Onda de calor: governo lança guia com 22 dicas e cuidados com a saúde


Com a onda de calor que assola as regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste do país, o Ministério da Saúde lançou um guia na internet com 22 dicas e cuidados. Principal preocupação do ministério é com a população vulnerável:

Essas condições podem impactar a saúde de toda a população, em especial os mais vulneráveis — como idosos, crianças, pessoas com problemas renais, cardíacos, respiratórios ou de circulação, diabéticos, gestantes e população em situação de rua.

A previsão do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), órgão federal vinculado ao Ministério da Agricultura e Pecuária, é de que os termômetros devem seguir marcando altas temperaturas pelo menos até sexta-feira (17).

Em boletim do Inmet atualizado nesta quarta-feira (15), havia 2.707 municípios que decretaram situação de emergência por causa do calor.

Os principais sinais de alerta, segundo o guia, são: transpiração excessiva, fraqueza, tontura, náuseas, dor de cabeça, cãibras musculares e diarreia. “Nestes casos, deve-se procurar a unidade de saúde mais próxima para uma avaliação com um profissional”, orienta o ministério.

Confira as dicas do guia:

Sol e calor

  • Evite a exposição direta ao sol, em especial, de 10h às 16h;
  • Se expor ao sol sem a proteção adequada contra os raios ultravioleta deixa a pele vermelha, sensível e até com bolhas. Use protetor solar;
  • Use chapéus e óculos escuros (especialmente pessoas de pele clara);
  • Proteja as crianças com chapéu de abas;
  • Use roupas leves e que não retêm muito calor;
  • Diminua os esforços físicos e repouse frequentemente em locais com sombra, frescos e arejados;
  • Em veículos sem ar-condicionado, deixe as janelas abertas;
  • Não deixe crianças ou animais em veículos estacionados.

Hidratação

  • Aumente a ingestão de água ou de sucos de frutas naturais, sem adição de açúcar, mesmo sem ter sede;
  • Evite bebidas alcoólicas e com elevado teor de açúcar;
  • Faça refeições leves, pouco condimentadas e mais frequentes.
  • Recém-nascidos, crianças, idosos e pessoas doentes podem não sentir sede. Ofereça-lhes água.

Cuidados coletivos

  • Se possível, feche cortinas e/ou janelas mais expostas ao calor e facilite a circulação do ar;
  • Abra as janelas durante a noite;
  • Utilize menos roupas de cama e vista-se com menos roupas ao dormir, sobretudo, em bebês e pessoas acamadas;
  • Informe-se periodicamente sobre o estado de saúde das pessoas que vivem só, idosas ou com dependência que vivam perto de si e ajude-as a protegerem-se do calor;
  • Mantenha ambientes úmidos com umidificadores de ar, toalhas molhadas ou baldes de água.

Cuidados com a saúde

  • Mantenha medicamentos abaixo de 25º C na geladeira (ler as instruções de armazenamento na embalagem);
  • Procure aconselhamento médico se sofrer de uma doença crônica condição médica ou tomar vários medicamentos;
  • Busque ajuda se sentir tonturas, fraqueza, ansiedade ou tiver sede intensa e dor de cabeça;
  • Se sentir algum mal-estar, busque um lugar fresco o mais rápido possível e meça a temperatura do seu corpo e beba um pouco de água ou suco de frutas para reidratar;
  • No período de maior calor, tome banho com água ligeiramente morna. Evite mudanças bruscas de temperatura.

Clique aqui e acesse o guia do Ministério da Saúde.




Fonte: Agência Brasil

Operação da PF contra tráfico internacional bloqueia R$ 126 milhões


A Polícia Federal realiza nesta quinta-feira (16), no Rio de Janeiro, a segunda fase da operação Tamoios II, que visa uma quadrilha que atua na lavagem de dinheiro do tráfico internacional de drogas. A ação repressiva inclui o bloqueio de contas bancárias e sequestro de bens móveis e imóveis no valor de até R$ 126 milhões. 

Cinquenta agentes cumprem oito mandados de busca e apreensão e sete mandados com medidas cautelares diversas da prisão. As buscas são feitas em endereços no Rio e em Nova Iguaçu, na região metropolitana. Os mandados foram expedidos pela 3ª Vara Federal Criminal.

De frente para a praia

Entre os bens sequestrados figuram dois apartamentos de luxo, que ficam de frente para a praia, na Barra da Tijuca, uma das áreas mais nobres do Rio. Um deles pertence a um homem apontado como líder da quadrilha. Na garagem do imóvel, foi apreendido um carro de luxo blindado.

Uma casa em Angra dos Reis, área turística na Costa Verde no estado do Rio, carros de luxo e motos aquáticas também fazem parte da lista de bens sequestrados pela operação.

A Operação Tamoios II é um desdobramento de uma investigação iniciada em agosto de 2021, que identificou traficantes internacionais que transportavam cocaína, por rodovia, do Rio de Janeiro até Vitória, no Espírito Santo. Depois, as drogas eram acopladas – por meio de pequenas embarcações pesqueiras e com apoio de mergulhadores profissionais – em cascos de navios com destino à Europa. Os nomes dos envolvidos não foram revelados.

A ação desta quinta-feira é conduzida pela Delegacia de Repressão a Drogas (DRE). A Polícia Federal informou que o grupo alvo utilizava “sofisticados meios para ocultar e dissimular a origem de bens adquiridos mediante recursos advindos de suas atividades criminosas, em especial o tráfico transnacional”.

Os investigadores se valeram de quebra de sigilos bancários e fiscais que ajudaram a confirmar a aquisição de diversos bens em nome de terceiros, “com o fim de perpetuar a existência da organização criminosa por intermédio da ocultação e/ou dissimulação dos bens, já que os investigados não tinham capacidade financeira e documentação fiscal que esclareçam a origem dos valores empregados na compra dos bens”, explicaram.

Pelas redes sociais, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Flavio Dino, comentou a ação da Polícia Federal. “Caminho certo contra o crime organizado”, escreveu.






Fonte: Agência Brasil

Rincon Sapiência oferece oportunidades para jovens talentos do rap


Arte Vozes do Hip Hop 50 anos - Entrevista Soberana Ziza. Arte: EBC

Sem deixar de lado o trabalho autoral, o rapper Rincon Sapiência tem se dedicado a apoiar jovens talentos da zona leste paulistana, onde nasceu e cresceu. “É uma oportunidade que eu não tive, de sair andando de casa e ir para um estúdio, no qual eu possa produzir, gravar, passar minhas vozes. Isso aí eu não tinha condição”, conta o artista sobre a estrutura que busca fornecer aos novos MCs.

Essa forma de construção, com ajuda mútua, esforço e criatividade, apesar das situações nem sempre favoráveis, é também, segundo Rincon, parte do hip hop.

“Se você pegar as minúcias da história da cultura, sempre tem alguém agindo, empreendendo, fazendo acontecer. Então, a ideia hip hop é muito importante para o jovem de periferia”, enfatizou durante a gravação do programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil.

Rincon conta que ainda trabalhava no setor de telemarketing, quando lançou, em 2009, o single Elegância. Com o sucesso, decidiu abandonar os trabalhos formais e focar na carreira musical. A canção, que saiu acompanhada de um videoclipe, explora a importância da moda e do estilo para a cultura hip hop e para os jovens de periferia. “É sobre autoestima também, é sobre estética também”, defende a respeito do papel que esses elementos têm na formação da autoestima da juventude.

São Paulo (SP), 10/11/2023 - O rapper Rincon Sapiência, que lançou os álbuns Galanga Livre e Mundo Manicongo, fala sobre a cultura Hip Hop. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

“Meu trabalho não funciona se eu não estiver conectado com a quebrada”, diz Rincon Sapiência – Rovena Rosa/Agência Brasil

Conexão que acontece, na visão do artista, porque são as periferias que acessam cada vez mais os recursos de produção, que têm determinado os rumos do hip hop. “Quem indica as tendências, o estilo de produção, a gira do momento, o que está sendo feito, são os artistas da quebrada”, enfatiza.

O contexto atual também pede novas formas de comunicação, na opinião do artista, especialmente para tratar de temas historicamente pelo rap, como a denúncia das condições sociais. “Há espaço, sim, à crítica social, a trazer informação para as pessoas, mas desde que essa informação seja levada de fato às pessoas, que não seja algo que pareça que você quer impor algo que você quer, que soe moralista”, avalia.

Confira os principais trechos da entrevista com Rincon Sapiência.

Agência Brasil: Na música Ponta de Lança, você canta: “A depender de mim, a cultura MC ainda vive”. Eu queria saber como é que você entrou nessa cultura, que MCs te influenciaram para ser um mestre de cerimônia?
Rincon Sapiência: Eu me conectei com a cultura hip hop desde criança, por conta do meu irmão mais velho, que sempre ouvia rap, a cultura que tem os quatro elementos, e eu me apaixonei pelos quatro elementos. O DJ era um pouco mais difícil, por conta de equipamentos e esse tipo de coisa. Mas, eu fazia grafite, tentava dançar break e principalmente gostava de compor, de escrever. Foi a parte que eu mais consegui me desenvolver também.

O rapper que me influenciou inclusive a dar carreira de MC foi o Xis, isso [em] meados de 99, por conta do disco dele Seja como For. Ele tinha lançado a música De Esquina, que já tinha feito minha cabeça. Eu amava essa música, amo. Quando saiu o disco, eu adorei mais ainda, aí saiu o videoclipe com imagens na minha quebrada, na Cohab – 1 [conjunto habitacional construído pelo governo estadual], aí eu gostei muito. Os Racionais também, obviamente, formaram muito o nosso caráter, a gente que é de quebrada. Mas, quando eu vi os Racionais eu senti uma certa distância do que eles falavam, da profundidade, com a minha idade, que eu tinha 15 anos e tudo mais. Então, o Xis foi o cara que eu consegui visualizar que eu poderia fazer rap, falar de outras coisas, de outras formas diferentes e por aí foi.

Quando eu falo da cultura do MC, é de valorizar o mestre de cerimônia, aquele que tenta dar seu melhor, apresentar técnicas de rima, que quer botar pra quebrar em cima do palco, que gosta de interagir com o público, que se movimenta, que chama atenção exercendo a função de MC.

Agência Brasil: Qual papel você acha que a batalha de rima tem na formação do MC?
Rincon Sapiência: Eu peguei muito o freestyle, mas não necessariamente batalhas, era um momento onde a gente fazia sessões de freestyle, principalmente no centro de São Paulo, meados… Nossa, vou ser ruim com a data, talvez 2003, 2004, quando tinha, na Galeria Olido, a banda Central Acústica, era uma banda de três integrantes, bateria, guitarra, baixo. O MC era o Kamal e ele, aleatoriamente, convidava pessoas pra cantar um trecho de alguma rima. Era livre, na verdade. Eu estava sempre lá, as quintas-feiras, e eu me destacava fazendo freestyle.

A partir disso eu me conectei com muita gente, eu lembro quando o KL Jay apertou a minha mão e falou que eu mandava bem. Eu lembro os detalhes mínimos, eu construindo tijolinho por tijolinho. Lógico que eu já cantava antes disso, mas essa época foi uma época que eu consegui aparecer. A gente não tinha condição de gravar, então fazer freestyle era uma forma de a gente aparecer, porque você não precisava ter uma gravação, era uma forma de a gente performar, cantar e conseguir mostrar o trabalho.

Com a crescente das batalhas, logo em seguida veio o período da [Estação] Santa Cruz, o [rapper] Emicida, que se destacou muito, entre outros rappers também. Essa fase talvez seja o momento em que estava mais efervescente essa ideia de batalhas. Eu apoio muito, porque imagino que, para muita gente dessa época, foi uma forma de ter o seu primeiro contato com o rap, de poder cantar e também de poder assistir. Porque é algo na rua, é algo que é na voz ali, é só você colar, trombar, rapaziada, aquela coisa toda assim. Eu sou um cara que, por mais que não tenha o hábito de frequentar, apoia muito essa ideia das batalhas e acho que é muito necessário pra cultura.

Agência Brasil: Você trocou em dois pontos interessantes. Você falou dessa importância dessa cena do centro, você estava ali na Galeria Olido, perto de outros pontos, como a 24 de Maio, São Bento, que são pontos que têm importância histórica na cultura hip hop da cidade de São Paulo. Mas você também falou que você sentia importância de falar da quebrada, de ver a quebrada representada na música. Como é que a quebrada está no seu trabalho, está nas suas canções?
Rincon Sapiência: São períodos. Esse período do início dos anos 2000 foi um período onde os grandes expoentes do rap que a gente conhece acabaram dando um tempo, os grupos ficaram um tempo sem lançar músicas. Então aqueles nomes de referência, que eram extremamente influentes nos anos 1990, nos anos 2000, tiveram essa virada. Então, o rap também se reformulou no que diz sentido à estética, ao discurso, e acabou mudando também a área de atuação, se tornou um movimento um pouco menor e acabou se concentrando no centro durante um período.

Mas, com toda essa virada, o rap acabou ganhando uma proporção que está desde o underground na rua até o grande mercado da música. Vide os artistas aí que alcançam números incríveis nesse processo. Já faz alguns anos que a quebrada está muito conectada, está muito informada, acessando internet. Está tendo recursos também de produção musical, de poder gravar e fazer as coisas. O momento do rap é a quebrada, por mais que você possa falar: “Mas eu fui para tal evento, tinha o pessoal de uma outra classe social.” Ok, mas a base, quem indica as tendências, o estilo de produção, a gira do momento, o que está sendo feito, são os artistas da quebrada.

O fato de eu estar próximo da quebrada, onde eu sou nascido e criado, e, naturalmente, já é minha natureza. Também próximo de outros artistas, tem feito eu conseguir me renovar muito, eu conseguir me manter conectado com o que está acontecendo. É o que está me fazendo continuar produtivo também. Eu diria que meu trabalho não funciona se eu não estiver conectado com a quebrada.

Agora, a gente tem uma cena de rap indígena, tem gente produzindo a partir da temática LGBT, da sua própria realidade. Como é que você vê aí o rap e o hip hop nessa questão da pluralidade de vozes? Qualquer movimento cultural começa de uma forma, mas ele muda de acordo com a sociedade. E a ideia principal, imagino eu, do início da cultura hip hop foi essa pluralidade. Ele começa com os pretos, com a música preta, com a influência do sound system da Jamaica. O DJ Kool Herc fez uma festa, que eles chamam de block party, uma festa na rua. É uma cultura preta, mas, pelo fato de estar na quebrada, acabou contemplando os latinos também, acabou contemplando que a vida do imigrante fora do seu país sempre é uma luta também, de alguma forma.

Ele [o hip hop] sempre contemplou aqueles menos ouvidos, menos representados. E eu acho que nos dias de hoje esse recorte tá também dentro do LGBT, dos indígenas. Eu acho que o hip hop precisa ser um suporte também pra essas pessoas. Eu acho necessário.

Vozes Hip Hop arte

Agência Brasil: Em Elegância, que, junto com o videoclipe, foi o primeiro trabalho seu a ganhar grande repercussão, você fala que “preto formado, sempre perigoso, paga um pouco nos panos, mas é vaidoso”. Trazer autoestima para a juventude preta e periférica também é uma forma de enfrentar o racismo?
Rincon Sapiência: Com certeza, porque o hip hop no início aqui no Brasil pegou muito nessa veia, que foi muito importante, inclusive, ele pegou muito essa veia social. Muita influência dos movimentos pretos de fora do Brasil, do Black Panther [Panteras Negras, ativistas contra o racismo nos EUA]. Tinha as bandas também que cantavam isso, Public Enemy [grupo de rap norte-americano] e tudo mais.

Mas parte dos signos do hip hop também envolve o comportamento, a atitude e a autoestima também. Tanto é que você vai ver uma foto antiga dos anos 1990, 1980, eles estão sempre posando, sempre aquela marra, sempre aquele estilo de roupa. É sobre autoestima também, é sobre estética também. Não é somente isso, mas é sobre as correntes, o ouro, a postura, o jeito que dança, a marra, o jeito que posa, que anda, que se comporta. Então, trazer autoestima, fazendo hip hop, é você fazer hip hop.

Agência Brasil: Você acha que o hip hop também tem um lugar de abrir possibilidades para essa juventude periférica, abrir horizontes?
Rincon Sapiência: É uma forma de abrir possibilidades, sim. Porque é isso, o hip hop tem os quatro elementos – DJ, MC, o break, o grafite – mas eu acredito muito que o hip hop é uma ideia. Essa ideia do faça você mesmo, de você não depender. Eles [pioneiros da cultura] não tinham, por exemplo, condição de montar uma banda com bateria, tudo. Eles pegavam trechos livres de alguma música, faziam esse trecho se repetir, usavam isso pra dançar, pra cantar em cima. Não tinha um lugar pra expor seus quadros, sua arte, uma galeria. Eles iam pra rua, para o trem, grafitavam e tal, dançavam na rua.

A ideia de fazer acontecer por você mesmo é hip hop. De você crescer e trazer alguém pra perto de você, isso é hip hop também. Para além do que é determinado como quatro elementos, ser hip hop é você empreender, você ajudar seu parceiro, você fazer alguma coisa pelo seu parceiro, você fazer alguma coisa pela sua quebrada, você trazer a autoestima, é você se empoderar de alguma forma. Se você pegar desde o início, sempre tem alguém que puxou a primeira festa, tem alguém que levou o material de tal artista para uma determinada gravadora e conseguiram lançar. Se você pegar as minúcias da história da cultura, sempre tem alguém agindo, empreendendo, fazendo acontecer. Então, a ideia hip hop é muito importante para o jovem de periferia.

Agência Brasil: A crítica social estava ali na origem do rap, do hip hop, mas depois a gente vai se expandindo, abrindo esse leque de possibilidades. Mas, hoje, a crítica social ainda tem lugar no rap contemporâneo?
Rincon Sapiência: Eu acho que a sociedade contemporânea em si se dispõe menos a falar sobre. Talvez a ideia social, hoje em dia, ela é aplicada de uma forma diferente do que era aplicada antes. Eu acredito que tenha espaço, sim, desde que você consiga estabelecer um contato, um diálogo com as pessoas. O que eu penso é que alguns discursos, da forma que era feita anos atrás, para se comunicar com os jovens hoje em dia, são um pouco diferente. Então, acho que achando essa veia de falar com os jovens, de estabelecer um contato, uma comunicação com eles, acho que é possível.

Acho que também essa manifestação social talvez ela já esteja acontecendo, mas com outros discursos, com uma outra forma de ser, de rebeldia, vamos dizer assim, de outras maneiras. Mas eu acredito que há espaço, sim, à crítica social, a trazer informação para as pessoas, mas desde que essa informação seja levada de fato às pessoas, que não seja algo que pareça que você quer impor algo que você quer, que soe moralista. Às vezes, quando a gente não toma cuidado, parece que você é o pai chato, aquele cara, não, isso aí não, não sei o que e tal. Tem que saber conversar com os jovens e com as pessoas no geral. Acertando isso, essa comunicação, nos dias de hoje, é possível, sim, trazer esse discurso.

Agência Brasil: Hoje, o que te interessa aí no rap e no hip hop? No que você tá trabalhando hoje?
Rincon Sapiência: Eu continuo fazendo minhas coisas, produzindo. Me sinto ainda inspirado a produzir, a compor, a falar, a gravar e tudo. Tenho feito meus trabalhos, tenho tido uma experiência nova, que é de agência artista. A gente está trabalhando com três artistas aqui da quebrada, são dois MCs, o Brenove e o França e um produtor musical que se chama Hiroshi. Todos eles aqui da região, da quebrada e todos eles muito talentosos, todos eles jovens.

Quando eu digo jovens, a gente já tem uma forma jovem de se portar, de se comunicar, de fazer a música, de falar. Então, não seria uma extensão do Rincon e sim novos artistas. Eu acho que a gente precisa dar oportunidade a novos artistas e isso está sendo bem legal, sim. Na verdade, se eu tivesse ainda mais recursos, eu estaria agregando muito mais artistas além deles três. Porque conheço muita gente talentosa aqui na região. Eu acho que eu me inspiro, continuo inspirado a dizer coisas por conta das minhas experiências pessoais mesmo, mas essa energia jovem também que eu vejo neles, musicalmente também, me inspira muito também.

Agência Brasil: Quando você decide apoiar esses jovens, você pensa em apoios que você teve no passado? Você acha que teve figuras que foram importantes pra você no passado pra você chegar onde você chegou hoje?
Rincon Sapiência: Eu tive figuras inspiradoras. Desde pessoas que eu não conheço, como Xis , Racionais, Consciência Humana, o De Menos Crime, o Sistema Negro, que me inspiravam muito, até grupos da região, o Raciocínio Negro, o De Olho no Crime, Contra Sistema, o Mentes Criminais, o Código 44, o Facção X, muito grupo aqui da região. Eu muito novo, eles já mais velhos, fazendo as coisas me inspiraram muito.

Mas, de toda forma, para eu ter acesso a computadores, produção musical e várias coisas, eu sempre tinha que sair da quebrada, ir até um amigo na zona norte, no centro ou em outra região, que não fosse a Cohab 1. Quando eu vejo vários artistas da Cohab 1, muito bons, talentosos, o que eu penso? Que eu posso dar oportunidade para eles terem o melhor deles, mas sem precisar sair e ir lá para não sei aonde para fazer a parada deles. Acho que a gente pode concentrar por aqui mesmo e continuar fazendo as coisas. Isso é uma oportunidade que eu não tive. De sair andando de casa e ir para um estúdio do qual eu possa produzir, gravar, passar minhas vozes, isso aí eu não tinha condição.

A gente tem o nosso QG, que é aqui próximo também, e os moleques ficam lá direto, produzindo, gravando e estão com a mente fresca. O ritmo deles de produção é incrível, de fazer música toda semana. Toda hora mandando no WhatsApp escuta essa, escuta essa. Toda hora sai coisa nova e eu fico feliz por isso. Lógico que é um trabalho de formiguinha, ainda não somos aquela produtora com um aporte enorme, mas a gente se vê com o recurso de poder proporcionar a parte artística, pelo menos, que é de eles gravarem, rodarem o videoclipe, colocarem as paradas na rua. Então, muito em breve, a gente vai estar colocando na rua e apresentando o trabalho deles por aí.

Agência Brasil: O que você vê hoje como marcos na sua carreira?
Rincon Sapiência: Tiveram dois fortes. O primeiro é o Elegância [lançamento da música e videoclipe], que é quando eu saio do telemarketing e vejo um caminho na música. Falo: “Ó, tem caminho, música tem caminho”. Eu paro de trampar formalmente e começo a investir, trabalhar com arte, ganhar o dinheiro, mesmo pouco, com música. O [single] Ponta de Lança é quando esse projeto meio que dá certo, quando firma. É quando eu começo a fazer shows de fato, ter agenda, ter equipe, ter um trabalho mais estruturado.

Agência Brasil: Você usa diversos símbolos de religião afro-brasileira, qual papel a espiritualidade tem no seu trabalho?
Rincon Sapiência: Tem um papel forte, porque eu me adentro na religião de fato, como um filho, muito recentemente. É de dois anos pra cá, na pandemia, me torno filho mesmo. Antes eu era um estudante de livros, simpatizante. Mas, [hoje], entendendo algumas coisas, ela já agia desde antes na minha vida. A minha cabeça, o meu orixá de cabeça, tudo isso já atuava na minha vida, na parte artística também. Eu que desconhecia. Conforme eu fui me adentrando, fui vendo a influência que tinha.

Assista na TV Brasil ao Caminhos da Reportagem sobre hip hop:




Fonte: Agência Brasil

Dino prorrogará Força Nacional no Rio de Janeiro até final de 2024


O ministro da Justiça, Flávio Dino, disse em suas redes sociais que vai prorrogar a presença da Força Nacional de Segurança Pública no Rio de Janeiro pelo menos até o final de 2024, quando uma nova avaliação de cenário indicará até quando as equipes ajudarão nas ações contra organizações criminosas – em especial contra as milícias que atuam no estado.

O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), tem pedido ajuda federal visando a manutenção da cooperação entre as forças federais e estaduais, em especial para o patrulhamento em áreas de maior risco. A ajuda federal abrange também o reforço da segurança na Baía da Guanabara, em portos, aeroportos e em estradas federais para combater a entrada de armas e drogas no estado.

Problema nacional

Segundo o governador, a ação dessas organizações criminosas já não é mais um problema só do Rio de Janeiro, mas do Brasil.

“Não são mais organizações criminosas pontuais que estão aqui, estão ali. Não. Hoje são verdadeiras máfias alastradas pelo Brasil inteiro: Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará, Bahia, Rio Grande do Norte. A gente está vendo isso se alastrar a cada dia”, disse Castro em outubro, quando o governo federal anunciou o reforço de efetivos, após grupos milicianos terem incendiado 35 ônibus e um trem na capital fluminense.

Antes mesmo dessa ação criminosa, o governo federal já havia mobilizado 550 agentes federais para atuarem no estado, sendo 300 da Força Nacional e 250 da Polícia Rodoviária Federal (PRF). O setor de inteligência e investigação da Polícia Federal (PF) também foi reforçado com policiais civis de diferentes unidades federativas, sob coordenação do ministério.

Contatada pela Agência Brasil, a assessoria do Ministério da Justiça informou que a prorrogação anunciada hoje por Dino deverá ser publicada no próximo Diário Oficial da União.






Fonte: Agência Brasil

Dino prorrogará Força Nacional no Rio de Janeiro até janeiro


O ministro da Justiça, Flávio Dino, disse em suas redes sociais que vai prorrogar a presença da Força Nacional de Segurança Pública no Rio de Janeiro pelo menos até janeiro de 2024, quando uma nova avaliação de cenário indicará até quando as equipes ajudarão nas ações contra organizações criminosas – em especial contra as milícias que atuam no estado.

O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), tem pedido ajuda federal visando a manutenção da cooperação entre as forças federais e estaduais, em especial para o patrulhamento em áreas de maior risco. A ajuda federal abrange também o reforço da segurança na Baía da Guanabara, em portos, aeroportos e em estradas federais para combater a entrada de armas e drogas no estado.

Problema nacional

Segundo o governador, a ação dessas organizações criminosas já não é mais um problema só do Rio de Janeiro, mas do Brasil.

“Não são mais organizações criminosas pontuais que estão aqui, estão ali. Não. Hoje são verdadeiras máfias alastradas pelo Brasil inteiro: Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará, Bahia, Rio Grande do Norte. A gente está vendo isso se alastrar a cada dia”, disse Castro em outubro, quando o governo federal anunciou o reforço de efetivos, após grupos milicianos terem incendiado 35 ônibus e um trem na capital fluminense.

Antes mesmo dessa ação criminosa, o governo federal já havia mobilizado 550 agentes federais para atuarem no estado, sendo 300 da Força Nacional e 250 da Polícia Rodoviária Federal (PRF). O setor de inteligência e investigação da Polícia Federal (PF) também foi reforçado com policiais civis de diferentes unidades federativas, sob coordenação do ministério.

Contatada pela Agência Brasil, a assessoria do Ministério da Justiça informou que a prorrogação anunciada hoje por Dino deverá ser publicada no próximo Diário Oficial da União.






Fonte: Agência Brasil

El Niño: pesquisadores preveem mais calor no Sudeste e Centro-Oeste


A onda de calor sentida nos últimos dias nas regiões Sudeste e Centro-Oeste do país sofre influência do fenômeno El Niño, segundo apontam pesquisadores ouvidos pela Agência Brasil. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) estima que os efeitos do El Niño devem ser sentidos pelo menos até abril do próximo ano.

“Tudo indica que teremos um verão extremamente quente. É um El Niño de intensidade muito forte que, juntamente com o aquecimento global, produz esses efeitos que nós estamos vendo”, diz o coordenador da Rede Clima da Universidade de Brasília (UnB), Saulo Rodrigues Pereira Filho. Como efeitos do fenômeno climático, ele cita ainda a seca no Amazonas, as chuvas intensas no Sul do país e o calor extremo no Sudeste e no Centro-Oeste.

Os termômetros do Rio de Janeiro já haviam superado os 40°C em algumas ocasiões nesta semana. Na capital fluminense, a sensação térmica superou os 58°C nesta terça-feira (14). Já no Centro-Oeste, dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) relativos a ontem indicaram que Cuiabá foi a capital mais quente do país.

Ricardo de Camargo, meteorologista do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP) também crê que essa onda de calor intensa pode se repetir.

“Realmente podemos enfrentar situações parecidas como essa justamente por conta da influência do El Niño. É bem provável que a gente tenha as condições propícias para o acontecimento de novas ondas de calor. O que não dá para fazer é uma antecipação tão fidedigna e tão assertiva de quando isso pode acontecer.”

O fenômeno El Niño é caracterizado pelo enfraquecimento dos ventos alísios (que sopram de Leste para Oeste) e pelo aquecimento anormal das águas superficiais da porção leste da região equatorial do Oceano Pacífico. As mudanças na interação entre a superfície oceânica e a baixa atmosfera têm consequências no tempo e no clima em diferentes partes do planeta. Isso porque a dinâmica de circulação das massas de ar adota novos padrões de transporte de umidade, afetando a temperatura e a distribuição das chuvas.

São Paulo SP 12/11/2023 Alta temperatura no Vale do Anhangabau  com termometro marcando 39 garus. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Prefeitura de São Paulo distribui água no Vale do Anhangabau, onde os termômetros marcaram 39 °C nesta terça-feira (14) – Paulo Pinto/Agência Brasil

O El Niño – que ocorre em intervalos de tempo que variam entre três e sete anos – persiste em média de seis a 15 meses. Segundo Saulo Rodrigues, no Brasil, o fenômeno provoca seca nas regiões Norte e Nordeste. Já o Sul registra ocorrência de chuvas torrenciais e ciclones extratropicais.

No Sudeste, conforme observa Ricardo de Camargo, a transição para o regime de chuvas, como é esperada para essa época do ano, está demorando.

“Estamos tendo um período extremamente longo em que não há atuação de nenhuma frente fria. Elas não estão conseguindo avançar em direção ao Sudeste e ao Centro-Oeste. Chove muito no Sul e as frentes frias vão embora direto para o oceano”.

O meteorologista explica como a movimentação no Oceano Pacífico está ligada com essa situação. “A atmosfera sente a mudança do posicionamento das águas quentes que saem lá de perto da Ásia, da Austrália e da Oceania e vêm ocupar porções mais centrais ou até mais próximas da América do Sul. E aí existe um impacto. Uma das assinaturas é justamente essa dificuldade dos sistemas frontais conseguirem avançar mais em direção ao Sudeste e ao Centro-Oeste”.

Aquecimento global

CIDADE DO MÉXICO (Reuters) - Pelo menos 27 pessoas morreram em decorrência do furacão Otis e outras quatro ainda estavam desaparecidas, informou o governo do México nesta quinta-feira, depois que uma das tempestades mais poderosas a atingir o país se abateu sobre o resort de praia de Acapulco, no Pacífico, na madrugada do dia anterior.
 25/10/2023    REUTERS/Henry Romero

Pelo menos 27 pessoas morreram em decorrência do furacão Otis, no México. Para especialistas em clima, eventos extremos como esse vão ocorrer com maior frequência e intensidade por causa do aquecimento global – REUTERS/Henry Romero

Mas só o El Niño não é suficiente para explicar a situação, segundo avalia o pesquisador da UnB. Ele considera que o fenômeno tem uma influência importante, mas a análise desses eventos extremos deve considerar em primeiro lugar o aquecimento global. O pesquisador alerta para as projeções indicando que as ocorrências de fortes chuvas, calor extremo e secas severas deverão ficar mais frequentes e mais intensas. São episódios que podem desencadear desastres socioambientais e problemas de saúde.

“Já existe um conhecimento científico sólido sobre a capacidade que as mudanças climáticas possuem de produzir grandes perdas e danos para a sociedade e para as atividades produtivas. As populações vulneráveis se tornam muito potencialmente vítimas desse cenário”, observa Saulo Rodrigues.

De acordo com Ricardo de Camargo, não dá mais para colocar em dúvida que as mudanças climáticas estão em curso. “É inegável que as temperaturas estão cada vez mais altas em todos os lugares do planeta de uma maneira quase geral. Não há mais espaço para negacionismo com relação a isso. As projeções indicam que os sistemas transientes e os eventos extremos devem ficar mais frequentes, mais comuns e irão atingir com maior severidade. Se fizermos uma análise do que tem sido divulgado na mídia, veremos que realmente o mundo todo está enfrentando essas situações de episódios severos”.

O meteorologista, no entanto, faz uma ponderação. “É difícil atribuir um percentual de responsabilidade da mudança climática nessa onda de calor que estamos vivenciando agora”, avalia. Segundo ele, considerando a mudança no regime de precipitação que tem se observado, é possível fazer a associação, mas com algum cuidado.

Políticas Públicas

Saulo Rodrigues observa que os principais responsáveis pelo aquecimento global são os países desenvolvidos, que emitem maior quantidade de gases de efeito estufa. Ao mesmo tempo, ele avalia que o Brasil tem um desafio.

“Nós temos uma matriz energética com grande percentual de energia renovável. A matriz elétrica brasileira é 90% composta de energia renovável. Poucos países do mundo tem essa capacidade de produzir energia com baixas emissões de carbono. O Brasil tem esse ativo. O Brasil também tem a Floresta Amazônica e o Cerrado que retiram carbono da atmosfera. Isso é muito importante para o equilíbrio climático. Então o Brasil é parte da solução. O principal problema brasileiro é a questão do desmatamento”.

O pesquisador da UnB cita alguns resultados positivos neste ano, com o registro da queda das taxas de desmatamento, mas faz um alerta. Segundo ele, o governo deve elaborar políticas públicas que considerem os efeitos de médio e longo prazo.

“Somos reconhecidamente um dos países mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas, porque [o Brasil] se localiza em uma faixa tropical onde as temperaturas normalmente já são mais elevadas. O aquecimento global tende a intensificar essas temperaturas.”

Segundo o pesquisador da UnB, a regulamentação do mercado de carbono, em discussão da Congresso, é positiva. Mas ele defende que o agronegócio não pode ficar de fora dos setores que deverão cumprir metas de descarbonização. Essa é uma questão que tem gerado divergências.

“O mercado voluntário de carbono, sem a regulação do estado, tem apresentado muitas imperfeições. Muitas empresas estão vendendo crédito de carbono de forma irregular, não apresentando os resultados que oferecem e isso traz muita insegurança para os investidores. Por isso é tão importante a regulação desse mercado”.




Fonte: Agência Brasil

Historiadores apontam elitismo na Proclamação da República


Proclamação: declarar alguma coisa oficialmente ou com ênfase. República: coisa pública ou do povo. Todo dia 15 de novembro são lembradas no Brasil duas palavras – Proclamação e República – que marcam o início de um novo regime político em 1889, que é o vigente nos dias atuais. Mas, entre a oficialização de uma ideia e a aplicação efetiva dela há sempre uma distância. Por isso, historiadores reforçam que, apesar de anunciada como governo do povo, a República começou de forma excludente ao privilegiar poucos setores sociais. 

No fim do século 19 e início do 20, pobres, negros, indígenas e mulheres foram deixados à margem do projeto de uma sociedade dita moderna.

“Foi um projeto da elite agrária cafeeira e dos militares que voltaram vitoriosos da Guerra do Paraguai. A junção dessas elites, que acionam o Marechal Deodoro para a Proclamação da República, acaba excluindo boa parte da população brasileira”, explica a historiadora Camilla Fogaça, integrante do Coletivo Historiadores Negros Tereza de Benguela.

“A concepção de República era elitista e liderada por setores militares e positivistas influenciados pelo pensamento científico europeu do final do século XIX. Ela primava pela exclusão das parcelas pobres e dos negros. Nesse conceito de sociedade não caberia aos mestiços e aos negros ocuparem espaços de poder. Não é um projeto de Estado com uma democratização ampla”, reforça o historiador Vantuil Pereira, professor do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NEPP-DH/UFRJ).

Forças unidas

A Proclamação da República foi, portanto, um processo liderado por três forças: uma parcela do Exército, fazendeiros do oeste paulista e representantes das classes médias urbanas. Desde a década de 1860, o Império passava por mudanças na estrutura política, econômica e social que o enfraqueciam, como a guerra do Paraguai, o movimento abolicionista, fundação de partidos republicanos e fortalecimento do positivismo.

O líder militar do movimento de 1889 foi o Marechal Deodoro da Fonseca, que antes era monarquista. Com a vitória republicana, Dom Pedro II e a família imperial foram obrigadas a se exilar na Europa. Apesar da hegemonia branca e masculina, houve protagonismo de um homem negro, o jornalista e vereador José do Patrocínio, que tomou a iniciativa de ler uma moção pública abolindo a monarquia na Câmara Municipal do Rio de Janeiro no dia 15 de novembro.

Mas, no que diz respeito ao centro das decisões políticas posteriores, predominaram as mesmas configurações raciais e de gênero que norteavam os rumos da monarquia no período anterior. A historiadora Camilla Fogaça destaca, por exemplo, a exclusão das mulheres nessa nova ordem sociopolítica.

“Dois anos depois da Proclamação da República, temos a Constituição de 1891. E ela já começa excluindo a participação das mulheres no voto. Esse voto só vai ser conquistado na década de 30 na Era Vargas. E assim mesmo há todo um processo de jogar a figura feminina para o ambiente familiar e isolar a participação política. Como se ela não pudesse integrar outro lugar que não fosse dentro de casa e na posição de cuidado”, diz a historiadora.

Outros mecanismos e leis ajudaram a hierarquizar os direitos políticos e civis nas primeiras décadas da República.

“Uma série de instrumentos restritivos estava em curso. Exemplo é o código criminal que vai ser aprovado entre a República e o Império, que limitava a circulação urbana e criminalizava a vadiagem. Há também a questão da perseguição aos capoeiras. São processos restritivos e penais, que atingiam especialmente negros e pobres”, diz Vantuil Pereira. “A nova constituição limitava o direito de voto do analfabeto. E é bom lembrar que a parcela maior de analfabetos é de ex-escravizados. Então, aqueles que não eram alfabetizadas eram excluídos do sistema político”.

Desafios atuais

Passados 134 anos de Proclamação da República, a data é vista como mais que uma celebração. É uma oportunidade para refletir sobre os desafios atuais para tornar o país mais democrático e diverso.

“Primeiro, nós sabemos hoje que a maioria de pessoas presas encarceradas no Brasil são negras. O sistema de justiça tem que passar por uma transformação completa no sentido de ser não ser um sistema racista. Segundo, quando se fala em favela, favelado e violência, e na ação do estado sobre esses territórios, os mais atingidos são pessoas negras. Então, é preciso a gente ter um olhar muito claro do Estado de ter políticas públicas para essas populações. De habitação, saúde, moradia, uma concepção de segurança que não passa por uma lógica de controle. Terceiro, a gente precisa aprofundar um conjunto de políticas públicas de acesso e democratização do sistema de ensino. E quarto, ampliar a participação das pessoas negras nos espaços de poder no Brasil. São questões para a gente completar uma obra republicana nos motes de uma sociedade desenvolvida, civilizada e democrática”, finaliza Vantuil Pereira.




Fonte: Agência Brasil

Umbanda completa 115 anos em meio à intolerância religiosa


O Dia Nacional da Umbanda será comemorado neste 15 de novembro, mas existe uma questão forte a enfrentar. A intolerância religiosa é uma preocupação entre seus seguidores. O pai Fernando D’Oxum, da Tenda Espírita São Lázaro, do bairro Pita, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio, disse que nos anos 1980 houve uma expansão da religião no Brasil, mas a partir daí ocorreu um “grande processo negativo por parte de integrantes de algumas igrejas pentecostais, que começaram a demonizar esta religião”.

São Gonçalo (RJ), 13/11/2023 - Pai Fernando D´Oxum no altar externo da Tenda Espírita São Lázaro, um terreiro de Umbanda Omolokô, no bairro Pita. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Pai Fernando D´Oxum no altar externo da Tenda Espírita São Lázaro, um terreiro de Umbanda Omolokô, no bairro Pita. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Segundo o babalorixá, dos anos 2000 para cá, a religião afro-brasileira vem ressurgindo. “Até por causa de uma escola muito poderosa, que é a escola paulista que nos ajudou muito na divulgação do culto no Brasil, e hoje está espalhada no país todo, com grande força em São Paulo, Rio de Janeiro e não posso tirar a grande força também que é a do Rio Grande do Sul”, afirmou.

A preocupação é dividida com o pai Wilker Jorge Leite Filho, do Templo Umbandista Estrela do Amanhã (Tueda), de Bangu, na zona oeste do Rio, para quem a intolerância atualmente não ocorre mais de uma forma velada. “Isso existe, e acho que vai existir sempre. Se estamos em um planeta de prova e expiação, se estamos ainda crescendo aqui no planeta Terra, ainda tem uma mistura muito grande de espíritos com entendimento, espíritos sem entendimento, então, essa ignorância ainda vai existir por muito tempo”, ressaltou.

Ocorrências

Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio de Janeiro indicam que, em 2021, houve 33 ocorrências de ultraje a culto religioso em todo o estado do Rio de Janeiro. Em relação a 2020, representa um aumento de 10 casos.

Naquele ano, as delegacias da Secretaria de Estado de Polícia Civil fizeram 1.564 registros de ocorrência de crimes que podem estar relacionados à intolerância religiosa, o que significa mais de quatro casos por dia. No total, estão incluídos os casos de injúria por preconceito (1.365 vítimas); e preconceito de raça, cor, religião, etnia e procedência nacional (166).

De acordo com o instituto, a injúria por preconceito “é o ato de discriminar um indivíduo em razão da raça, cor, etnia, religião ou origem. Já o preconceito de raça, cor, religião, etnia e procedência nacional tem por objetivo a inferiorização de todo um grupo étnico-racial e atinge a dignidade humana”.

“A tipificação criminal é determinada pela ridicularização pública, impedimento ou perturbação de cerimônia religiosa”, destacou o ISP, que tem o objetivo de mostrar para a sociedade que intolerância religiosa é crime e tem que ser denunciada.

Tendas

Outra dificuldade desta religião é saber quantas tendas e casas de santo existem no Brasil. Pai Fernando D’Oxum disse que não tem a informação de quantas estão instaladas no país, mas, atualmente, em São Gonçalo são cerca de 400. O líder espiritual defendeu a realização de uma pesquisa que possa identificar a localização das casas de santo e qual é a população de povos de terreiros de umbanda no país

“Seria maravilhoso se a gente conseguisse mapear, mas por conta da violência, alguns terreiros escolhem ficar absolutamente escondidos, porque têm medo de que, uma vez expostos, esses grupos neopentecostais agressivos possam ir lá e depredar o patrimônio. Tem uma discussão sobre violência a ser feita ainda”, ressaltou.

São Gonçalo (RJ), 13/11/2023 - Pai Fernando D´Oxum e Samuel da Costa na Tenda Espírita São Lázaro, um terreiro de Umbanda Omolokô, no bairro Pita. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Pai Fernando D´Oxum e Samuel da Costa na Tenda Espírita São Lázaro, um terreiro de Umbanda Omolokô, no bairro Pita. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Segundo Fernando D’Oxum, é difícil verificar o número de umbandistas no Brasil. “As pessoas, em um censo, por exemplo, não dizem que são umbandistas, elas se dizem espíritas, e aí já começa uma grande confusão. Esta tem sido uma batalha nossa para que o umbandista se reconheça como umbandista e não como espírita. Fora os que no censo se dizem católicos, porque têm um acesso mais facilitado.

Para o pai Fernando D’Oxum, a Umbanda é uma religião que nasceu na cidade de São Gonçalo e foi anunciada pelo médium Zélio Fernandino de Moraes, no dia 16 de novembro de 1908, embora, na véspera, o médium tenha feito uma manifestação na cidade vizinha Niterói, data que acabou sendo marcada como Dia da Umbanda.

“É uma religião brasileira que a gente entende como 100% brasileira, com influências do povo indígena, dos hindus e de várias vertentes da religiosidade brasileira e, logicamente, do catolicismo. É uma religião que se predispõe à caridade, à prática de ajuda ao outro e que hoje está presente em quase todos os continentes. Uma religião que avançou mundo à fora”, disse pai Fernando.

Sincretismo

Na visão do babalorixá, a umbanda toma um pouco a vertente da matriz africana do candomblé quando começa a reconhecer e adaptar os orixás, que são os guias, e que chegaram com os negros do povo da áfrica no Brasil.

Além disso, tem o sincretismo, que surgiu da necessidade das pessoas escravizadas associarem um orixá a um santo da igreja católica. Foi assim que São Sebastião é Oxossi, São Jorge é Ogum, Nossa Senhora dos Navegantes e Iemanjá, Nossa Senhora da Conceição é Oxum e Santa Bárbara é Iansã, entre outros. Assim, os escravizados podiam professar a sua fé nas fazendas onde viviam.

De acordo com pai Fernando, o sincretismo vem se modificando ao longo dos anos e, atualmente, algumas casas não fazem mais altares com santos católicos. “Algumas casas de Umbanda não fazem mais sincretismo nos altares, ou seja, os santos católicos em algumas casas já não estão mais presentes nos altares.”

Por considerar São Gonçalo como o berço da umbanda, que é muito poderosa na cidade, diante dos desafios desta religião, o babalorixá propõe a criação de uma lei municipal que determine a inclusão dela no calendário oficial da cidade.

Preservação

Pensando em preservar o patrimônio histórico, a tenda espírita criou o projeto do Museu da Umbanda, que ainda não tem uma sede física, mas vem avançando desde 2009. Pai Fernando destacou que uma peça importante desse patrimônio foi perdida com a demolição da casa do médium Zélio Fernandino de Moraes, em Neves, bairro de São Gonçalo, onde a Umbanda foi anunciada em 1908. A prefeitura da época não realizou a desapropriação do imóvel.

Renovação

A Tenda Espírita São Lázaro não faz iniciação de crianças e adolescentes. Lá, somente aos 18 anos podem ser iniciados, mas antes disso, a partir dos 13 anos podem participar do grupo jovem Bala e Pimenta onde recebem informações sobre a Umbanda e a doutrina espírita.

“A missão do grupo é sempre difundir a nossa doutrina. O que a Umbanda é realmente com seus preceitos tudo que realmente prega até mesmo para nós, jovens, espalharmos no nosso meio o que é a Umbanda realmente e tirar um pouco do preconceito. O grupo é para expandir a nossa doutrina entre os jovens do nosso terreiro”, afirmou o estudante Samuel Salustiano da Costa, 17 anos, o coordenador do grupo.

“Nesse momento, de descobrir o que eu quero ser, qual o caminho que vou seguir na minha vida, a umbanda me ajuda muito nessa fase de jovem, O que a religião passa e mais me representa é a inclusão, o estender a mão a todos, o amor incondicional e a caridade”, revelou Samuel.

O contato do pai Wilker com a umbanda foi com a própria família que seguia esta religião. Com 16 anos ele começou a desenvolver a mediunidade e com 19 anos fez a coroação para babalorixá. “Sempre foi permitido a mim olhar, ter contato com outras crenças religiosas, mas eu já nasci umbandista. Sempre gostei desde pequenininho. Não me lembro com interesse em outras. Pela minha criação e o que meus pais me passaram sempre respeitei, visitei Igreja Católica, protestante por convite, mas a minha convicção sempre foi umbandista”.

Celebrações

A umbanda tem também muito a celebrar pelos seus 115 anos. Para isso, foi elaborada uma longa programação para comemorar sua participação entre as representações religiosas no Brasil.

Em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, a prefeitura, por meio da Comissão da Semana da Umbanda, criada para organizar as celebrações, preparou uma agenda que começou na segunda-feira (13) com o debate Legalização e Justiça – um caminho possível para o fim das violências contra os povos de terreiro. O evento foi realizado na Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), naquele município.

A programação tem ainda a exposição Pelos Caminhos da Umbanda, no hall principal da Câmara Municipal de São Gonçalo, promovida pelo Instituto Carta Magna da Umbanda. A ideia da mostra, que vai até amanhã (16), foi apresentar a construção da religião brasileira de matrizes africanas e indígenas, a partir de suas práticas, ritos, territórios e historicidade.

Também amanhã, às 17h, durante uma sessão solene em homenagem às lideranças da umbanda na Câmara Municipal de São Gonçalo, os homenageados receberão a medalha Zélio Fernandino de Moraes.

Na sexta-feira (17), haverá um show do cantor e compositor gonçalense Altay Veloso, no Teatro Municipal de São Gonçalo, às 19h. A apresentação vai terminar com a bateria da escola de samba Porto da Pedra. Os shows serão gratuitos e sujeitos à lotação.

Encerrando a programação da semana, no sábado (25), será o momento do Encontro dos Povos de Terreiros de São Gonçalo, das 14h às 20h, na Praça Zélio Fernandino de Moraes, Marco Zero da Umbanda, no bairro de Neves. Lá, as homenagens serão dirigidas a lideranças religiosas, com o Banda com Banda, cerimônia de hasteamento da bandeira da umbanda e uma feira de artesanato e gastronomia.




Fonte: Agência Brasil

África é mãe do hip hop, diz autor do 1º disco do movimento no Brasil


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Quando recebeu o convite para gravar um disco, MC Who pensou que estava diante da realização de um sonho. Mas a importância do projeto que viria se tornar o vinil Hip Hop Cultura de Rua ultrapassou as projeções daquele jovem periférico, que trabalhava de office boy. As oito faixas que vieram a público em 1988 são hoje lembradas como a primeira gravação da cultura hip hop no Brasil.

A coletânea, que reuniu membros dos diferentes grupos que, à época, dançavam e cantavam na Estação São Bento do Metrô, no centro paulistano, foi pensada inicialmente com um disco da banda de MC Who, O Credo. “A gente teve a sorte de ser protagonista de uma foto de capa na época do Jornal da Tarde”, conta Who sobre como surgiu o convite.

A banda, no entanto, não tinha ainda composições próprias suficientes para fechar sozinha um disco. Foi assim que surgiu a ideia de convidar músicos que estavam na cena que ganhava força com artistas de diversas partes da cidade. “Dialogando muito com o punk, que era um pouquinho mais velho que a gente, a gente disse: ‘Uma coletânea contempla todo mundo, e aí todas as gangues vão aparecer’”, lembra. Segundo ele, o disco deverá ser relançado em breve, com as faixas remasterizadas.

O processo de aproximação com a cultura hip hop trouxe, para o MC, muitas reflexões sobre a identidade negra e a forma como a cultura, que atravessa periferias de todo o mundo, dialoga com essa formação. “A grande origem do hip hop é uma mãe, que é a mãe África, que é o processo diaspórico”, enfatiza.

Mais tarde, Who participou de outro momento importante da história do hip hop em São Paulo, que foi a expansão das batalhas de MCs para a Praça Roosevelt, também no centro da cidade. Ali, ele esteve ao lado de figuras centrais da cultura no país, como Mano Brown, dos Racionais MC’s. “Aqui é um dos grandes berços do rap nacional, talvez o maior, mas a gente ainda tem muito a pesquisar”, destaca.

São Paulo (SP), 10/11/2023 - O rapper MC Who fala sobre a cultura Hip Hop na praça Roosevelt. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Em entrevista, MC Who conta que o disco Hip Hop Cultura de Rua será relançado em breve, com as faixas remasterizadas – Rovena Rosa/Agência Brasil

Desde então, a cultura nunca mais saiu daquele espaço. Até hoje acontecem batalhas de rimas e de slam na praça, também conhecida pela cena do teatro independente. “O slam, na nossa percepção, é uma manifestação inspirada pela cultura hip hop também. E também tem a batalha de rima aqui, já foi, já voltou, mas ela está sempre aqui, dialogando com o skate, que também é algo que complementa a semiótica da nossa ocupação da rua”, diz.

Para o MC, recuperar essa história ajuda também a lembrar nomes que acabaram apagados nas narrativas construídas sobre o hip hop no Brasil ao longo dos anos. “Às vezes eu brinco que o Sabotage [rapper paulistano] está dando bronca em todo mundo, dizendo: ‘Eu não quero ficar sentado sozinho aqui nesse Abu Simbel [templo egípcio da antiguidade], nesse panteão. Cadê o J.R. Brown? Cadê o Uzi? Cadê todo mundo?’”, comentou em entrevista ao programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil.

Confira os principais trechos da entrevista com MC Who.

Agência Brasil: Hip Hop Cultura de Rua, a primeira coletânea do gênero feita aqui no Brasil. MC Who, conta um pouco pra gente como é que foi essa história. Era pra ser antes um disco da sua banda, do Credo, era isso?
MC Who: É isso mesmo. A gente teve a sorte de ser protagonista de uma foto de capa na época do Jornal da Tarde. E, nas andanças nas gravadoras, o Wagner Garcia, diretor da [gravadora] Eldorado na época, recém-chegado, viu e perguntou: “Você é poeta da rua?”. Eu achei engraçado, né? Eu falei: “É, a gente faz poesia na rua”. E começou a conversar comigo, pediu dois dias, perguntou se tinha letra, o que a gente tinha pronto e disse: “Me dá uns dois dias que eu vou falar com o chefe”.

Foram os dois dias mais longos da minha vida, esperando essa resposta. Até que veio a resposta positiva. Imagine, um cara que era office boy, de periferia, pais migrantes, operários, e falar: “Vou gravar um disco”. Sendo que a gente não era cantor, não era nada disso. E assim começa a história. Ele [o disco] se transforma numa coletânea, numa perspectiva muito da cultura hip hop, já está se constituindo um movimento hip hop.

Tem esse paradoxo, essa discussão desse binômio e sempre que eu tenho oportunidade eu esclareço. O hip hop é uma cultura. Uma cultura gigantesca, produtiva, criativa e dinâmica. E o movimento é organização política, quer dizer, isso já veio de lá, o mito de origem da cultura hip hop está em 11 de agosto de 1973, com a festa que a Cindy Campbell junto com o seu irmão Kool Herc desenvolveu. E, um ano depois, o Africa Bambaataa pega e inaugura a Zulu Nation, que é para organizar isso de uma maneira sistemática, ter uma proposta de acolhimento daquelas manifestações que aconteciam na rua, e também de se posicionar politicamente, na efervescência na década de 1970. Nós temos ali já naquele momento pós-ações afirmativas: Black Panthers, Black Explotation, quer dizer, todas as manifestações culturais apontando para essa autonomia, esse protagonismo do corpo preto.

A gente já tinha essa carga, essa provocação transgressora da cultura. Então, dialogando muito com o punk, que era um pouquinho mais velho que a gente, a gente disse: “Uma coletânea contempla todo mundo, e aí todas as gangues vão aparecer”. E veio outro desafio: como escolher? A gente parte das gangues de break, que é a Back Spin, com o Thaíde, o MC Jack e eu e Código 13, da Nação Zulu. Isso era uma coisa que transforma o Cultura de Rua na primeira coletânea, porque ele é o que contempla todos os elementos do hip hop, porque o hip hop não pode ser percebido por um elemento só, o elemento só tem o nome dele: breaking, na época break, sem ser anacrônico, mas revisitando esse momento, break, depois breaking, depois a pesquisa nos trouxe a riqueza de informações, a internet nos trouxe toda essa gama do que era praticado lá.

A gente enfrentou muito também: “Ah, vocês estão imitando os americanos.” Depois, com essa trajetória que eu tive de pesquisa, vi que aconteceu na cena black do Rio, onde tinha discussão da turma do Tony Tornado e Gérson King Combo com os sambistas, aquela matéria de 76, histórica, dizendo o que está acontecendo. A gente também passou por um processo parecido. E, depois, com essa possibilidade de se organizar, principalmente intelectualmente, eu, com toda essa possibilidade de troca de informações com outros praticantes do hip hop, chego à conclusão de que não existe essa questão, porque nós somos o mesmo povo diaspórico.

Nós passamos pelas mesmas trajetórias de opressão. Quer dizer, o hip hop, a gente não pode esquecer que ele tem uma mãe. A grande origem do hip hop é uma mãe, que é a mãe África, que é o processo diaspórico. Que eu não gosto, eu sou mais para o lado do Joel Rufino, eu falo que é o deslocamento do corpo preto escravizado. Porque a diáspora é uma questão heroica, da travessia de um deserto e tal, diásporos, espalhar semeando. Não, nós viemos pra cá trancados, nossos antepassados. Então, a gente tem que entender que isso marca essas questões todas, dos apagamentos históricos e tudo.

O que o hip hop precisa e tem compromisso tanto de quando se originou há 50 anos, há quase 40 no Brasil, a gente caminha para 40 anos no ano que vem, na minha percepção, porque a questão histórica precisa de um mito, ela precisa de marcos para poder se fundamentar, ficar consolidado e você dizer para as novas gerações. Esse compromisso com a matriz africana precisa estar sempre sendo renovado e reafirmado dentro da construção da nossa cultura, que é dinâmica.

Agência Brasil: Muito se fala da Estação São Bento, aqui, no centro de São Paulo, da importância que aquele espaço tem para o hip hop, da Rua 24 de Maio, mas e a Praça Roosevelt também tem um papel nessa história, não é verdade? Queria que você contasse um pouco como é que essa praça se insere na história do hip hop e como é que o hip hop ainda está aqui.
MC Who: Essa pergunta é importante porque ela dá espaço para a gente lembrar grandes figuras que não estão mais com a gente, como o J.R. Brown. O J.R. Brown, o DJ Uzi, o Marcos Tadeu Telésforo, o grande letrista DJ Uzi, autodidata na língua inglesa, ele traduzia tudo para a gente entender o que estava acontecendo. E o J.R. Brown era um visionário, era um cara que estava à frente do tempo. Nós éramos amigos, andávamos juntos, dividindo tudo da potência. A gente não ficava só nas equipes de baile, apesar de a gente gostar também, a gente andava nas outras casas, lidava com outras tribos. E a gente entendia que o hip hop estava num caminho que era crescente, que ia ficar muito grande. A gente entendia que estava crescendo demais, que a São Bento já não suportava mais. E ali tudo adolescente, tudo muito, os hormônios, aquela coisa, tinha as questões de protagonismo.

O break, que era a grande atração, começa a dividir essa atenção, e por uma característica muito simples, porque o break precisa do corpo para se expressar, e o rapper, ele fala. Você vê, aqui, nessa entrevista, como a gente fala. Acabou que esse protagonismo das lentes também levou muito a essas discussões. E, principalmente, enquanto tinha a roda de break, os rappers ficavam batendo na lata do lixo, que era a nossa bateria eletrônica, e cantando as suas novas letras, às vezes, até improvisando ali, e isso teoricamente atrapalhava.

Muita gente fala que é uma briga, não é. Foi uma tensão de espaço. Aí o J.R. falou assim: “Who, pega os meninos, vamos subir para a Roosevelt, que lá a praça é só nossa, só do rap, e a gente vai tocar isso lá”. E aqui é um dos grandes berços do rap nacional, talvez o maior, mas a gente ainda tem muito a pesquisar, os outros territórios, 26 estados mais o DF. Mas aqui, na Roosevelt já passou [de tudo] aqui: começando com Racionais, que eram esses mais novos que estavam com a gente. O [Mano] Brown, inclusive, fala isso no livro do TR, que é o antigo DJ do MV Bill, ele escreveu um livro, chama Acorda Hip Hop, onde numa entrevista o Brown fala isso: “Subimos eu, o MC Who, o J.R. Brown e a gente foi pra Roosevelt e ocupou a Roosevelt com o rap.

Vozes Hip Hop arte

Agência Brasil: E continua essa cultura viva aqui?
MC Who: Continua, e é muito legal. Na época, a Roosevelt tinha dois andares. Depois, ela sofreu uma reforma forte, e hoje ela é essa praça mais plana aqui. Lá na outra ponta da Roosevelt, que dá pra ver o caminho pra Radial Leste, ali acontece o Slam Resistência. O slam, na nossa percepção, é uma manifestação inspirada pela cultura hip hop também. E também tem a batalha de rima aqui, já foi, já voltou, mas ela está sempre aqui, dialogando com o skate, que também é algo que complementa a semiótica da nossa ocupação da rua. É importante que a gente não esqueça a Roosevelt dentro das nossas narrativas, porque trazendo a Roosevelt, trazendo o território, trazendo o cenário, a gente traz os personagens.

Às vezes eu brinco que o Sabotage está dando bronca em todo mundo, dizendo: “Eu não quero ficar sentado sozinho aqui nesse Abu Simbel [templo egípcio da antiguidade], nesse panteão. Cadê o J.R. Brown? Cadê o Uzi? Cadê todo mundo? Porque passa por essa coisa da validação, do establishment. Quando a mídia, ou alguém famoso, no caso do [sambista] Cartola, no caso do Donga, eles precisaram ser validados pelo jornalista branco, ou burguês, ou culturalmente mais avançado. Esses precisam estar sendo trazidos, porque eles foram muito importantes. O J.R. dizia: “Toda praça e toda rua é hip hop“. E a gente perdeu ele, um cara que faz muita falta. O DJ Uzi faz muita falta. E o Marcos Tadeu, que também trocou muita letra, que é um dos grandes, talvez o maior letrista da nossa geração e é esquecido. É importante a gente relembrar isso.

Agência Brasil: MC Who, conta pra gente um pouco como foi sua chegada ao hip hop. De que parte aqui de São Paulo você é?
MC Who: Eu nasci e fui criado no Real Parque, perto da Ponte do Morumbi, na época era um bairro operário. Eu passei por outros bairros, Aeroporto, depois eu fui pra Parque Araribá, Vila das Belezas e fomos criados ali na periferia de São Paulo, zona sul e extremo sul sempre. Eu tenho vários irmãos mais velhos e tenho meus tios, que tinham muito disco, até hoje eu tenho esse hábito de manipular os discos. Desde pequeno eu tive disco em casa, tive disco desde Luiz Gonzaga, ou Saraiva, esses instrumentais que o meu pai ouvia, até as coisas mais contemporâneas pra época dos meus irmãos, como Caetano Veloso, Gal Costa, todos esses e vários outros que foram chegando, mais alternativos.

Aí eu entendi que a música era muito além do que aparecia na televisão ou nos jornais ou nas revistas. Tinha coisas alternativas ali. Assim que eu tomei contato. Depois chega a black music tanto no colégio quanto dentro de casa também. Eu fui entender que o Tim Maia era black music e tal. Entender tudo aquilo era também da nossa identidade. Apesar de a gente ser mestiço, a gente queria se identificar com a questão cultural e a música me fez entender que eu era um homem preto. Muita gente desestimulava isso. “Você não é tão preto”. Hoje a gente sabe que é o tal do colorismo, mas na época… Não, tudo que eu faço é coisa de preto. Quando no começo dos anos 80 começam a chegar as primeiras referências da cultura hip hop, cultura de rua, que estava acontecendo nos Estados Unidos. Tem, por exemplo, desde um vídeo da banda [norte-americana] Chic, Hangin’ Out, que mostra o garoto quebrando no breaking, no break, no pop e o boombox ali. Tinha um cenário de falar: “Quero fazer isso”.

Como todo adolescente quer ter isso, quer ter essas identidades. Depois tem um monte de artistas pop que foram usando elementos da cultura de rua como break, como Lionel Richie. Mas eu penso e proponho que o Beat Street, que foi lançado no Brasil como Loucuras do Ritmo, ele seja o grande, apesar de ser uma alegoria bobinha, num caso de romance e tal, mas ele já mostra ali como que funcionava a cultura pra nós. A gente discutindo hoje sabe que, para os Estados Unidos, o Beat Street não é tão importante ou quase nenhum importante, a não ser uma coisa alegórica mesmo, do cinema, da indústria. Eles valorizam o Myron Wad Style, de 1983, que só foi chegar aqui ao Brasil pra gente entender e assistir a ele na década de 1990. Mas ele foi lançado no Brasil também, mas passou num circuito acadêmico, a gente foi descobrir isso depois. O contato com a cultura foi isso: uma identidade imediata.

Existia um desafio muito grande de dizer: “Ó, eles conseguem cantar falado assim porque é inglês. Inglês tem uma série de contrações e tal”. Foi o primeiro desafio para um garoto de 12 anos. Aos poucos, a gente foi conhecendo poesia. E a gente começou a cantar poesia. Seja ela Fernando Pessoa ou Manuel Bandeira. Isso é uma coisa singular minha, cada um teve o seu processo. Mas eu e o Cássio, o DJ Uzi, do Credo, a gente pegou esse caminho. Nós pegamos as métricas das poesias e entendemos que a gente tinha que escrever daquela forma para que a gente tivesse a levada, que hoje chama flow. E é lógico que isso vai se sofisticando, vai ficando cada vez mais sofisticado. Mas era essa necessidade de se expressar, que a gente lia e queria dizer o que estava entendendo daquilo. A história conta o resto, mas eu comecei assim.

Agência Brasil: Queria falar um pouco também sobre O Credo, que era sua banda no início. Queria saber um pouco sobre o que vocês trouxeram para o disco Hip Hop Cultura de Rua.
MC Who: O Credo na época tinha uma preocupação de provocar isso, que as pessoas pensassem nelas, que trouxesse uma reflexão da sua existência. A gente ficava provocando porque tinha a questão da religião, tinha a questão da sua origem, então nós fizemos essas provocações, tanto teóricas dentro das letras, que nós, pela formação familiar, minha mãe influenciou, meu pai influenciou muito a mim ler. O Cassius Franco, o DJ Uzi, também lia muito e pesquisava muito sobre música, quanto à origem dele com o pai, que era DJ também de jazz. As letras tinham essa pegada pra provocar mesmo. E aí também a questão estética de que a gente era influenciado muito, tanto pelo jazz, quanto à música instrumental brasileira, e por essa questão da transgressão, do Malcolm X [líder e pensador negro norte-americano]. A gente ouvia muito Public Enemy na época.

O [grupo de rap norte-americano] Public Enemy provocou a gente também a dialogar com essas influências. A gente foi buscar os guitarristas de metal, que nem eles gravaram com Slayer, Tantrax [bandas de heavy metal] e tal. E a gente foi atrás do Hélcio Aguirra, finado Hélcio, saudoso, que era do Golpe de Estado, a maior banda metal na época, muito amigo do nosso produtor e músico Akira S, que também já vinha de outro setor, dos Garotas que Erraram, que era uma música eletrônica alternativa da época.

Teve uma ideia do Gilson Fernandes, que era o produtor do disco, e falou que o Boccato, o instrumentista Boccato, tinha feito as demos com a gente, mas que o disco tinha que ter o Raul de Souza, que era internacionalmente conhecido. O grande Raul de Souza vem de maneira muito generosa e participa das faixas do Credo, o que muita pouca gente sabe. O maior trombonista do mundo na época, pela Down Beat, que era uma revista especializada, o Raul de Souza gravou com o Credo, que eram os garotos da periferia.

Aproveitando isso, as nossas faixas vão ser remasterizadas porque vai ser lançada uma reprensagem do Cultura de Rua através da Vinil Brasil, onde o Michel fez um trabalho muito especial de recuperação dessa mixagem, dessa qualidade técnica que vai valorizar esses instrumentistas que O Credo teve a honra de receber em suas faixas.

Assista na TV Brasil ao Caminhos da Reportagem sobre hip hop:




Fonte: Agência Brasil

Preocupados com parentes, repatriados experimentam paz no Brasil


Após mais de 30 dias de espera, os repatriados da Faixa de Gaza, que chegaram na noite de segunda-feira (13) em Brasília, puderam respirar aliviados. Já sob os cuidados do governo brasileiro, relataram sentimento de alívio de terem conseguido sair da região mais atingida pelo conflito Israel-Hamas.

Em conversa com a Agência Brasil, eles contaram sobre a sensação de segurança e alívio que tiveram, e sobre as crianças poderem brincar ao ar livre – momentos que não viviam desde o início do conflito, em 7 de outubro.

No entanto, ainda temem por parentes e amigos que continuam nas áreas em meio à guerra, sem perspectiva de saída. A maioria relata já ter vivenciado conflitos, porém em intensidade menor do que a experimentada no último mês. Estima-se que mais de 10 mil pessoas foram mortas na guerra até agora.

Mahmoud Abuhaluoub é um dos palestinos a retornar ao Brasil. Em 2020, após sete anos vivendo em território brasileiro, foi a Gaza para visitar a mãe idosa. Nas últimas semanas, o comerciante conta que o cenário era de prédios desmoronados, bombas em escolas e igrejas, que serviam de abrigos.

“A gente não imagina que vai aguentar”, disse. “Só ficamos ouvindo bombas, aviões e ataques por cima”, afirmou ao relatar um dos momentos mais tensos, quando tiveram de evacuar o norte de Gaza em direção ao sul, conforme determinou Israel.

Sobre o primeiro dia no Brasil, Abuhaluoub relaciona o país com algo que lhe fez falta nas últimas semanas em Gaza. “Brasileiros sempre dizem que Brasil é terra de paz. Hoje entendi essa palavra”.

A jovem Shahed Albanna esperava completar 18 anos, o que ocorreu em setembro deste ano, para retornar ao Brasil. Porém, não houve tempo hábil para deixar Gaza antes da guerra eclodir, no início de outubro. Ela, a irmã mais nova e a mãe moravam em São Paulo e foram para o enclave. A mãe estava muito doente e desejava passar um tempo com parentes.

“Ninguém imagina estar numa situação dessa e de repente estar em uma guerra”, conta.

Nos últimos 37 dias, Shahed mostrou em vídeos e nas redes sociais as dificuldades dos brasileiros e palestinos na região do conflito, como falta de água, comida, energia e internet. Ela contou que a leitura foi uma das formas de aliviar os momentos de tensão.

Brasília-DF, 14/11/2023,  A jovem repatriada Shahed Al-Banna, de 18 anos, que chegaou ontem em Brasília, vindo da Faixa de Gaza, fala a imprensa no alojamento da Base Aérea.  Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Brasília-DF, 14/11/2023, Enquanto esteve em Gaza, a jovem repatriada Shahed Al-Banna, de 18 anos, fez vários vídeos mostrando sua rotina em uma região em guerra. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

“Era difícil passar o tempo. Passei o tempo lendo livros que gosto e brincando com as crianças para não sentirem tanto medo”, lembrou.

A jovem está entre os repatriados que irão para um abrigo no interior de São Paulo. Ela e mais 25 pessoas embarcam nesta quarta-feira (15). “Estou mais calma. Mas queria compartilhar essa felicidade com quem amamos”, afirmou, em referência aos amigos que ficaram em Gaza.

“A gente acordou aqui com o barulhinho do passarinho. Lá, não existe isso. Só existe o bombardeio”, descreveu Hasan Rabee sobre o primeiro dia no Brasil.

Ele, a esposa e as duas filhas foram os primeiros a desembarcar do avião da Força Aérea Brasileira (FAB) na noite de segunda-feira.

Depois de mudar mais de sete vezes de lugar em Khan Younes, para fugir dos bombardeios, a família voltará a São Paulo, onde vivem desde 2014.

“Voltamos e agora é ganhar dinheiro para pagar o pão das crianças”, fala o comerciante, que trabalha com assistência de celulares.

Hasan conta ter vivenciado conflitos anteriores, quando crianças, mas aponta que o atual é o “pior” já visto. Segundo ele, a esposa e as filhas ficaram muito assustadas com o conflito. “Fui para [Gaza] e nunca mais”, disse.




Fonte: Agência Brasil