária recorreu à Justiça, mas o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, desembargador Claudio de Mello Tavares, decidiu a favor da prefeitura. Coube ao Supremo Tribunal Federal, a pedido da Procuradoria-Geral da República, a decisão de garantir a liberdade para a feira literária, em decisão liminar que saiu apenas no dia do encerramento do evento.

Apesar de violenta, a tentativa de silenciar histórias com pessoas LGBTQIA+ em 2019 teve um efeito reverso naquele ano e nos anos seguintes. Segundo a organização do evento, a Bienal do Livro de 2019 vendeu o triplo de exemplares de obras como a HQ censurada, com personagens LGBTQIA+. Para Juan, que distribuía os broches para divulgar seu livro, a surpresa foi uma onda de leitores que o transformou em um autor best-seller. Em um único dia, foram mais de 10 mil downloads.

“Foi uma combinação dos esforços que eu vinha fazendo para a divulgação com esse momento de boom que a gente não tinha como esperar. Meu Querido Ex fez parte daquele momento. Foi um dos mais baixados naquela época e chegou a pegar o primeiro lugar no ranking geral na Amazon”, lembra o autor, que, só então, chamou a atenção de grandes editoras e passou a ser publicado pela Galera Record.

“Por conta da violência e daquele episódio extremamente homotransfóbico, meu livro chegou a espaços a que ele não teria chegado.”

Protagonistas LGBTQIA+

Juan Jullian foi autor convidado da Bienal do Livro do Rio de Janeiro de 2021, e volta ao evento de 2023 para divulgar sua terceira obra, Viralizou, recheada de referências à cultura pop e a tretas da internet. No enredo, uma funkeira e um jornalista de celebridades que destruiu a carreira dela se unem para sobreviver em meio a um apocalipse zumbi – ele não esconde que a inspiração foi a briga entre a cantora Anitta e o colunista Léo Dias. Assim como em seus dois livros anteriores, o protagonismo da história é de pessoas LGBTQIA+, e a proposta do autor é construir com a literatura um lugar de liberdade e celebração para a diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero.

“Voltar a esse espaço [Bienal do Livro] em um lugar de protagonismo e podendo celebrar as nossas narrativas é sempre simbólico. Houve uma mudança absurda entre o perfil das mesas e autores convidados da bienal antes de 2019 e nessas duas últimas edições. O evento está ficando mais diverso, refletindo mais a pluralidade da audiência, e é bem feliz fazer parte disso”, diz o escritor.

Na bienal de 2023, marcada para o período de 1º a 10 de setembro, o escritor vai participar da mesa Mundos Paralelos, em 2 de setembro, que vai retratar como a diversidade na literatura jovem adulta vai além de falar de romance homoafetivo, e pode trazer o protagonismo LGBTQIA+ em outros gêneros, como a fantasia, a ficção científica e o terror. O público que Juan Jullian tem em mente quando escreve seus livros se parece com ele: jovem, não branco e LGBTQIA+, mas ele acredita que a literatura tem a capacidade de gerar empatia e mostrar que afetos, sofrimentos e outras questões da vida são universais.

“Antes, nos eventos, eu sempre me chocava com uma quantidade enorme de mulheres com entre 30 e 40 anos no público. Mas eu pensei: que tolo eu estou sendo. Apesar de ser a história de um menino gay e negro que quer superar um ex-namorado, é uma história sobre um coração partido. E todo mundo, independentemente de orientação sexual, sabe como é sofrer por um coração partido”, afirma. “Eu acho que a literatura tem um papel fundamental de gerar empatia. É mais fácil se emocionar com uma realidade que não é a sua ou temas que não fazem parte do seu dia a dia quando você vê em uma história do que quando você lê um artigo sobre aquilo. Você se coloca nos sapatos do personagem.”

Corpos diversos

A distopia também está no enredo de Corpos Secos, de Natalia Borges Polesso. A autora lésbica e não binária venceu o prêmio Jabuti de 2021, na categoria Romance de Entretenimento, ao retratar personagens diversos que tentam sobreviver em um Brasil pós-apocalíptico.

“Geralmente, a gente vê um fim do mundo muito hétero, com machões que vão entrar numa espaçonave e evitar um cataclisma. E eu não quero isso, eu quero pensar nas coletividades, compostas também por pessoas que são marginalizadas, pensando sua identidade de gênero e em como isso afeta o nosso viver”, define a autora, que defende uma diversidade de corpos ainda mais rica, com personagens com doenças crônicas e deficiências.

“Romances com pessoas com epilepsia, pessoas com diabetes, e outros corpos que não sejam tão normativos. A gente vive com tantos atravessamentos, tantas questões que nos fazem seres complexos. As questões de gênero e sexualidade estão enredadas – com essa palavra bonita mesmo, de enredo – com corpos não normativos, corpos distintos, pensando em recortes de raça e classe. E vejo a literatura contemporânea se preocupando cada vez mais nisso.”

É com esse ponto de vista que a autora vai participar da mesa Inventar Futuros, no dia 9 de setembro. O protagonismo LGBTQIA+ está presente em todas as obras da autora gaúcha, desde Amora. O livro rendeu outro prêmio Jabuti, na categoria Conto, com uma série de histórias de amor entre mulheres. A proposta de dar visibilidade ao amor entre lésbicas e mulheres bissexuais se mantém em Extinção das Abelhas, outra obra distópica lançada pela autora e que a aproximou de um público mais amplo.

Natalia Borges Polesso já venceu dois prêmios Jabuti
Crédito: Divulgação/Ana Reis

Autora Natalia Borges Polesso já venceu dois prêmios Jabuti – Divulgação/Ana Reis

Extinção das Abelhas tem sido amplamente lido. Já fui em grupo de psicanálise, grupo de apicultores, grupo de ecologistas, em escolas. É um livro que tem feito um caminho quase aleatório”, conta ela, que defende que a literatura com protagonismo LGBTQIA+ também é universal e pode provocar identificação em todos, mas sem que isso signifique apagamento. “Quando eu escrevi Amora, às vezes, me diziam em clubes de leitura, achando que estavam me elogiando: ‘Nossa, que lindo que é o seu livro, nem vejo que as mulheres são lésbicas. Pra mim, é sobre amor’. E eu respondia: ‘Então, você está vendo errado, porque as mulheres são lésbicas. Qual é o problema de ver isso? O que você está vendo, então?’.”

Mais que uma reação

Na sua segunda participação na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, Natalia acredita que a diversidade na curadoria do evento fez a diferença para que ele se tornasse mais inclusivo desde os ataques de 2019. “São curadores que estão prestando atenção no que está acontecendo e que não estão nos convidando só porque somos escritores LGBTQIA+, mas porque somos escritores LGBTQIA+ contemporâneos que estão sendo lidos, têm um público, estão participando de prêmios e têm uma carreira”, elogia ela.

Além da reação do evento à tentativa de censura, Natália destaca que houve uma resposta de influenciadores, leitores, jornalistas e diversas outras pessoas comprometidas com a liberdade e a diversidade na literatura. Essa resposta aconteceu durante os ataques à bienal de 2019 e depois deles, com o fortalecimento da participação de autores LGBTQIA+ no mercado.

“A comunidade leitora e o mercado editorial se fizeram presentes nessa resposta. Apesar de o nosso sistema cultural público ter sido destruído nos últimos anos, eu acho que nossa sede por cultura e por leitura só aumentou nesses últimos anos”, afirma. “É muito ruim a gente ter que reagir a uma opressão ou alguma coisa que nos agride e nos afeta, não só na nossa produção literária, mas na nossa existência. Fico contente que, nesses espaços, as pessoas que estão ali estão ligadas nisso e fazendo esses convites. Eu não gosto de pensar que isso é só uma resposta, porque isso tem a ver com nossos desejos. Não pode ser só uma resposta a uma violência.”

Finais felizes

Assim como Juan e Natalia, o escritor Pedro Rhuas entrou na programação oficial da bienal de 2021 e retorna em 2023. Rhuas, porém, também vai se apresentar como músico, já que, além de autor do best-seller Enquanto Eu não te Encontro, lançou o álbum Contador de História, que passou dos 500 mil streamings no Spotify. O autor conta que estará presente em todos os dias da feira literária, lançando seu próximo romance, que ainda não teve o título divulgado.

“É muito interessante que na literatura as pessoas LGBTQIA+ têm buscado histórias em que elas possam performar suas identidades de maneiras que nunca foram possíveis antes”, conta ele, que tenta proporcionar esse espaço de celebração e acolhimento com seus livros: “Os leitores querem sair do lugar comum de pessoas LGBTQIA+ que apenas sofrem e estão lidando com os preconceitos no seu dia a dia. Na literatura, meu trabalho tem sido muito disso, proporcionar a pessoas LGBTQIAP+ histórias de aquecer o coração, sem fugir de pautas importantes, mas nos dando a alegria que por muito tempo foi roubada.”

Criado na divisa entre o Ceará e o Rio Grande do Norte, Ruas propôs com Enquanto Eu não te Encontro, seu primeiro livro, uma história de amor gay e nordestina, se apropriando da linguagem das comédias românticas para criar seu universo. “O livro ressoou com muitas pessoas por trazer essa representatividade, uma história alegre, que não tem medo de ser exagerada, que usa clichês que não eram nossos, que traz protagonismo nordestino, trapalhadas, comédia.”

Pedro Rhuas vai lançar novo livro na Bienal do Rio de Janeiro. Foto: Divulgação/Olga Gonzales

Pedro Rhuas vai lançar novo livro na Bienal do Rio de Janeiro – Divulgação/Olga Gonzales

Assim como seus leitores, que anseiam por representatividade regional, o escritor sentia a distância do eixo Rio-São Paulo como um bloqueio para se ver representado e também para conseguir publicar. A oportunidade surgiu por meio de um concurso literário do grupo Companhia das Letras, o que possibilitou que ele se inserisse apesar da ausência de uma rede de contatos no mercado literário.

“É somente através desse concurso literário que encontro a possibilidade de acessar esse mercado tradicional. Do contrário, ainda é muito difícil, com a estrutura que está posta, que vozes que não sejam da Região Sudeste, sobretudo, tenham a possibilidade de enviar suas histórias e conseguir uma publicação.”

O sucesso com o público jovem adulto faz com que seus leitores estejam sempre interagindo nas redes sociais, mas o contato direto na bienal, na visão dele, é único. O próprio evento tem um sentido especial para ele, que participou pela primeira vez, ainda como blogueiro literário, após juntar dinheiro em uma vaquinha.

“É um momento muito especial em que a gente enxerga o rosto das pessoas que são apaixonadas pelas nossas histórias, ou mesmo de pessoas que vão conhecer as nossas histórias e que se sentem intrigadas a conhecê-las pessoalmente na bienal. É um momento em que a gente tira o filtro do virtual”, comemora ele, que também festeja o fortalecimento da literatura LGBTQIA+ apesar das tentativas de silenciamento.

“A bienal de 2023 é a continuidade à resposta a esse ato de censura extremamente covarde contra a comunidade LGBTQIAP+. Fico honrado em voltar ao evento ao lado de escritores LGBTQIAP+ do Brasil e do mundo, mostrando que nossa existência em espaços como a bienal é algo permanente e não mudará. Tentaram calar obras, escondê-las na bienal, mas nossas obras ganharam ainda mais espaço e ainda mais destaque. Não só na bienal, mas no espaço nacional da produção de literatura para o público jovem. Voltar à bienal e divulgar minhas obras no evento é simbólico no sentido de que minha presença reforça essa resposta”, completa.




Fonte: Agência Brasil

Maior Plano Safra da história é tema do Brasil em Pauta


O Plano Safra da Agricultura Familiar foi lançado no final de junho com o maior valor da série histórica. Serão destinados R$ 71,6 bilhões ao Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para a safra 2023/2024. O valor passa para R$ 77,7 bilhões quando somado a ações como compras públicas, assistência técnica e extensão rural, Política de Garantia de Preços Mínimos para os Produtos da Sociobiodiversidade (PGPM-Bio), Garantia-Safra e Proagro Mais.

O programa Brasil em Pauta, do Canal Gov, entrevista neste domingo (16) a secretária-executiva do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, sobre o Pronaf.

“Em junho nós lançamos o maior Plano Safra da história do Brasil para a agricultura familiar, 71,6 bilhões de reais de crédito só para agricultura familiar. Então, a gente tem algumas frentes de destaque nesse Plano Safra, e a principal é a redução de juros para a produção de alimentos, mas também financiamento pesado; a retomada de um grande programa chamado Mais Alimentos, que visa conseguir mecanizar o campo, aumentar a capacidade produtiva, financiando máquinas e implementos agrícolas que vão garantir o aumento da produção de alimentos no Brasil”, destacou Machiaveli.

A secretária-executiva do MDA ressaltou ainda a promoção do acesso à alimentação como forma de incentivar a agricultura familiar, já que, segundo ela, cerca de 44% dos agricultores familiares hoje estão em situação de pobreza e extrema pobreza.

“Então, nós pensamos nessas duas pontas, para garantir que a agricultura familiar estruturada produza os alimentos com qualidade para alimentar a nossa população. Para isso, no início do ano, nos retomamos todos os programas de compras institucionais, e o mais importante é o Programa de Aquisição de Alimentos [PAA]. Esse programa garante a compra da agricultura familiar e leva esse alimento para a rede socioassistencial, que justamente fornece alimentação para quem está em situação de pobreza, quem está em situação de fome”, disse.

Além disso, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) foi fortalecido com reajuste importante nos repasses para os municípios. “[Cerca de] 30% do valor são destinados para a compra de produtos da agricultura familiar, que vão garantir uma merenda escolar de qualidade, com alimentação de qualidade, diversificada, saudável para as nossas crianças. Para muitas delas, essa é a principal refeição do dia”, disse Machiaveli.

“Além de tudo, nós fizemos uma lei do PAA que estabeleceu uma nova modalidade de compra institucional, quer dizer que 30% da compra de todos os alimentos do governo federal também vão ser da agricultura familiar, compra dos hospitais, dos exércitos, restaurantes, enfim, nós vamos abastecer toda a nossa rede com produtos também oriundos desses agricultores”.

Reforma agrária

De acordo com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), hoje são quase 960 mil famílias de trabalhadores rurais distribuídas em 9.444 assentamentos da reforma agrária, totalizando 87,8 milhões de hectares, em todos os estados. A democratização do acesso à terra para agricultores familiares demanda um conjunto de medidas e ações do poder público, com o objetivo de promover a redistribuição de lotes. De acordo com Fernanda Machiaveli, essas ações já estão previstas no cronograma do ministério.

“Nós construímos o plano emergencial para a reforma agrária, então, nós temos uma série de ações e algumas delas ainda vão ser lançadas, mas, nesse Plano Safra, nós já fizemos dois decretos que têm um impacto muito importante. O primeiro foi o reajuste do Crédito Instalação, [que é] um recurso que esse agricultor vai receber assim que ele chega e a gente aumentou muito os valores. Então, para poder construir a sua casa, naquela área, agora vão ser R$ 75 mil que esse agricultor vai receber de crédito, um crédito também bastante subsidiado para que ele tenha uma casa naquela terra nua que ele recebe; e um Crédito Fomento, esse fomento é para ele começar a produzir, e a gente criou, nesse decreto, além do Fomento Mulher, que foi reajustado, o Fomento Jovem. Então para que aquela mulher que chega para começar a produzir, para que aquele jovem que está chegando naquela propriedade possa ficar, queira ficar e tenha estímulo para começar a sua própria produção”, explicou.

Além do Crédito Fomento, do Fomento Mulher e do Fomento Jovem, o Crédito Instalação, tem ainda outras modalidades, como Apoio Inicial, Semiárido, Florestal, Recuperação Ambiental, Cacau, Habitacional e Reforma Habitacional. Para ter acesso às modalidades, as famílias devem atender a requisitos como a atualização dos dados no Incra e a inscrição no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico). Cada linha do Crédito Instalação tem critérios específicos, indicados no Decreto nº 11.586/2023.

“É uma decisão do nosso governo que as políticas públicas têm que chegar para você, mulher agricultora, você homem agricultor, para você jovem, para você que faz parte dos povos e comunidades tradicionais. Nós queremos levar compras, crédito, assistência técnica para todos os agricultores e agricultoras familiares do nosso Brasil. A gente vai garantir de novo a segurança alimentar do nosso povo no campo e na cidade. Se o campo não planta, a cidade não janta”, afirmou Fernanda Machiaveli.

O programa Brasil em Pauta vai ao ar a partir das 22h30 deste domingo (16), no Canal Gov.




Fonte: Agência Brasil

Colisão frontal entre carro e van mata três pessoas na Rodovia Salim Farah Maluf, em Caiabu




Veículo trafegava no sentido de Martinópolis (SP) a Caiabu (SP) quando, por motivos a serem esclarecidos, se chocou contra a van, que seguia na pista oposta, na altura do km 13,630. Colisão frontal entre carro e van mata três pessoas na Rodovia Salim Farah Maluf, em Caiabu (SP)
Polícia Militar Rodoviária
Três pessoas morreram em um acidente de trânsito na noite deste sábado (15), na Rodovia Salim Farah Maluf (SPA 431/425), em Caiabu (SP).
O carro em que elas estavam trafegava no sentido de Martinópolis (SP) a Caiabu quando, por motivos a serem esclarecidos, se chocou frontalmente com uma van, que seguia na pista oposta, na altura do km 13,630.
Segundo informações da Polícia Militar Rodoviária, as vítimas tinham 28, 30 e 45 anos.
O motorista da van, que teve ferimentos leves, realizou o teste do bafômetro e o resultado deu negativo para ingestão de álcool, ainda de acordo com a corporação.
A Polícia Científica foi acionada para apurar as causas e circunstâncias do acidente.

Veja mais notícias em g1 Presidente Prudente e Região.




Fonte: G1

Diálogo é importante para segurança das crianças na internet


Com os desdobramentos da Operação Dark Room – que prendeu acusados de utilizar o aplicativo Discord para a prática de crimes relacionados a violência sexual e psicológica, como estupro e estímulo à automutilação e ao suicídio –, a questão da segurança de crianças e adolescente na internet voltou a ganhar destaque.

Segundo a psicóloga e diretora da Organização não Governamental (ONG) Safernet, Juliana Cunha, é um grande desafio para as famílias mediar a relação dos filhos com a tecnologia. Ela pondera que alguns pais preferem ter mais controle com algum programa que monitore a navegação dos filhos pela internet. “As próprias redes sociais oferecem ferramentas de controle parental”, lembra.

“Outros pais adotam a abordagem de dar mais autonomia e liberdade para os filhos para construir confiança. Esses pais adotam o diálogo o que também é importante. Mas não adianta a gente usar as ferramentas de controle e não ter o diálogo, e também deixar só no diálogo e não ter algum tipo de acompanhamento dos filhos na internet”, diz Juliana.

Para a psicóloga, o diálogo é fundamental para preparar as crianças a responder aos riscos. “As famílias também precisam conversar sobre sexualidade. É importante entender que a adolescência é o momento de florescimento da sexualidade. Os pais precisam lidar com isso e muitas vezes não estão preparados para ver os filhos crescerem. É um grande obstáculo os filhos terem medo de conversar com os pais por temerem ser punidos com a retirada do celular”.

A diretora da Safernet destaca que a escola pode ser uma importante aliada para as famílias que ficam perdidas nesse trabalho de mediação parental dos filhos com a internet e pode ser esse espaço de conscientizar as famílias para os problemas.

O delegado responsável pela Operação Dark Room no Rio, Luiz Henrique Marques, titular da Delegacia da Criança e Adolescente Vítima, ressalta que os pais precisam observar eventual mudança de comportamento, porque os filhos podem ser vítimas mas também abusadores.

“O quarto do seu filho é um ambiente com portas abertas para o mundo. Dali, com a internet, você tem acesso a tudo de bom que a internet trouxe, mas a tudo de ruim que também se apresenta ali. A investigação mostrou que os menores de idade não podem ter acesso livre à internet, têm que ser monitorados. Também é preciso conversar muito com seus filhos”, diz o delegado.

Ele destaca que, na Operação Dark Room, abusadores e vítimas têm 15 e 16 anos e que a maioria dos pais não sabia que seu filho era abusador ou vítima.




Fonte: Agência Brasil

Evento Salve Malandro movimenta Gamboa neste domingo


O projeto Velhos Malandros promove neste domingo (16), em parceria com o Instituto Pretos Novos e o Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira, o evento gratuito Uma Aventura Afro Diaspórica Salve Malandro! na Gamboa, região portuária do Rio de Janeiro. 

A programação, que começa às 10h, inclui uma feira de afro empreendedorismo com o Quilombo Aquilah, tambor de crioula com o coletivo Três Marias, carimbó com André Nascimento e o grupo Os Encantados. O encerramento é com o Pagode do Nadai, que recebe grandes nomes do samba e valoriza a ancestralidade negra. Para as crianças, a atração é o Cine Clube Periférico, atividade com arte-educadores e feira de gastronomia.

Além disso, o Instituto Pretos Novo oferece o Circuito Histórico de Herança Africana, que é gratuito. O passeio é uma viagem pelo processo da diáspora africana e da formação da sociedade brasileira, na região portuária. Saindo do Largo da Prainha, o circuito passa por locais como a Pedra do Sal e o Cais do Valongo, terminando no Cemitério dos Pretos Novos.

O projeto Velhos Malandros, idealizado pelo jornalista e sambista Alexandre Nadai e contemplado pelo edital Fomento à Cultura Carioca , da prefeitura do Rio de Janeiro, surgiu como uma proposta de revitalização e resgate da história do samba.

Segundo Nadai, o projeto, criado em 2011, é uma homenagem aos grandes mestres do samba, que tem como padrinhos Noca da Portela, Zé Luiz do Império Serrano e Eliane Faria. A iniciativa “contribui para a criação de uma consciência de preservação do patrimônio histórico e cultural brasileiro, em defesa dos bens culturais que envolvem as matrizes do samba, com a participação de artistas e representantes de comunidades afro-brasileiras”, disse Nadai.

Surgido no Teatro Odisseia, na Lapa, o Velhos Malandros passou pelo Centro Cultural Cartola e fincou raízes na Praça da Harmonia, na Gamboa, em 2012, valorizando o samba e sua ancestralidade, dentro do circuito de Herança Africana.

*Estagiário sob supervisão de Akemi Nitahara 




Fonte: Agência Brasil

Exposição reúne em SP ilustradores negros da literatura infantil


A exposição Karingana, no Sesc Bom Retiro, no centro da capital paulista, reúne a arte de 47 ilustradores negros de diversas regiões do país. Mais de cem trabalhos voltados para a literatura infantil estarão expostos a partir de hoje (15) até 28 de fevereiro de 2024.

São Paulo (SP)  Exposição reúne em SP ilustradores negros da literatura infantil. Zeka Cintra, ORANYAM E A GRANDE PESCARIA.  ILUSTRADOR POR ZEKA CINTRA,

Ilustração de Zeka Cintra, Oranyam e a Grande Pescaria  – Divulgação

A mostra está instalada no segundo andar do edifício e busca oferecer ao público uma imersão no universo lúdico infantil, com a celebração das culturas afro-brasileiras e reflexões sobre negritude, ancestralidade e antirracismo.

“Se olharmos para a história da literatura infantil brasileira, a gente sabe que personagens negros eram estereotipados ou invisibilizados. E essa é a relevância talvez dessa exposição: quando a ilustração negra está presente ela traz outra perspectiva, outro olhar para os personagens, vendo boniteza e beleza nessa história e nesses corpos que habitam esse livro”, destaca a curadora Ananda Luz.

A montagem do espaço e a própria disposição das obras compõem um mosaico de diferentes técnicas, linguagens e significados, que parte do ponto de vista da própria criança.

“É um reconto de mundo. Quando estou ilustrando, o foco é trazer uma nova visão de como o mundo pode ser construído, mais afrocentrada. Eu acho que a força está em trazer essa ancestralidade do reconto; e nas crianças poderem ter uma outra visão de mundo que não das visões ocidentais”, ressalta um dos ilustradores da mostra Rodrigo Andrade.

São Paulo (SP)Exposição reúne em SP ilustradores negros da literatura infantil.  ILUSTRADO POR RUBEM FILHO.

Ilustração por Rubem Filho, em exposição no Sesc Bom Retiro, em SP – Divulgação

A mostra coletiva também oferece oficinas, bate-papos, contação de histórias e atividades que promovem a interação entre crianças e adultos, baseadas na educação antirracista.

O Sesc Bom Retiro fica na Alameda Nothmann, 185. A visitação vai até 28 de janeiro de 2024, de terça a sexta, das 9h às 20h (exceto 21 de novembro); sábados, das 10h às 20h; domingos e feriados, das 10h às 18h. O ingresso é gratuito.

Colaborou Guilherme Jeronymo, da TV Brasil.




Fonte: Agência Brasil

Alexandre de Moraes é hostilizado na Itália e políticos reagem


O ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, e o presidente do Congresso Nacional, Rodrigo Pacheco, usaram as redes sociais neste sábado (15) para condenar a agressão sofrida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes em um aeroporto, em Roma. Segundo informações divulgadas por veículos de imprensa, o magistrado foi hostilizado na capital italiana e seu filho chegou a ser agredido com um soco no rosto.

“Até quando essa gente extremista vai agredir agentes públicos, em locais públicos, mesmo quando acompanhados de suas famílias? Comportamento criminoso de quem acha que pode fazer qualquer coisa por ter dinheiro no bolso. Querem ser ‘elite’ mas não tem a educação mais elementar”, criticou Dino em sua conta no Twitter.

Pacheco usou a mesma plataforma para condenar o ato. Ele considerou “inaceitável” a agressão sofrida pelo magistrado e sua família e afirmou que tal comportamento distancia do país do progresso.

“Mais do que criminoso e aviltante às pessoas, às instituições e à democracia, esse tipo de comportamento mina o caminho que se visa construir de um país de progresso, civilizado e pacífico”, disse Pacheco.

“Todos os lados precisam colaborar para que o antagonismo fique no campo das ideias e das ações legítimas. Se a Nação, ainda dividida, não é capaz de substituir o ódio pelo amor, que o faça ao menos pelo respeito”, acrescentou o senador.

Vários outros parlamentares se manifestaram. As deputadas Gleisi Hoffmann (PT-PR) e Jandira Feghali (PCdoB-RJ) estão entre eles. “O ato é fruto do ódio e da ignorância desses que sempre alimentaram um projeto autoritário, antidemocrático e violento para o nosso país”, disse Jandira.

“Os agressores já foram identificados e inquérito instaurado pela Polícia Federal. Que paguem no rigor da Lei. Nossa solidariedade ao ministro e família”, acrescentou.

Já o senador Renan Calheiros (MDB-AL), que é autor de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que atribui ao STF a competência para julgar ações antidemocráticas, afirmou que tentará votar o texto em agosto.

“A agressão de ogros contra Alexandre de Moraes mostra que é hora de punir os crimes de ódio, alguns já tipificados. Vamos enquadrar a intolerância política, como propus no ‘pacote da Democracia’. Vou procurar o relator Veneziano do Rego e o Presidente para votarmos em agosto”.




Fonte: Agência Brasil

Congresso da UNE chega à reta final com definição de propostas de ação


Às vésperas do encerramento do 59º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), lideranças do movimento estudantil ouvidas pela Agência Brasil reafirmaram a importância do evento, que classificam como “o maior encontro político da juventude brasileira”.

“Acreditamos que, este ano, o congresso tem sido vitorioso. Seja pela programação política que contou com convidadas e convidados como o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, seja pela forte presença institucional, incluindo a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, disse a presidente da UNE, a amazonense Bruna Brelaz, lembrando que a última vez que um chefe do Poder Executivo brasileiro compareceu ao evento foi em 2009, quando o próprio Lula prestigiou o encontro.

Segundo a UNE, cerca de 10 mil estudantes de todo o país estão em Brasília, desde a última quarta-feira (12) para o encontro. Após uma extensa agenda de debates, atividades culturais e atos políticos – a exemplo do protesto de sexta-feira (14), em frente ao Banco Central, alvo de críticas por manter alta a taxa básicas de juros – os estudantes participam, hoje (15) e amanhã (16), da plenária em que serão votadas as principais propostas de ação da entidade.

Neste domingo, também serão escolhidas a futura presidência e diretoria da entidade para os próximos dois anos.

“Temos dividido nossa pauta entre as demandas que consideramos emergenciais e aquelas estruturantes”, explicou Bruna Brelaz, destacando que o congresso entrou hoje em sua fase “mais bonita”.

“É o momento de maior mobilização, o mais tensionado, já que há diferentes opiniões e expectativas, o que representa a diversidade do movimento estudantil do país e a capacidade da UNE de representar esta multiplicidade.”

Para o gaúcho Tiago Morbach, da União da Juventude Socialista (UJS), a presença de tantos estudantes de diferentes regiões do país confirma a capilaridade da UNE, que completa 86 anos este ano.

“O congresso cumpre um papel muito importante, transmitindo uma mensagem do movimento estudantil, da juventude brasileira, que está mobilizada para construir as transformações de que o Brasil precisa neste novo momento político”, disse Morbach, reforçando a opinião de Bruna Brelaz sobre a diversidade de propostas e a intensidade dos debates.

“É durante a plenária final do congresso que aflora a democracia que caracteriza a UNE. A quantidade de opiniões deve ser vista com otimismo e respeito”.

Já a vice-presidente da UNE, a carioca Júlia Aguiar, ressaltou os desafios que a entidade e o movimento estudantil como um todo enfrentaram ao longo dos últimos anos para dimensionar a importância do atual congresso.

“Devido à pandemia, fomos impedidos de realizar o encontro presencialmente por quatro anos. Mesmo assim, não só voltamos a organizar um evento gigante, como construímos o processo de escolha da futura diretoria. Tudo isso é de fundamental importância para a renovação do movimento estudantil. Muitos estudantes estão participando de seu primeiro encontro em um contexto político que nós, que defendemos uma educação mais inclusiva e democrática, consideramos melhor. Até porque, no último período, obtivemos uma vitória fundamental: a derrota do neofascismo e do bolsonarismo. Ainda que saibamos que a extrema-direita siga organizada”, comentou Júlia, que integra o Levante Popular da Juventude, próximo ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a outras organizações sociais do campo.

Prioridades

Ao comparecer ao Congresso da UNE, o presidente Lula recebeu de representantes do movimento um documento com algumas das principais reivindicações estudantis para os próximos anos. Nas palavras do presidente, a pauta é “longa, árdua e apimentada”.

Segundo a presidente da entidade, Bruna Brelaz, as propostas – incluindo algumas que seguem em debate – estão divididas entre as consideradas emergenciais (como a transformação do Programa Nacional de Assistência Estudantil em lei nacional) e as estruturantes (a exemplo da criação da Universidade da Integração da Amazônia, com investimentos massivos em ciência e tecnologia). Além disso, durante a plenária, cada entidade defende as ações que considera prioritárias, conforme explicou Tiago Morbach.

“Nós, da UJS, por exemplo, buscamos que seja aprovada a proposição de uma reforma universitária que permita às instituições de ensino assumir um novo papel no desenvolvimento nacional, participando ativamente do enfrentamento à fome e à miséria. E que a UNE intensifique seu papel de mobilizadora social”, disse Morbach antes de comentar a reação presidencial ao documento preliminar:

“Eu, de fato, considero a pauta que entregamos ao Lula como, digamos, bem temperada. Ficamos muito felizes por o presidente ter reconhecido isso, pois pretendemos abrir um canal de diálogos com o governo a fim de que as reivindicações dos estudantes sejam levadas adiante. Não esperamos que elas sejam tiradas do papel sem que os estudantes estejam mobilizados e pressionando os governos, o Congresso Nacional e até mesmo o Banco Central”.

Já Júlia Aguiar elencou algumas das pautas defendidas pelo Levante Popular da Juventude no congresso:

“Nossa expectativa é de que, além de seguir mobilizando os estudantes em todo o país, possamos barrar retrocessos. Que revoguemos a Reforma do Ensino Médio e consigamos imprimir, na atual gestão federal, um projeto de educação que leve em consideração o fruto de nossos debates, fortalecendo as entidades de estudantes, que foram muito fragilizadas no último período”.




Fonte: Agência Brasil

Ativista da Costa Rica espera ver presidente negra no Brasil


A ativista afrofeminista Epsy Campbell (foto) afirmou neste sábado (15) que espera ver uma presidente negra no Brasil. Vice-presidente da Costa Rica de 2018 a 2022 e atualmente presidente do Fórum Permanente de Pessoas de Descendência Africana da Organização das Nações Unidas (ONU), Epsy participou do Festival Latinidades, que ocorre neste sábado (15) no Rio de Janeiro.

“Isso vai ser uma realidade. A questão é quando queremos que isso seja possível, em um período mais breve ou mais longe. Mas o futuro está escrito. Eu espero vir à passagem de poder para a primeira presidenta negra do Brasil”, disse Epsy. “Isso poderá mudar a estrutura de poder e as prioridades”, disse.

Epsy, que também é economista, integrou a mesa de abertura do evento, junto com a senadora mexicana Susana Harp; a embaixadora de Barbados no Brasil, TonikaThompson; e a escritora brasileira Conceição Evaristo.

Ela foi a primeira chanceler mulher da Costa Rica, em 2018, e a primeira vice-presidente negra da história do país.

“Estou totalmente convencida de que as mulheres mais jovens, e as negras fundamentalmente, vão transformar as estruturas de poder. Temos que trabalhar e começar, coletivamente, a enegrecer e feminizar o poder. Temos que cada vez mais derrubar os limites de identidade que nos impuseram”.

Já Susana Harp falou sobre sua luta para o reconhecimento da população afromexicana em seu país que, segundo ela, ainda está “usando fraldas” quando se trata de combater o racismo. Para Susana, por muitos anos, o México não reconheceu a existência dessa população, tratando-os apenas como mestiços.

Rio de Janeiro (RJ), 15/07/2023 - Susana Harp, senadora do México, participa do painel Memória e Bem Viver, no Festival Latinidades, no Museu da Amanhã, região portuária do Rio. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil

Senadora mexicana Susana Harp no Festival Latinidades 2023 – Tânia Rêgo/Agência Brasil

Além disso, a historiografia mexicana escondeu heróis como Yanga, negro que lutou pela independência do país no século XVII, e buscou clarear, nas imagens dos livros de história, as peles de outros personagens negros importantes como José María Morelos – um dos líderes da luta pela independência no século XIX, que usava touca para esconder seus cabelos – e Vicente Guerrero, segundo presidente mexicano.

“Na política, queremos equilibrar a participação das pessoas afromexicanas. No Senado da República, há 128 senadores e senadoras. Apenas uma é afrodescendente. Na Câmara de Deputados Federal, são 500 pessoas e só há três deputados e deputadas afrodescendentes.”

Apenas recentemente o quadro começou a mudar e, em 2019, a Constituição mexicana reconheceu os povos e comunidades afromexicanas como parte da composição pluricultural da nação.

Feminismo negro

Rio de Janeiro (RJ), 15/07/2023 - A escritora Conceição Evaristo, participa do painel Memória e Bem Viver, no Festival Latinidades, no Museu da Amanhã, região portuária do Rio. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil

Escritora Conceição Evaristo participa do painel Memória e Bem Viver, no Festival Latinidades, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro – Tânia Rêgo/Agência Brasil

Em sua participação na mesa de abertura, a escritora Conceição Evaristo, autora de livros como Ponciá Vicencio e Olhos d’Água, ressaltou a importância de um feminismo negro.

“Nós e as mulheres negras que vieram de um estrato popular e que conheceram a experiência de trabalhar em casas de madame sabemos como essas mulheres brancas influíram também na nossa visão sobre os homens negros. Quando, no processo de escravização e assinatura da Lei Áurea, os homens negros perderam o trabalho, e nós mulheres negras continuaram nas fazendas – e isso se transforma depois na empregada doméstica – cria-se um estereótipo do homem negro preguiçoso. Esse estereótipo foi construído através das mulheres brancas, das patroas, perguntando para as empregadas o que os homens delas faziam. E muitas vezes esses homens estavam desempregados”.

Rio de Janeiro (RJ), 15/07/2023 - A educadora e escritora, Helena Theodoro, participa do painel Memória e Bem Viver, no Festival Latinidades, no Museu da Amanhã, região portuária do Rio. Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil

Educadora e escritora Helena Theodoro – Tânia Rêgo/Agência Brasil

A educadora e escritora Helena Theodoro destacou que homens e mulheres negras precisam andar juntos, já que ambos são alvos de discriminação da sociedade.

“Nós precisamos uns dos outros. Já basta a guerra que nossos homens negros recebem da sociedade em geral”, ressaltou. “Homens e mulheres, pela nossa ancestralidade, têm papéis diversos mas estão juntos porque a discriminação é a mesma”.

Criado em 2008, o Festival Latinidades, considerado um dos principais eventos sobre mulheres negras da América Latina, busca desenvolver diálogos sobre o enfrentamento ao racismo e sexismo e promoção da igualdade racial.

Em sua 16ª edição, este ano o festival começou em Brasília, na semana passada, e passará ainda por São Paulo (dias 21 a 23) e Salvador (dias 29 e 30).

*Matéria alterada às 19h35 para correção do título. Epsy Campbel é ex-vice-presidente da Costa Rica e não ex-presidente, como publicado inicialmente.




Fonte: Agência Brasil