Pesquisa aborda relação entre fé e crime


É madrugada. Enquanto a maioria da favela dorme, um traficante está alerta. Ele é o responsável pela segurança da comunidade naquele dia. O silêncio nos becos é repentinamente interrompido pela aparição de um inimigo de outra facção. Os dois trocam tiros e o que foi surpreendido decide recorrer aos céus. “Eu orei na hora e disse ‘Senhor, se eu sou teu filho, cega esse homem, para que ele não me tire a vida’. E agora, tô eu aqui, pra glória de Deus, em nome de Jesus”.

O episódio é descrito no livro Traficantes evangélicos. Quem são e a quem servem os novos bandidos de Deus, da pastora e cientista da religião Viviane Costa. Ela ouviu a história do próprio protagonista, enquanto dava aulas de teologia em igrejas localizadas no Complexo de Israel. A região, cujo nome se refere ao povo escolhido no Antigo Testamento bíblico, reúne cinco favelas na zona norte do Rio de Janeiro: Parada de Lucas, Vigário Geral, Cidade Alta, Cinco Bocas e Pica-Pau.

Elas são administradas por Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, que além de traficante, também se identifica como pastor evangélico. Há, pelo menos, oito anos, ele tem expandido o número de territórios sob seu domínio.

Seria mais uma história recorrente na guerra de facções do Rio de Janeiro, se não fosse o uso extensivo dos símbolos e narrativas neopentecostais. Uma Estrela de Davi no topo da favela. Bandeiras de Israel desenhadas por toda parte. Passagens bíblicas escritas nos muros, entre as quais se destaca a frase Jesus é o dono do lugar. Para completar, postura intolerante e agressiva contra outras religiões como terreiros de Umbanda e Candomblé fechados e destruídos, imagens de santos católicos proibidas.

Nesse cenário, surgem alguns questionamentos, alguém envolvido em atividades ilícitas – como tráfico de drogas, torturas e assassinatos – pode ser um religioso fervoroso ao mesmo tempo? Crime e fé são compatíveis? O que determina se um cristão é legítimo ou não?

A pesquisa de Viviane Costa passa por essas questões. Em entrevista à Agência Brasil, ela diz que é preciso entender esses traficantes dentro de um contexto maior, de crescimento da fé evangélica pentecostal no país e de como ela vem dialogando com outras identidades culturais.

Agência Brasil: Como surgiu a ideia da pesquisa e como foi o processo para conseguir reunir as informações que você precisava? Quais perguntas você queria responder com o estudo?

Viviane Costa: Eu comecei a dar aula nas favelas de Parada de Lucas e da Cidade Alta em torno de 2015 e 2016. Eu tinha me formado em Teologia, estava fazendo licenciatura em História e, quando comecei a dar aula em igrejas pentecostais, passei a conhecer melhor as dinâmicas das favelas na zona norte e zona sul. Apesar de eu ser de Nova Iguaçu, um lugar de periferia, as dinâmicas do lugar onde eu moro, dominado pela milícia, são diferentes das dinâmicas de um lugar como Parada de Lucas e Cidade Alta. Nessa experiência, algumas turmas tinham pessoas que estavam saindo do mundo do crime, em um processo de transição, e que traziam uma perspectiva diferente desse universo. E aí, eu comecei a perceber como a favela identificava o próprio cotidiano nos muros, nas ruas e nos comércios. Entre 2016 e 2017, identifiquei uma mudança nesse cenário, a partir das assinaturas Jesus é o dono do lugar em alguns muros, substituindo outras imagens antigas que estavam ali naquele mesmo espaço. Era o caso das imagens de São Jorge, que foram substituídas por essa mensagem simbólica do universo evangélico pentecostal. Identifiquei que as mensagens tinham uma relação com a dominação do espaço. E essa frase foi o que mais me chamou a atenção e parei para pensar ‘Como Jesus estaria relacionado com essa dominação do tráfico?’. Como teóloga e pastora, pensava em uma forma de provar que o nome de Jesus não poderia ser usado em contextos de violência. Entrei no mestrado em Ciências da Religião, na Universidade Metodista de São Paulo, na linha de pesquisa linguagens da religião. A ideia era, portanto, afirmar que aquela narrativa baseada em Jesus, usada para dominação de um território do Rio de Janeiro pelo crime organizado, não poderia se sustentar. Ao fazer a pesquisa de produção sobre as mudanças do campo religioso brasileiro mais recentes, consultei alguns teóricos da área que já tinham pesquisas sobre o assunto na zona norte. E compreendi que, na verdade, não tinha como eu provar que o nome de Jesus não podia ser usado. O que eu podia fazer era tentar entender por que o nome de Jesus estava sendo usado na construção da narrativa e nas dominações de território no Rio de Janeiro, nessas favelas que hoje ficaram conhecidas como Complexo de Israel.

Agência Brasil: Além de cientista da religião, você também é pastora evangélica. Como essa outra identidade influencia a pesquisa?

Viviane Costa: Quando olhamos para um objeto de pesquisa, olhamos a partir do lugar que estamos. Então, eu posso estar no lugar de uma cientista social, de uma antropóloga, de uma cientista da religião. Eu sou uma cientista da religião religiosa. Se eu olho para o objeto como uma cientista da religião não religiosa, eu vou ter algumas limitações. Por exemplo, não ter vivido aquela experiência mais de perto, não reconhecer alguns símbolos e significados, não entender a teologia que está ali nas narrativas do Complexo de Israel. Então, olhar para o objeto com mais distanciamento, sendo uma não religiosa, teria uma riqueza e importância. Mas também uma limitação de método, por não entender a teologia e a experiência religiosa vivida pelos traficantes. Quando eu olho para esse lugar como uma pastora e teóloga pentecostal, consigo entender a experiência religiosa deles como alguém que viveu experiências semelhantes e ler melhor a teologia que aparece nos lugares.

Agência Brasil: Alguns pesquisadores usam o termo narcopentecostalismo quando se referem ao crescimento de organizações criminosas que adotam narrativas evangélicas. Para você, esse é um conceito adequado para tratar do assunto?

Viviane Costa: Eu discordo do conceito de narcopentecostalismo, porque dá uma ideia de ineditismo ou de exclusividade do movimento pentecostal na relação da religião com o crime. O que não é uma realidade. De acordo com o Marcos Alvito, em As cores de Acari, essas dinâmicas de destruição e substituição de divindades, imagens e pinturas nas paredes já aconteciam antes. A presença da religião na estrutura do crime não é algo novo. Eu prefiro usar “narcoreligião” para pensar de forma mais ampla o papel das identidades religiosas no tráfico de drogas do Rio de Janeiro.

Agência Brasil: Muitos líderes e fiéis evangélicos se incomodam ao ver a religião deles associada com os traficantes. O entendimento é de que as atividades criminosas são incompatíveis com as práticas cristãs. E você usa a expressão no título do livro. Traficantes podem ser considerados evangélicos legítimos?

Viviane Costa: Quem pode dizer quem é evangélico? Primeiro, é preciso pensar no caminho que o campo religioso brasileiro trilhou nas últimas décadas. Nós tínhamos um país hegemonicamente católico e essa cultura religiosa estruturava a sociedade. As pessoas se identificavam com as práticas, os feriados, os cultos e as divindades católicas com muita naturalidade. Sendo elas católicas praticantes ou não. O catolicismo sempre esteve presente na vida das pessoas para além dos ritos e liturgias. E há um tempo a gente começa a ver essa mudança religiosa no caldo cultural brasileiro, que fica cada vez mais evangélico pentecostal. Quando falamos dos católicos, como dizer quem é católico de verdade: o praticante ou o não praticante? Se nos dois casos as pessoas se identificam como católicas? Quando o movimento evangélico começa a crescer, as fronteiras que determinavam uma conversão à fé evangélica, se ela seria legítima do ponto de vista mais tradicional, tanto para uma teologia reformada ou pentecostal, ficam cada vez mais pulverizadas. E ganham mais características de uma religiosidade popular, transversal, construída a partir da experiencia individual e comunitária. E nesse caldo cultural brasileiro que ganha cada vez mais uma identidade evangélica, surgem novas e múltiplas identidades evangélicas. Nesse contexto, podemos entender a existência de um traficante que se identifica como evangélico, tem práticas evangélicas e foi ordenado a pastor evangélica em uma igreja da Baixada Fluminense. E que continua com as práticas evangélicas de oração e de jejum, e relata ter experiências de visão e de revelação. Ao mesmo tempo, determina estratégias para o Complexo de Israel de conquista de territórios e de confrontos. Isso, a partir de leituras bíblicas e de instruções espirituais que diz receber no monte ou nas orações feitas em casa. Ele traz essa experiência religiosa e a aplica na estrutura, dinâmica, ética e estética do Complexo de Israel.

Agência Brasil: No seu entendimento, então, não se trata de uma estratégia de manipulação das narrativas cristãs para tentar suavizar a violência e dar alguma legitimidade às atividades criminosas?

Viviane Costa: Nessa relativização do que é ser evangélico hoje e nas múltiplas identidades que cabem nessa categoria, é possível ser evangélico com menos rupturas do que há alguns anos. Entendendo a partir dessa leitura, ele pode se dizer evangélico. Na perspectiva da Ciência da Religião, é importante olhar para o fenômeno religioso e perceber como o sujeito entende e narra a experiência dele. No exemplo do Álvaro Malaquias, o Peixão, ele se vê como alguém que tem pecados, erros e acertos. Algumas relativizações são necessárias, apesar de outras não serem possíveis nem para ele. Mas aí entra a possibilidade do perdão, do ajuste, da tentativa de ser uma pessoa melhor e de estar caminhando em busca da perfeição. E nesse olhar, eu entendo que, de fato, ele está expressando uma experiência religiosa que é atravessada pela experiência dele no crime. O que não é diferente de um traficante, por exemplo, que procura uma casa de umbanda ou de candomblé para fechar o corpo. Nem de um traficante devoto de São Jorge, que espera proteção do santo guerreiro e justiceiro, que ele o ajuda na conquista de determinado território.

Agência Brasil: E como é a leitura que esses traficantes fazem da bíblia? Chama a atenção que livros e trechos do Antigo Testamento sejam mais usados. Por que essa escolha?

Viviane Costa: Quando a gente fala do Antigo Testamento, está pensando na história de um Deus que escolhe um povo e o liberta de uma terra considerada lugar de opressão. Não sem sofrimento, não sem dificuldades, não sem passar por um deserto, nem sem ter muitos inimigos no caminho. Mas que dá a vitória ao povo, que chega na terra prometida. No caso do Complexo de Israel, essa terra prometida é a Cidade Alta. Então, o texto do Antigo Testamento, que é muito importante para os movimentos pentecostais, acaba ganhando maior peso em relação à mensagem do Novo Testamento, que é mais baseado na vida e nos atos de Jesus. Nos textos do Antigo Testamento, são invocadas imagens de Davi, de Josué, dos guerreiros conquistadores de terras e de promessas dadas por Deus. São homens fortes invadiram territórios, mataram pessoas e estabeleceram a vitória do Deus de Israel sobre as outras cidades e povos do Antigo Testamento.

Agência Brasil: Como é, dentro das favelas, a relação dos pastores com os traficantes evangélicos? Existe medo, resistência ou cumplicidade dos líderes das igrejas?

Viviane Costa: Tem um termo que a Cristina Vital usa no livro “Oração de Traficante”, que é “blindagem moral”, para se referir aos que são considerados os verdadeiros “homens de Deus”. Os reconhecidos assim são os que dão bom testemunho, não se envolvem e não aceitam o dinheiro do tráfico, não escondem armas, não participam da dinâmica do crime. Esses são muito respeitados. Inclusive, muitos deles são procurados quando esses traficantes se veem em uma situação de risco, por conta de uma ameaça de facção rival ou por conta de uma operação da polícia. São esses “homens de Deus” que eles procuram para orar pela vida deles e pedir proteção para não morrer em um confronto. Há também outras igrejas, que não representam a maioria, que se envolvem em alguma medida com a dinâmica do crime. Seja recebendo dinheiro para a realização de cultos na praça ou para convidar algum cantor famoso para as festas que são feitas na comunidade. Mas o pastor e a igreja respeitados nesses espaços são os que não participam, nem se “contaminam” com o mundo do crime. São esses que os traficantes procuram quando precisam de uma oração e de uma cobertura espiritual para os confrontos e as guerras na favela. Para lidar com o perigo que vem de todos os lados: do Estado, da facção rival ou de alguém dentro do próprio movimento, como os X-9, traidores que colocam em risco a segurança do movimento.

Agência Brasil: Você tem planos de continuar pesquisando o tema? O que ainda falta investigar sobre as conexões entre religião e crime nas favelas do Rio de Janeiro?

Viviane Costa: Tenho interesse em continuar olhando para o Complexo de Israel e para a relação entre tráfico e religião nas diferentes dinâmicas. Observar traficantes que se identificam também com outras religiões – catolicismo, umbanda, candomblé –, e se enxergam ou não no mundo a partir delas. E, principalmente, o papel da religiosidade no Complexo de Israel, onde a experiência religiosa influencia e estrutura uma construção ética, para além da estética, e serve de base para a violência contra religiões de matriz africana. Lugar onde uma revelação bíblica é fator decisivo nos planos de avanço desse território, como no plano recente de avanço em direção à Igreja da Penha. Tenho interesse em acompanhar quais serão os próximos passos da relação entre a experiência religiosa do Peixão e a vida no Complexo, entender como o Álvaro Malaquias conta a própria experiência e como ela acontece no cotidiano. E quero continuar buscando compreender a relação dele com Deus, com as pessoas da comunidade, com as favelas dominadas por grupos rivais e os desdobramentos disso para dentro e fora do Complexo do Israel.




Fonte: Agência Brasil

Câmara de BH aprova passe livre para moradores de favelas e estudantes


A Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte aprovou o passe livre no transporte público municipal para estudantes, mulheres vítimas de violência em deslocamento para atendimento, e em linhas que passem por favelas e vilas.  

Também foram aprovados a criação de auxílio-transporte para pessoas em tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS) e famílias em vulnerabilidade social, e a permissão para prefeitura abrir créditos adicionais no orçamento, até o limite de R$25.859.089,80, para implementar o transporte gratuito para toda a população aos domingos e feriados.

Para entrar em vigor, as medidas, aprovadas em segunda votação na Câmara na última sexta-feira (23), precisarão ainda ser sancionadas pelo prefeito Fuad Noman e, posteriormente, passar por regulamentação.

Os benefícios da gratuidade no transporte coletivo público municipal foram introduzidos no Projeto de Lei (PL) 538 de 2023 como contrapartidas pela autorização, dada pelos vereadores à prefeitura, de aumento dos subsídios no transporte público em mais R$ 512.795.984,00, no orçamento vigente. Com aumento dos recursos, o preço da passagem no município poderá reduzir. Hoje, dependendo da linha, a tarifa pode chegar a R$ 6.

No último dia 15, vereadores da Comissão de Finanças e Orçamento da Câmara Municipal de São Paulo protocolaram um projeto de lei (PL) que concede o passe livre no transporte coletivo público da cidade às pessoas inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) e desempregados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).




Fonte: Agência Brasil

Agência Brasil errou | Agência Brasil


Por erro da Agência Brasil, publicamos nesse sábado (24), às 14h37, a matéria Parque de Madureira ganha placa em homenagem ao compositor Monarco, mas essas informações referem-se a um fato ocorrido em 2021. A matéria foi despublicada neste domingo (25). Pedimos desculpas aos nossos leitores.
 




Fonte: Agência Brasil

Rio terá oficinas gratuitas de dança em julho


Com classificação a partir de 16 anos e atividades gratuitas, a primeira edição do Festival em MovimentoRio de Janeiro está com inscrições abertas pela Plataforma Sympla. A estreia será dia 4 de julho próximo, com oficinas no Centro Coreográfico do Rio, no bairro da Tijuca.

O festival objetiva apresentar a diversidade da dança contemporânea feita nas ruas, nas comunidades e em encontros artísticos. Um percentual das vagas está reservado para pessoas transgêneras e com deficiência (PCDs). O evento se estenderá até 22 de julho. Serão ao todo 280 vagas, distribuídas por 14 oficinas. Haverá também uma roda de conversa aberta ao público.

A curadoria é assinada pelos dançarinos Flora Baltz, idealizadora do projeto, e Romec, que têm vasta experiência em práticas corporais e carregam grande pluralidade artística. Flora disse à Agência Brasil que, no futuro, a ideia é tornar o festival itinerante. Romec afirmou que a intenção é percorrer diferentes regiões do país, realizando a cada ano o festival em um estado diferente.

“Mas a gente aproveitou a oportunidade do edital da prefeitura do Rio de Janeiro e vai oferecer três semanas de aulas gratuitas, de terça a sexta-feira, para dançarinos e profissionais da dança e, aos sábados, aulas abertas para o público em geral”, adiantou Flora. O projeto Em Movimento foi contemplado pelo Programa de Fomento Carioca – Foca 2022, da prefeitura do Rio de Janeiro, através da Secretaria Municipal de Cultura.

O festival contará com a participação de 13 professores facilitadores que são atuantes no Rio. Flora e Romec (Guilherme Andrade) idealizaram uma abertura ao evento para que professores possam apresentar suas próprias pesquisas no campo da dança. Dois exemplos são Renata Versiani, que dará oficina de Movimentação Singular, e Jacki Karen, que mostrará a Oficina Rebolativa, inspirada no funk.

A terceira semana do festival é dedicada a danças que surgiram no Rio em diferentes gerações. “A gente vai oferecer aulas de charme, dança que surgiu nos anos de 1980, na zona norte, aulas de passinho, que surgiu nos anos 2000, nas favelas cariocas, e o ritmo do funk”, disse Flora Baltz.

Abrindo espaço

Aos sábados, 50% das vagas são prioritárias para pessoas com deficiência. “A gente convidou professores que dão aulas pensando nessa abordagem de incluir pessoas com deficiência”, frisou. No primeiro sábado, a professora Moira Braga, cega, dará a oficina Consciência Corporal. Na semana seguinte, será a vez de Lilian Isídio ministrar a oficina de Dança Contemporânea. Ela estagia na Pulsar Companhia de Dança, voltada a pessoas com deficiência. Um tradutor e intérprete de libras estará presente para auxiliar deficientes auditivos inscritos nos encontros.

Durante a semana, 10% das vagas serão prioritárias para pessoas transgêneras. “A gente está querendo abrir esse espaço para que todas as pessoas se juntem em um espaço só”, salientou. A princípio, cada pessoa vai poder se inscrever em três aulas.

Rio de Janeiro (RJ) - Festival Em Movimento - Rio de Janeiro. - Dançarino Feijão- Foto: Arquivo Pessoal

Festival Em Movimento movimentará o Rio de Janeiro até 22 de julho. O dançarino Feijão será uma das atrações (Arquivo pessoal)

“A gente quer dar chance para todo mundo, para quem quiser chegar, chegar. Estou animadíssima”, avaliou Flora. Cada turma terá 20 vagas, sendo três prioritárias para pessoas transgêneras.

Estilos diferentes

O festival visa aproximar dançarinos que praticam diferentes estilos de movimentos, promovendo um intercâmbio de técnicas, vivências, diálogos, experiências, pesquisas e estratégias, sempre buscando práticas corporais distintas, vindas das diversas regiões do Rio. Serão oferecidas sequências de três aulas regulares de diferentes estilos, direcionadas a jovens a partir de 16 anos, sempre de terça a sexta-feira, com a duração de uma hora e trinta minutos cada.

Ao todo, os profissionais que estarão compartilhando seus conhecimentos são André Feijão (Locking Funk Soul Brasil); Valéria Monã (Danças Afro-Brasileiras), Titii Silva (Freettyle); Laranjinha (Passinho Foda); Salasar Júnior (Handstyles); Renata Versiani (Movimentação Singular); Lenna Siqueira (Afrohouse e Afro-Contemporâneo); DandaraPatroclo (Improvisação); Lilian Isídio (Dança Contemporânea); Jacki Karen (Oficina Rebolativa); VN (Passinho Foda); Jeff Antônio (Charme); e Moira Braga (Consciência Corporal).

Como ferramenta de democratização, serão disponibilizados auxílios-transporte para pessoas de baixa renda, inscritas em mais de uma oficina.




Fonte: Agência Brasil

Expo Favela Innovation Rio abre inscrições para empreendedores


A Expo Favela Innovation Rio 2023 está com inscrições abertas para os empreendedores de favela que querem expor suas ideias e inovações, na Cidade das Artes, nos dias 29, 30 e 31 de julho.

Para participar da feira organizada pelo Grupo Favela Holding, com parceria social da Central Única das Favelas (Cufa) e produção da InFavela, basta acessar o site www.expofavela.com.br. As inscrições para empreendedores, mentores e investidores estão abertas até o próximo dia 30 de junho e são gratuitas.

“Eu quero que a Expo Favela Innovation passe o espírito do empreendedorismo para o asfalto e empresas. O objetivo é encontrar uma grande relação para que a gente possa equilibrar as relações entre nós para além da favela e para além dos nossos discursos”, disse, em nota, Celso Athayde, idealizador do evento e CEO da Favela Holding.

As inscrições não garantem participação na feira. Os inscritos ainda passarão por uma curadoria realizada pela produção do evento, e depois selecionados e avisados das suas participações na edição carioca da maior feira que conecta favela e asfalto, através do empreendedorismo e da inovação.

Esses empreendedores vão passar por uma avaliação, durante os três dias de evento, que vai selecionar os 10 melhores que vão participar da edição nacional, que vai ocorrer em dezembro, em São Paulo.




Fonte: Agência Brasil

Irmãos morrem após motorista embriagado invadir a contramão e chocar caminhonete contra o carro da família, em Presidente Epitácio


Os irmãos trafegavam na pista oeste, no sentido capital-interior, quando houve a colisão. Com a batida, a caminhonete ficou no meio da pista e, na tentativa de desviar do acidente, um caminhão bateu contra uma mureta de concreto e tombou na via. O motorista do veículo, de 70 anos, sofreu ferimentos leves.




Fonte: G1

Motorista perde o controle da direção, bate veículo contra muro e invade comércio de peças usadas




Acidente foi registrado na madrugada deste domingo (25), na Rua Antônio Rodrigues, na Vila Formosa, em Presidente Prudente (SP). Motorista perde o controle da direção, bate veículo contra muro e invade comércio de peças usadas, em Presidente Prudente (SP)
Marcelo Gonçalves
Um acidente de trânsito envolvendo um carro foi registrado na madrugada deste domingo (25), na Rua Antônio Rodrigues, na Vila Formosa, em Presidente Prudente (SP).
O veículo trafegava pela via, no sentido bairro-Centro, quando, por motivos a serem esclarecidos, se chocou contra um muro e invadiu um comércio de peças usadas.
Segundo informações da Polícia Militar, o motorista do carro, de 57 anos, não sofreu ferimentos. Não havia passageiros no veículo.
A Polícia Científica foi acionada para apurar as causas e as circunstâncias do acidente.
Conforme a PM, a ocorrência foi registrada na Delegacia Participativa da Polícia Civil, em Presidente Prudente, como dano ao patrimônio privado.

Veja mais notícias em g1 Presidente Prudente e Região.




Fonte: G1

Hallyu: a onda coreana que é um fenômeno de exportação da cultura pop


Parasita, Oldboy, Round 6, BTS, Blackpink. Parecem fenômenos isolados, mas todos eles são exemplos de um alvoroço cultural que tem feito o entretenimento pop da Coreia do Sul ascender ao centro do mundo. A popularização de k-dramas, k-pop, Manhwa (os mangás), jogos online e filmes sul-coreanos têm ajudado a divulgar a cultura da Coreia do Sul para o restante do mundo. E isso não está acontecendo por acaso. Esse aumento na divulgação da cultura coreana é resultado de um forte investimento e incentivo da Coreia do Sul no setor. E a isso se chama Hallyu, ou onda coreana.

“A onda coreana é um fenômeno cultural de origem sul-coreana, o momento em que a Coreia do Sul começa a exportar de forma massiva todos os seus produtos culturais, a sua indústria cultural de cultura pop. Não é uma indústria cultural ligada a uma tradição da cultura coreana, mas sim ligada à sua produção de cultura pop. Resumindo: a onda coreana é um fenômeno de exportação da cultura pop sul-coreana, que se expandiu no primeiro momento para os mercados regionais, mercados vizinhos da Coreia do Sul, e hoje nós já podemos considerá-la como um fenômeno global”, explicou Daniela Mazur, doutoranda em comunicação pelo programa de pós da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora associada ao MidiÁsia, grupo de pesquisa em mídia e cultura asiática contemporânea.

São Paulo 24/06/2023 - Migração coreana- Feira do Bom Retiro, que reune a comunidade coreana. Foto Paulo Pinto/Agência Brasil

Apresentação na Feira Coreana do Bom Retiro que ocorre aos sábados. Foto Paulo Pinto/Agência Brasil

Em entrevista à Agência Brasil, Daniela Mazur disse que esse salto da cultura pop sul-coreana é recente e mostra a ascensão de um país que foi arrasado por diversas guerras e invasões e se transformou em um dos principais players globais neste século. Para isso, houve participação do governo, que criou leis de incentivo para que essa indústria cultural pop – e forte – pudesse se estruturar.

“O papel do governo da Coreia, especialmente no início da estruturação dessa indústria cultural, nacional e local, foi primeiramente legislativo, de dar condições de leis e de incentivos para que essa indústria começasse a se estruturar. No final dos anos 90, o país passou por uma crise financeira muito forte, que atingiu não só a Coreia do Sul. Na realidade, foi a crise financeira asiática, que abalou e destruiu várias economias regionais. A Coreia do Sul também foi um desses países que sentiu isso de forma muito intensa. Foi necessário então repensar as estratégias econômicas nacionais, no qual a cultura se mostrou como uma vertente importante não só para a economia do país, mas também para se pensar a estrutura de uma identidade nacional a ser exportada e ser pensada para além das fronteiras nacionais”, destacou.

Foi assim que o governo sul-coreano estabeleceu não só leis de incentivo, mas abriu cursos de comunicação nas universidades para formar pessoas que pudessem trabalhar nessa nova indústria.

“Essas leis de incentivo, que acontecem até hoje, têm essa perspectiva de ligar a iniciativa privada à iniciativa pública. São essas leis de incentivo que incentivaram as empresas privadas a investir na cultura”, ressaltou Daniela.

Foi a partir do final dos anos 1990 que essa indústria cultural, já com perspectiva de exportação de seus produtos, começou a se estruturar. Mas foi somente no início dos anos 2000 que ela passou a adentrar o Leste e o Sudeste Asiático e, dez anos depois, começou a ser consumida de forma global. “Em 2010, a gente vê mais claramente os produtos chegando a um universo que a gente considera como esse de consumo global, com exportações e vendas de produtos variados tanto de drama de TV quanto k-pop, filmes, animações e jogos sul-coreanos”, observou a doutoranda.

A onda coreana começou a invadir os mercados globais impulsionada pelas novas tecnologias de comunicação de web 2.0 e pelas redes sociais. “E os fãs tiveram um papel muito importante nisso, com esse papel de traduzir esses conteúdos. O coreano é um idioma com pouquíssima penetração global: apenas dois países falam coreano, só a Coreia do Sul e a Coreia do Norte. Então, o trabalho de tradução desses conteúdos foi essencial para que a Hallyu como um todo pudesse chegar a diferentes partes do mundo, especialmente através de um consumo não oficial. Quando eu falo não oficial é quando não é vendido para uma emissora de televisão, para cadeias de cinema ou é tocado na rádio, mas sim através dessa circulação pirateada pelos fãs”, explicou Daniela.

São Paulo 24/06/2023 - Migração coreana- Feira do Bom Retiro, que reune a comunidade coreana. Foto Paulo Pinto/Agência Brasil

Feira no Bom Retiro ocorre aos sábados e reúne a comunidade coreana. Foto Paulo Pinto/Agência Brasil

No Brasil, esses produtos começaram a chegar de forma crescente há pouco mais de dez anos, principalmente com o avanço das redes sociais e os primeiros shows de k-pop no país. “O marco que nós temos dessa virada é o início dos anos 2010 especialmente porque, nessa década, os primeiros grandes eventos de k-pop são realizados aqui no Brasil. Em 2011, recebemos um primeiro evento oficial, a vinda de um grupo de k-pop no Brasil, primeiramente através de um evento de fã, algo bem específico e, no final do ano, um show de grande porte realizado ali no Espaço Unimed [antigo Espaço das Américas], em São Paulo”, lembrou ela.

Dois anos depois, já marcado por esse impulso, instalou-se no Brasil o Centro Cultural Coreano, localizado na Avenida Paulista, em São Paulo. “Isso apontou para um consumo crescente aqui no Brasil e uma relevância do Brasil nesse meio para o governo da Coreia, já que o Centro Cultural Coreano é ligado ao consulado da Coreia aqui no Brasil. Na década de 2010 a gente vê esse crescimento no consumo. Não só o crescimento, mas também um enraizamento desse consumo aqui no Brasil”, disse.

“O Brasil é um mercado importante para a onda coreana hoje, especialmente pelo fato de estar literalmente do outro lado do mundo. O Brasil acaba sendo uma bandeira, uma prova, de que a onda coreana realmente tem uma penetração global bastante intensa”, acrescentou.

“O Centro Cultural Coreano, desde 2013, quando foi inaugurado, começou a apresentar a cultura coreana para o povo brasileiro”, explicou Cheul Hong Kim, diretor do Centro Cultural Coreano do Brasil (CCCB), em entrevista à Agência Brasil. “Mas, desde 1963 [quando os primeiros coreanos chegaram de forma oficial ao Brasil], a vida dos coreanos já é uma apresentação cultural, já projetou a cultura coreana para o Brasil”, disse ele.

Segundo o diretor do centro, o governo tem realmente incentivado a onda coreana. “O governo tem visto que bastante gente gosta da cultura coreana, então apoia bastante.”

Atração

Para a pesquisadora Daniela Mazur, o que torna a cultura pop coreana tão atrativa para o mundo é que ela começa a pensar as estruturas culturais para além do “consumo cultural estruturado através do imperialismo estadunidense”.

“O pop sul-coreano, no final das contas, é uma perspectiva local de lógica global que a gente já conhece mas, que de forma específica, se transforma e cria suas próprias identidades de forma local. Então, graças à força da onda coreana nas lógicas regionais e de suas próprias características – e graças às novas tecnologias da comunicação – estes produtos começam a chegar até nós e também a aderir outros consumidores que estão, em realidade, procurando outras formas de consumo desses produtos midiáticos. O interessante desses fluxos midiáticos globais é que cada vez mais eles estão mais diversos”, destacou.

E, com isso, a onda coreana mostra ao mundo que o entretenimento é muito mais diverso do que anteriormente se conhecia. “A onda coreana tem esse viés muito importante de trazer uma nova perspectiva cultural, nacional, não ocidental, não branca e não anglófona, para sermos lembrados, novamente, de que existe muito mais mundo para além desse mundo que a gente aprendeu a enxergar. Existe um universo de produção cultural, de produção midiática, que a gente pode conhecer e que a gente pode engajar para além desses polos centrais e ocidentais de consumo”, disse Daniela.

O superpremiado filme Parasita, que recebeu o prêmio de melhor filme no Oscar de 2020, ajuda a explicar essa importância da onda coreana para o mundo. “De uma forma ou de outra virou-se uma chave para poder mostrar para o resto do mundo que não existe só um centro produtor e de influência cultural global. Na realidade, estamos vivendo uma transição para um mundo multipolar de influências e de produção cultural”, ressaltou a pesquisadora.




Fonte: Agência Brasil

Quina de São João: oito apostas ganham e vão dividir R$ 216,7 milhões


O concurso especial da Quina de São João de 2023 teve oito apostas que acertaram as cinco dezenas sorteadas na noite deste sábado (24), no Espaço da Sorte, em São Paulo (SP). As dezenas sorteadas foram 12,13, 45, 47, e 70.  

As apostas vencedoras do concurso n 6.172 da Quina foram registradas em Anápolis (GO), Campo Grande (MS), Jaú (SP), Itaobim (MG), Belo Horizonte (MG), São Mateus do Maranhão (MA), Itabuna (BA) e Guaratuba (PR).

De acordo com a Caixa Econômica Federal, os ganhadores vão dividir o prêmio de mais de R$ 216,76 milhões e cada aposta vencedora levará o prêmio de R$ 27.098.455,57. É a maior premiação já paga na Quina de São João. O maior prêmio do concurso especial havia sido o de 2021, que pagou R$ 204,8 milhões, também, para oito apostas.

Considerando todas as quatro faixas de premiação, a Quina de São João premiou mais de 5 milhões de apostadores. Na segunda faixa de premiação, para o acerto de quatro números, 2.567 apostas vão levar R$ 7.431,19 cada. E as 194.275 apostas que acertaram três números vão receber R$ 93,51 cada. Também vão receber premiação da Quina de São João as 4.960.265 apostas que acertaram dois números, com R$ 3,66 cada uma.

Resgate dos prêmios

Os prêmios de até R$ 2.112,00 podem ser recebidos em qualquer casa lotérica credenciada ou nas agências bancárias da Caixa Econômica Federal. Mas, os prêmios brutos superiores a este valor são pagos exclusivamente nas agências da instituição.

A Caixa recomenda que o apostador já escreva no verso do recibo da aposta premiada o nome completo e CPF para assegurar que ninguém retire o prêmio em seu lugar. O bilhete ficará intransferível. Caso contrário, o bilhete é ao portador. Em caso de bolão, cada participante pode fazer o mesmo no verso de seu recibo individual de cota.

Os prêmios de loterias devem ser retirados em até 90 dias após o sorteio. Após este prazo, o prêmio prescrito é repassado ao Fundo de Financiamento ao Ensino Superior (Fies), conforme Lei 13.756/18.




Fonte: Agência Brasil

Multicultural, Bom Retiro tem projeto de se tornar bairro de coreanos


Localizado entre os rios Tietê e Tamanduateí, próximo à Estação da Luz e bem na região central de São Paulo, o bairro do Bom Retiro reúne uma grande variedade de lojas, centros culturais, instituições religiosas e restaurantes, mas a sua marca principal são as confecções. A história do bairro remonta a 1880, quando o barão do café, Joaquim Egídio de Sousa Aranha, que tinha uma propriedade na região, chamada de Chácara do Bom Retiro, decidiu lotear a fazenda para a construção de casas para os trabalhadores da indústria.

Isso ocorreu pouco tempo depois da inauguração de uma linha de trem que passava pela região e que ligava as cidades de Jundiaí e de Santos, com passagem pela capital paulista. Trajeto que era muito utilizado pelos imigrantes, que desembarcavam no Porto de Santos.

“O Bom Retiro é um bairro que, desde o final do século 19, recebe fluxos sucessivos de estrangeiros que chegam a São Paulo. Não é o único bairro, mas ele tem algumas particularidades: primeiro por causa da localização, que é central, próxima da Estação da Luz. Ele também tem uma atividade econômica importante desde os anos 20, com a indústria de comércio e de confecções, que começa a se estruturar. E ele oferece, além de condições de trabalho, condições de moradias para quem chega A São Paulo”, explicou Sarah Feldman, professora do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP) do campus de São Carlos.

Ex-moradora do bairro, ela ajudou a levantar informações para o documentário O Bom Retiro É o Mundo, de André Klotzel. “O Bom Retiro tem essa atividade de comércio de confecções, que permanece hoje com os coreanos, e ele oferece uma forma de moradia de aluguel. Ele sempre foi – e continua sendo – um bairro concentrador de cortiços, que é uma solução de moradia de aluguel, em condições precárias, mas é uma alternativa de moradia na periferia, próxima a emprego e equipamentos públicos. Isso é uma alternativa de moradia para a população de baixa renda e para quem chega a São Paulo”, acrescentou Sarah.

Os primeiros a chegarem ao bairro e que o transformaram em uma vila operária foram os ingleses. “Já na construção da ferrovia, os engenheiros ingleses ocupavam as chácaras porque, antes da urbanização, ali era constituído por chácaras. Depois tem uma sucessão de grupos estrangeiros: os portugueses, os italianos, os espanhóis, os judeus, os gregos, os iugoslavos, os coreanos. E então vem o ciclo de imigrantes latino-americanos, africanos e, os bolivianos”, destacou Sarah.

É por isso que uma das principais características desse bairro é a sua multiculturalidade. “Esses grupos se instalam no bairro mantendo relações de trabalho e de moradia. E é só caminhar pelo bairro para você ver essa diversidade. Toda essa diversidade da população do Bom Retiro está marcada no território”, disse Sarah.

Os coreanos

A partir da década de 1960, os coreanos começaram a vir ao Brasil. O primeiro grupo de imigrantes a chegar ao território brasileiro de forma oficial veio em 1963, há exatos 60 anos, num tipo de imigração que a professora e socióloga Margareth Rogante denomina como familiar.

“Os [coreanos] mais antigos contavam que vieram com a família. Acho que 90% deles vieram por indicação dos parentes que já estavam aqui e vieram com toda a família”, disse ela, em entrevista à Agência Brasil. “Os coreanos vieram com a família, com a intenção de fixar-se. E eles fixaram-se, cresceram e estão aqui [no Brasil]”, acrescentou a socióloga, que há alguns anos desenvolveu o estudo A Imigração Coreana: o Processo de Fixação e Ascensão Social dos Imigrantes e Descendentes do Bairro do Bom Retiro.

Segundo ela, esses imigrantes chegaram ao país inicialmente com uma proposta de ir para o interior, trabalhar no campo. “Eles compraram terras, em princípio, para produção de alimentos na área rural, mas os projetos não deram certo e eles acabaram voltando para a cidade. A massa dessa imigração veio entre as décadas de 60, 70 e 80. E aí eles começaram a se fixar nos bairros centrais”, contou.

E foi assim que os coreanos começaram a ocupar principalmente o bairro do Bom Retiro. “O Bom Retiro tinha características que foram imprescindíveis para a escolha porque eles [coreanos] já vieram com o ofício da costura, a comunidade já tinha esse conhecimento. Então foi uma área mais fácil de atuar, embora muito dificultosa. Eles se reuniam em associações e em igrejas e tiveram que se dar muito apoio. Uma característica muito importante é que uma parte deles [desses imigrantes coreanos] declarou que veio com pouco dinheiro mas, por meio desses consórcios, as pessoas se reuniam e as lideranças entregavam o consórcio de acordo com a necessidade da família e já indicava: ‘olha, está faltando botão de pressão, você pode entrar nesse ramo?’ Então eles foram se agrupando e se organizando desta forma. Por isso a escolha do Bom Retiro. Todos que vinham já tinham mais ou menos a indicação do bairro”, explicou Margareth.

São Paulo 24/06/2023 - Migração coreana- Feira do Bom Retiro, que reune a comunidade coreana. Foto Paulo Pinto/Agência Brasil

Feira coreana no Bom Retiro ocorre aos sábados e reúne a comunidade coreana. Foto Paulo Pinto/Agência Brasil

A médica Hee Jeung Hong, que desenvolveu um estudo chamado Imigração e Envelhecimento em São Paulo: Perfil de um Grupo de Idosos Coreanos, também constatou que a maior parte dos coreanos que chegaram ao Brasil preferiu viver no Bom Retiro “pela facilidade dos relacionamentos, acesso a restaurantes e produtos culinários típicos”.

À época, o Bom Retiro era conhecido principalmente como um bairro judeu. “Os judeus instalaram toda uma cadeia produtiva ligada à indústria e comércio de confecções. A partir dos anos 20 e até metade da década de 40, os judeus estavam mais presentes nesses estabelecimentos que constituem toda a cadeia produtiva do comércio de confecções, desde as oficinas de costura até as gráficas que imprimiam os talões de nota”, explicou Sarah.

Ao chegar ao Brasil, os coreanos passaram a adquirir esse comércio dos judeus. “E aí ele passa a ser chamado de bairro dos coreanos. Mas nem os judeus e nem os coreanos nunca foram a maioria da população do Bom Retiro. Ele é um bairro marcado sempre pela mistura”, ressaltou a arquiteta e urbanista.

Para a socióloga, o que contribuiu para que os coreanos fincassem raízes principalmente nesse bairro é o fato de eles serem um povo cosmopolita. “Acho que a maior característica que o bairro deu para que os coreanos se fixassem por lá é essa heterogeneidade de grupos étnicos. O Bom Retiro tem essa característica e forte inclinação para o comércio de vestuário. Eles já vinham com conhecimento sobre esse ofício. Outra característica é que os coreanos são muito unidos e se propuseram a trabalhar muito. Então a maioria deles conta que trabalhava de 18 a 20 horas por dia e os mais jovens saíam para vender de porta em porta. Esse trabalho possibilitou que a família toda fosse englobada, todos participavam: os pais cortavam [o tecido], a maioria das mães costuravam e os filhos vendiam. Então como eles vieram com o projeto familiar, eles não se dispersaram como os outros, tentando emprego em outros lugares. Eles acabaram se concentrando nesse ramo que deu possibilidade da família toda participar.”

São Paulo 24/06/2023 - Migração coreana- Feira do Bom Retiro, que reune a comunidade coreana. Foto Paulo Pinto/Agência Brasil

Feira coreana no Bom Retiro ocorre aos sábados e reúne a comunidade coreana. Foto Paulo Pinto/Agência Brasil

Korea Town

Embora não sejam o maior grupo que vive no bairro hoje, é pelos coreanos que atualmente o Bom Retiro é mais conhecido. Há inclusive projetos sendo planejados que propõem que o bairro se transforme em uma Korea Town. Um desses projetos, por exemplo, já foi aprovado pelo atual prefeito, Ricardo Nunes, e conseguiu mudar o nome da Rua Prates para Prates-Coreia.

O Korea Town é uma proposta do cônsul-geral na cidade, Insang Hwang. A ideia, por exemplo, é instalar luminárias típicas pelo bairro, acrescentar o nome Coreia à Estação Tiradentes do metrô e pintar murais pelo bairro. A ideia não é nova. Em 2017, por exemplo, o então prefeito João Doria chegou a divulgar a proposta da Little Seul, que acabou não indo para a frente.

“Esse é um projeto da Coreia, um projeto global deles, liderado pelo cônsul no Brasil. Eles elaboraram o Korea Town. No Bom Retiro, eles conseguiram fazer com que a Rua Prates virasse Rua Prates-Coreia. E eles têm uma proposta para a Rua Três Rios. Eles também têm uma proposta de mudar o nome da Estação Tiradentes para Estação Tiradentes-Coreia. Mas eu acho que não precisa disso. Primeiro porque não é um bairro de coreanos. E, quando se acrescentam nomes de cidades coreanas, está se omitindo a diversidade que tem no Bom Retiro. A Estação Tiradentes, por exemplo, remete ao nome da avenida, mas também ao presídio Tiradentes [onde diversas pessoas foram presas e torturadas na época da ditadura militar]. Não é assim que se muda o nome das coisas”, criticou Sarah.

Já a socióloga Margareth Rogante considera que o projeto tem como base uma característica cultural que é particular do povo coreano, de cuidado com o local onde se vive.

“Eu acho que as nossas elites têm muito preconceito ao não branco. A comunidade judia teve algumas dificuldades [no bairro], mas eu acho que a coreana enfrentou ainda mais. Poucos lugares, por exemplo, ofereciam comida. Hoje se tem bastante, mas eles enfrentaram todo choque cultural: comida, língua, a questão mesmo de participação na comunidade, o cuidado com o bairro. Você está vendo que eles estão propondo melhorar o bairro. Ele se preocupam muito. A comunidade asiática em geral é assim, quer melhorar a vida de todos”, disse.

“Eles estão com a proposta de pôr algumas lâmpadas que são representativas da comunidade coreana. E há muita resistência em falar que eles querem se apropriar do bairro, de falar que eles querem negar ou invisibilizar as outras imigrações. Eu não acho isso. Acho que eles querem se inserir. Eu acho que ele só querem contribuir. Eles são cosmopolitas e eles têm preocupações com o bairro. Eles fazem ações em peso por ali, em favor do bairro todo e de toda a comunidade”, citou Margareth. “Eles estão inseridos na comunidade e precisam ficar visibilizados não só porque a gente vai ao Bom Retiro e olha para eles, mas também para reconhecer a contribuição dessa imigração para São Paulo e para o Brasil. Do ponto de vista econômico e do ponto de vista cultural, acho que eles fazem todos os esforços para se inserirem e participarem da comunidade e se fazerem sentir pertencentes ao Brasil”, acrescentou.

São Paulo (SP), 18.06.2023 - “Luzes da Coreia – Exposição da Cidade de Jinju”, organizado pelo Centro Cultural Coreano no Brasil, em parceria com a cidade de Jinju. As lanternas são um símbolo tradicional da cultura coreana e remontam à Guerra Imjin. Foto: Elaine Cruz/Agência Brasil

A exposição “Luzes da Coreia”, organizado pelo Centro Cultural Coreano no Brasil, exibe as lanternas que são símbolo tradicional da cultura coreana e remontam à Guerra Imjin. Foto: Elaine Cruz/Agência Brasil

Já a arquiteta e urbanista considera que os coreanos poderiam sim homenagear sua terra natal. Mas em outros espaços como praças ou ruas que não sejam tão significativos para a história do bairro. “Tudo bem quererem homenagear alguém da Coreia. Não há problema nisso. Acho ótimo eles quererem colaborar para a melhoria do bairro. Mas a história das lanternas na Liberdade [bairro paulistano que é frequentemente associado à imigração japonesa] já foi bastante criticada do ponto de vista do patrimônio e da memória da cidade. Acho que essa é uma visão superada”, disse ela.




Fonte: Agência Brasil