Com o objetivo de promover a integração do sistema penitenciário brasileiro e enfrentar o crime organizado dentro e fora das prisões, o Ministério da Justiça e Segurança Pública criou a Força Penal Nacional (FPN). A medida está publicada no Diário Oficial da União desta terça-feira (14).
Profissionais do sistema penal serão reunidos para atuar na aplicação de técnicas especializadas administrativas, assistenciais, gerenciais, de capacitação e também nas situações de crise. Um acordo de cooperação federativa viabilizará a mobilização dos servidores para compor a nova força.
Segundo o ministro Flávio Dino, o sistema será estruturado em dois eixos: descapitalização das facções criminosas e a estruturação do sistema penitenciário. Como base de atuação do grupo, foram definidos princípios, diretrizes e normas de conduta, entre eles proteção dos direitos humanos, promoção da cidadania e da dignidade humana e respeito aos direitos individuais e coletivos.
A força será coordenada pela Polícia Penal Federal, que vai planejar e promover a articulação das atividades com estados, Distrito Federal e órgãos de execução penal. Poderá ser empregada em qualquer unidade federativa desde que haja solicitação do governador para situações de crise, ou do secretário de administração penal, para apoio de gestão ou capacitação.
Durante o lançamento do programa, em Brasília, Dino destacou a importância da participação das diferentes esferas do governo e das agências de segurança de todo o país, a fim de superar as crises no sistema penitenciário. “Hoje estamos institucionalizando mecanismos de parceria que se revelam exitosos. Também chegamos perto de R$ 3 bilhões em repasses para estados ou sendo disponibilizados para projetos. Estamos dando mais um passo na estratégia brasileira para combater o crime organizado.”
Durante o evento também foram anunciados investimentos em equipamentos que viabilizem a atuação da Força Nacional Penal no combate ao crime organizado, como localizadores de equipamentos eletrônicos para a realização de varreduras no sistema penitenciário.
A Polícia Federal (PF) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) deflagraram nesta terça-feira (14) a Operação Minuano. É para desarticular grupo suspeito de fraudar fundos de investimentos, gerando prejuízo a Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) de servidores públicos em diversos estados.
Mais de 100 policiais federais estão cumprindo 27 mandados de busca e apreensão em Porto Alegre (18 mandados), Canoas (1), Novo Hamburgo (2), Portão (1) e Canela (1), no Rio Grande do Sul; em Cambé (1) e Londrina (1), no Paraná; e em São Paulo (1) e Rio de Janeiro (1).
Medidas cautelares de suspensão de atividade financeira estão sendo executadas, bem como bloqueio de contas e ativos que somam R$ 451 milhões – valor que, segundo a PF, equivale ao prejuízo estimado causado pelos contraventores aos RPPS.
Operação
“A investigação teve início a partir de informações coletadas na Operação Gatekeepers (2018) e apurou que o grupo criminoso teria sido responsável pela captação e desvio de R$ 239 milhões de 69 Regimes Próprios de Previdência Pública no Rio Grande do Sul, Pará, São Paulo, Minas Gerais, Ceará, Paraná, Amapá, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e Maranhão”, informou, em nota, a Polícia Federal.
Os investigadores identificaram também “pagamento indevido a dirigentes dos RPPS por intermédio de consultorias vinculadas ao grupo”.
Se confirmadas as suspeitas, os responsáveis pela prática criminosa responderão pelos crimes de gestão fraudulenta e temerária, apropriação indébita financeira, estelionato financeiro, falsidade ideológica contábil-financeira, negociação de títulos mobiliários sem lastro, manipulação de preços de ativos, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Somadas, as penas podem ultrapassar 40 anos de reclusão.
As seis dezenas do concurso 2.656 da Mega-Sena serão sorteadas nesta terça-feira (14), a partir das 20h (horário de Brasília), no Espaço da Sorte, em São Paulo, com transmissão ao vivo pelo canal da Caixa no YouTube e no Facebook das Loterias Caixa.
Caso apenas um apostador ganhe o prêmio da faixa principal e aplique o valor na poupança, receberá R$ 224,2 mil de rendimento no primeiro mês.
O prêmio acumulado está estimado em R$ 37 milhões. As apostas podem ser feitas até as 19h (horário de Brasília), nas casas lotéricas credenciadas pela Caixa, em todo o país, ou pela internet. O jogo simples, com seis números marcados, custa R$ 5.
Mega da Virada
As apostas para concorrer ao prêmio da Mega-Sena da Virada já podem ser feitas, em cartão específico, nas lojas lotéricas e também pela internet. Considerado o principal concurso das Loterias Caixa no ano, a Mega da Virada em 2023 tem prêmio estimado em R$ 550 milhões, o maior valor da história, de acordo com a Caixa Econômica Federal.
Esse sorteio não acumula para outros concursos. Se ninguém acertar a faixa principal, de seis números, o prêmio é dividido entre os acertadores da segunda faixa, com cinco acertos, e assim por diante. O sorteio do concurso nº 2.670 será no dia 31 de dezembro, o último do ano, às 20h, pelo horário oficial de Brasília.
Policiais federais fazem nesta terça-feira (14) uma ação contra o tráfico internacional de drogas ilícitas nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Segundo a Polícia Federal (PF), o grupo criminoso usava o Porto de Itaguaí, no Rio, para enviar cocaína para a África e a Europa.
A Operação Nephelos cumpre um mandado de prisão preventiva e 25 mandados de busca e apreensão nas cidades fluminenses do Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, São João de Meriti, Itaguaí, Itaboraí e Angra dos Reis, além do município de Santos (SP).
Os mandados foram expedidos pela 4ª Vara Federal do Rio, que também determinou o bloqueio de bens, que seriam pertencentes a integrantes do grupo criminoso, no valor de R$ 3,15 milhões. A PF identificou imóveis, veículos, lanchas e cavalos, que eram usados para lavar dinheiro.
As investigações começaram a partir de uma apreensão de 342 quilos de cocaína, que estavam escondidos em toras de madeira, no Porto de Itaguaí, em abril de 2021. O carregamento seria enviado à Europa.
Os investigadores conseguiram identificar a estrutura montada pela quadrilha para burlar as fiscalizações portuárias e aduaneiras. O grupo estaria envolvido ainda, segundo a PF, com o comércio ilegal de armas de fogo, corrupção de menores e lavagem de dinheiro.
A Agência Nacional de Mineração (ANM) determinou a interdição das atividades de três pilhas de estéril da mineradora Vale. São estruturas que integram a Mina de Fábrica Nova, situada em Mariana (MG). A decisão foi tomada na última sexta-feira (10). A necessidade de uma evacuação em áreas do entorno que seriam atingidas em caso de uma tragédia ainda será avaliada. A mineradora diz que há nenhum risco iminente.
De acordo com nota divulgada pela ANM nessa segunda-feira (13), uma equipe foi destacada para fazer um vistoria no local nesta semana e definir a medidas a serem impostas à Vale. A visita será realizada junto com agentes da Defesa Civil de Minas Gerais. “As pilhas interditadas são a PDE Permanente I, PDE Permanente II e PDE União Vertente Santa Rita”, diz a nota.
Pilhas de estéril são formadas a partir da disposição de materiais obtidos com a atividade de mineração que, na maioria dos casos, não tem valor comercial agregado. Diferentemente das barragens, elas não estão sujeitas a processos de liquefação, que ocorrem quando resíduos sólidos se convertem em fluido, assim como ocorreu nas tragédias de 2015 em Mariana e de 2019 em Brumadinho. No entanto, as pilhas podem atingir grandes alturas e gerar outros tipos de preocupações.
No ano passado, problemas ocorreram na Mina Pau Branco, mantida pela mineradora francesa Vallourec em Nova Lima (MG). No local, há uma pilha de rejeitos. Parte do material empilhado deslizou para um dique e esse, por sua vez, transbordou. O episódio ocorreu em meio a tempestades que atingiram o estado. O dique havia sido construído para captar a água da chuva que passa pela pilha. O transbordamento gerou danos ambientais e a Vallourec pagou R$ 73 bilhões para compensar os impactos.
Na Mina de Fábrica Nova, a Vale também tem um dique junto às três pilhas de estéril. A situação foi pauta de uma reunião entre agentes da ANM e da Defesa Civil de Minas Gerais na semana passada. Conforme a ata, preocupações foram levantadas levando em conta um laudo de avaliação de estabilidade produzido em 2020 por uma empresa de consultoria externa contratada pela própria mineradora. Ele traz uma avaliação sobre a pilha PDE Permanente I. Somente em setembro deste ano, o documento foi apresentado pela Vale à ANM. “A estrutura apresenta valores de fator de segurança abaixo do preconizado em norma”, registra a ata.
A Mina de Fábrica Nova fica próximo ao povoado de Santa Rita Durão, distrito pertencente a Mariana. Segundo dados apresentados pela Defesa Civil na reunião, existem 123 moradores na área que seria atingida em cerca de 30 minutos, caso ocorresse algum problema com o dique localizada junto às pilhas. Pela legislação, a ausência de um lado que garanta a estabilidade da estrutura leva automaticamente à elevação do seu nível de emergência. Caso a ANM entenda ser preciso acionar o nível 2 ou 3, as pessoas que vivem no entorno deverão ser retiradas de suas casas.
Conforme obriga a legislação, as mineradoras devem elaborar um Plano de Ação de Emergência para cada barragem. No caso desse dique da Mina de Fábrica Nova, o documento produzido pela Vale projeta que, em uma eventual ruptura, seria preciso retirar 295 pessoas da área atingida: 147 residentes, seis transeuntes (transitórios), 137 empregados próprios e terceirizados e cinco funcionários de outro empreendimento situado na região.
Em nota, a Vale sustenta que não há necessidade da remoção das famílias. “Importante esclarecer que o dique de pequeno porte localizado a jusante de uma das pilhas tem declaração de condição de estabilidade positiva. A Vale reitera que a segurança é valor inegociável e que cumpre todas as obrigações legais. A Vale continuará colaborando com as autoridades e fornecendo todas as informações solicitadas”, diz o texto.
A determinação da interdição também levantou o alerta do Ministério Público Federal (MPF), que encaminhou à ANM nessa segunda-feira (13) pedido de esclarecimentos. Foi dado um prazo de 48 horas para a resposta.
Ao longo de 38 anos de carreira, a rapper Sharylaine não só lutou para abrir caminho no hip hop, mas também trabalhou para deixar as portas abertas para as mulheres que vieram depois. Para a artista, mesmo 40 anos após a chegada dessa cultura ao Brasil, o machismo ainda é um obstáculo a ser superado. “É um problema mundial, mas que nós mulheres começamos em vários lugares, em vários momentos, a trabalhar isso, e trabalhar juntas, porque a gente entende que só juntas nós conseguimos alcançar mais, dar mais passos. Acho que esse é um processo que não tem fim”, ressalta.
Apesar das dificuldades, há alegria de ver que os diversos projetos construídos nessa trajetória têm tornado o ambiente do hip hop mais acolhedor para as mulheres. “Me emociono de ter as meninas hoje em patamares melhores, com acessos melhores, pensando e desenvolvendo sua produção. Não, necessariamente, dependendo de um produtor para dizer o que ela vai ter que fazer”, acrescenta a rapper que participou da fundação, entre outras iniciativas, da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop.
Toda essa história começou no centro de São Paulo, na Estação São Bento de metrô, no início da década de 1980. Além da boa localização, Sharylaine conta que o local foi escolhido por questões práticas. “O chão é bom, você poder dançar, de certa forma, num espaço seguro, e também tinha acesso à energia elétrica, para não gastar tanto com as pilhas”, conta a pioneira.
Rapper Sharylaine diz que o machismo ainda é um obstáculo a ser superado na cultura hip hop – Rovena Rosa/Agência Brasil
Foi pela dança que a artista chegou ao hip hop. Mas logo Sharylaine passou a empunhar o microfone para fazer rimas. “Eu pensava assim: ‘não posso ser uma mulher que fala só sobre a questão da mulher’. Porque não é só isso. A gente não vive só isso. Pensar mundo mesmo, pensar política, pensar a história do meu povo”, lembra.
Para a gravação do programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, Sharylaine voltou à estação de metrô onde a cultura hip hop tomou forma, repercutindo em todo o país nos anos seguintes. Foi a partir dos encontros ali que a jovem rapper, com 20 anos à época, integrou a coletânea Consciência Black, volume 1, ao lado dos Racionais MC’s. “Eu nem imaginava que aquilo ia ser tão importante para a minha trajetória”, conta.
Confira abaixo os principais trechos da entrevista com Sharylaine.
Agência Brasil: Como surgiu a ideia de fazer encontros de hip hop aqui na Estação São Bento? Sharylaine: Foi uma questão de ocupação da galera do breaking, um espaço que viabilizava: o chão é bom, você poder dançar, de uma certa forma, num espaço seguro e também tinha acesso à energia elétrica, para não gastar tanto com as pilhas. As pilhas para rádio eram muito grandes e muito caras. Você precisava às vezes de quatro, seis, oito pilhas para o rádio funcionar. Aqui era um palco, que 30 anos atrás a gente fez a mostra nacional que se tornou até internacional, pelas pessoas que vieram. Nós fizemos a mostra de breaking com apoio do Geledés em parceria também com o Metrô de São Paulo.
Agência Brasil: Como você começou como b-girl? Sharylaine: Havia uma intenção de dançar. Eu andava com os meninos do breaking, da gangue. Mas, era mais difícil pra mim dançar no chão. O que eu aprendi foi smurf dancing, que, hoje, a galera chama de dança de rua, que é uma dança mais no alto. Eu tive uma queda no basquete que zoou meu joelho e que inviabilizava mesmo.
Agência Brasil: E como foi essa transição da dança pra ser MC? Sharylaine: Eu conheço os meninos em 1985 no baile do meu tio, José Augusto. Eu começo a acompanhá-los e, dentro da gangue mesmo, eu conheci o rap. Eu falei: “Bom, isso é possível”. Comecei a ensaiar, cantar o rap de um amigo, até que eu resolvi que a gente devia ir pro palco. Em 1986 fundei o Rap Girls, que é considerado um dos primeiros ou o primeiro grupo de rap feminino do Brasil.
Agência Brasil: Até hoje tem batalhas de rimas aqui na parte de cima da estação, no Largo São Bento? Sharylaine: É uma retomada mesmo do movimento, porque o movimento sempre aconteceu no âmbito central da cidade. Dizer que hoje a gente tem batalha feminina é um avanço muito importante porque a cultura hip hop continua machista, continua masculina e, se a gente quer ter algum espaço nesse lugar, nós precisamos criar este espaço.
Agência Brasil: Como foi isso de ser mulher e se inserir nesse mundo machista do hip hop? Sharylaine: Luta, porque ainda hoje há homens hip hoppers, dentro da cultura que acreditam que a mulher só é boa se ela rimar feito um homem. E também que o rap foi feito para homem. Eu já ouvi isso, e não estou falando de uma década atrás, estou falando de 2023, quando a cultura hip hop completa 50 anos, mundialmente falando, e 40 anos, no Brasil, e de produtores que produziram mulheres. Tem alguma coisa errada aí, né?
Eu fiquei bem chocada, mas, ao invés de me retrair, eu acho que me deu mais força pra reforçar a luta que eu já encampei ao longo do tempo. Nós, mulheres, a gente acabou se organizando em núcleos, em grupos, nos quais as pessoas falavam pra gente: “Agora vai ser o Clube da Luluzinha? Vocês estão querendo dividir o movimento?”. Não, a gente não está querendo dividir, mas a gente não está se vendo representada. A gente não está se vendo reconhecida no processo, porque você vai ver homens citando homens como referências. Raramente você vai ver um homem citando uma mulher como referência para o trabalho dele. Você pode falar nacionalmente ou internacionalmente.
Agência Brasil: Por falar em referência, a gente fala muito do Kool Herc como um grande produtor, mas a Cindy Campbell estava lá fazendo a produção da primeira festa de hip hop nesse pioneirismo. Qual é a importância da Cindy Campbell, ela te influenciou pra você estar nesse lugar? Sharylaine: Não me influenciou, justamente porque ela foi invisibilizada. Eu conheci três homens antes de saber que ela era o pivô disso tudo [da block party de 1973, em Nova York, que fundou a cultura hip hop]. Décadas depois eu fui saber da Cindy Campbell. Décadas depois eu fui saber que a produtora do Sugar Hill Gang era uma mulher, a Silvia Robinson, que também ficou invisibilizada no processo. As pessoas sabiam qual era o nome da gravadora, mas ninguém falou quem era a produtora, não se teve a necessidade de falar quem era o produtor porque o produtor não era um homem. Ela ficou nesse processo de invisibilidade. Esse é um processo tanto lá quanto aqui é um processo de construção.
Mesmo lá, nesse período de cinquentenário que a gente teve a oportunidade de acompanhar celebrações. A gente percebeu a invisibilidade das mulheres. Então você teve, por exemplo, um evento no Yankee Stadium que as mulheres que foram foram convidadas por homens. Elas não estavam no flyer de divulgação. Isso não é um problema só do Brasil, é um problema mundial, mas que nós mulheres começamos em vários lugares, em vários momentos, trabalhar isso, e trabalhar juntas, porque a gente entende que só juntas nós conseguimos alcançar mais, dar mais passos. Acho que esse é um processo que não tem fim.
Agência Brasil: Conta um pouco da história da fundação da a frente de mulheres do hip hop. Sharylaine: Eu sou cofundadora do Feminrappers, que nasceu em Geledés, o Instituto da Mulher Negra. Também sou cofundadora do Minas da Rima, que veio do embrião do Feminirappers, para pensar essa movimentação da mulher do rap na cena, mas abrigando os outros elementos, e da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop – um coletivo de vários coletivos, que abriga mulheres de todos os elementos. Todos com um fundamento único, que é pensar essa mulher no cenário, como que ela chega, como que ela é acolhida, o que a gente faz pra mantê-la pra que ela não desista, pra que ela continue e como que a gente viabiliza espaços pra ela mostrar sua arte. Espaços respeitosos, que elas possam colocar o seu equipamento e não ter o equipamento sabotado por terceiros, para ver se realmente ela é boa.
Porque, quando é a mulher na produção, há sempre a questão: “Será que ela é boa mesmo?”. “Será que ela é competente?”. Então, você tem algumas sabotagens pra testar essas mulheres. E posso falar que é em todos os elementos da cultura hip hop, não é só com a mulher MC, mas é uma problemática pra b-girl, break-girl, que dança o breaking, para a DJ, para a grafiteira, que muitas vezes tem uma parede pra ser grafitada e eles deixam um cantinho pra ela. Ocupam todo o lugar e deixa só um pontinho pra ela. São sabotagens que a todo tempo a gente tenta quebrar ou, de fato, construir esse espaço pra gente conseguir fazer a cultura.
Agência Brasil: Ainda falando dessas iniciativas de que você participou pra apoiar as mulheres no hip hop, em todos os elementos, você vê isso dando frutos, teve gente que conseguiu crescer melhor porque tinha esse tipo de apoio? Sharylaine: Sim, eu me orgulho em dizer e até me emociono de ter as meninas hoje em patamares melhores, com acessos melhores, pensando e desenvolvendo sua produção não necessariamente dependendo de um produtor pra dizer o que ela vai ter que fazer. Sou muito feliz com isso, mas também tenho que dizer que Brasil afora a coisa é mais difícil.
Em São Paulo, nós estamos caminhando. As meninas fora do que a gente chamaria grande centro – que é São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Rio Grande do Sul – têm uma dificuldade maior. Tem a questão do assédio para poder participar do evento, o assédio para poder ser produzida musicalmente, enfim, isso ainda é uma problemática que a gente está o tempo todo em discussão para ver como a gente age. A questão da violência que também parte pra ações de feminicídio, que está dentro da cultura também. Fazedores da cultura, homens, companheiros, que são atuantes na cultura reproduzindo esse machismo. A gente também sofre por esse lado.
Mas entender essa luta pra aquelas que não estão organizadas. Entender que essa luta é possível. Aquilo que diziam: “Ah, junta uma mulherada no quarto, ou elas vão ficar fofocando ou vão ficar se matando”. Isso não existe. Lógico que somos diferentes, mas temos o que nos une, que são coisas grandes e pequenas. Sejam situações difíceis que a gente precisa lidar, ou sejam caminhos para sair de situações, a gente troca as nossas experiências e informações pra uma ajudar a outra. E para uma não passar pelo que a outra passou. Não que a gente tenha a receita perfeita, mas são experiências que a gente troca e vai se fortalecendo.
Agência Brasil: Vamos falar um pouco da sua trajetória? Você participou de um disco que é um dos mais emblemáticos do hip hop brasileiro, que é o Consciência Black. Queria que você falasse o que foi pra você estar nesse momento. Sharylaine: Não era pra eu ir sozinha, era pra ir Rap Girls eu e minha parceira City Lee, que não foi porque ela desistiu, parou. Eu ainda titubeei se ia ou não gravar. Eu tive ajuda dos amigos enfim, indo comigo, me inscrevendo pra cantar nos clubes e até para eu me sentir segura. Acabei indo gravar.
Foi bom porque eu nem imaginava que aquilo ia ser tão importante para a minha trajetória que eu olho pra trás hoje e vejo. Mas foi num momento que eu ainda era muito crua. Eu queria ter escolhido a minha batida, queria ter escolhido o meu sampler. Eu fui meio que impulsionada pelo produtor executivo, pelo produtor da música a escolhas como uni-duni-tê. Acho que, se eu tivesse um pouco mais de maturidade, teria feito a música do jeito que eu queria e ela teria pulsado mais.
Mas foi muito importante pra minha trajetória, eu agradeço à equipe [da produtora] Zimbabwe por ter gostado primeiro do trabalho e acreditado e investido para eu poder estar lá e firmar a marca de ter sido a primeira mulher solo a gravar, e acho que, agora, com o reconhecimento de âmbito nacional. Isso me rendeu e me rende vários títulos de reconhecimento pela minha trajetória. Posso dizer que foi um grande presente para quem fazia aquilo que gostava, porque de fato a gente não tinha dimensão do que podia ser. Pensar que 38 anos atrás eu estava só me divertindo, não tinha uma expectativa de seriedade.
Agência Brasil: Tem outros momentos que você destacaria como marcos da sua carreira? Sharylaine: Marco, acho que é em 1985 quando eu conheci a cultura, através da Gangue Nação Zulu. 1986, quado comecei a cantar e fui subir num palco pela primeira vez pra cantar um rap de minissaia falando de política. Em 1989, quando foi a gravação do disco. A chegada em Geledés, que é o Instituto da Mulher Negra, que foi um divisor de águas de entender o mundo, entender o racismo, o machismo, o feminismo, a sociedade, a violência policial. Conhecer sobre a cultura negra, sobre os nossos ídolos e líderes negros, a história do meu povo, isso também foi um grande divisor.
Acho que os três momentos, que eu chamo de três ondas desse movimento de mulheres, que foram o Feminirappers, Minas da Rima e a Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop e de participar dos embriões da Semana de Cultura Hip Hop. Participei ali do embrião, das reuniões para a gente começar a organizar com a [organização não governamental] Ação Educativa e depois ela se tornar lei [Lei municipal 13.924 de 2004, que criou a Semana do Hip Hop em São Paulo].
Agência Brasil: Pensando nesses quase 40 anos de carreira, quando você começou, o que te incentivou? Que assuntos, que temas que te tocavam, te afetavam, te faziam rimar? Ainda são os mesmos que te fazem rimar hoje? Sharylaine: Nesses 38 anos, foi um processo de ir conhecendo a cultura hip hop. Você vê o hip hop em todo lugar. Olha que coisa mais linda: está nos prédios, no centro da cidade, está nas comunidades, nas casas, nas favelas coloridas que os grafiteiros e grafiteiras promovem. Naquela época, quer dizer, os primeiros contatos que eu tive com a escrita daquela época era pensar em política, pensar no mundo, pensar fora da caixa, como jovem que nasceu na sua adolescência com liberdade, fora do período de ditadura. Era isso. Quando eu conheço o Geledés é que isso se volta mais para as questões femininas.
Eu pensava assim: “Não posso ser uma mulher que fala só sobre a questão da mulher”. Porque não é só isso. A gente não vive só isso. Pensar mundo mesmo, pensar política, pensar a história do meu povo. Poder contar a história do meu povo através da minha rima, da minha levada. Falar sobre o que é o hip hop, porque até hoje, depois de 40 anos, as pessoas ainda têm dúvidas.
Você vê as pessoas discutindo se são quatro elementos, se são cinco elementos, se são nove, se são 20. Mesmo lá fora tem essas incertezas. Tem gente que comemorou o 11 de agosto lá fora [como data de origem do hip hop], tem gente que vai comemorar o 12 de novembro [data de fundação da Zulu Nation, por Afrika Bambaataa] e tem gente que só vai comemorar em 2024 [como data da reunião dos quatro elementos no Brasil]. Por quê? Por causa dessas divergências, por causa do conhecimento de cada um, da vivência que cada um tem e carrega. Essa produção, para mim, é muito ampla. Eu olho o mundo. E aquilo que me agrada ou que me inquieta, eu quero compartilhar. É sobre isso.
Assista na TV Brasil ao Caminhos da Reportagem sobre o hip hop:
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu, na madrugada desta terça-feira (14), o grupo de 32 brasileiros e palestinos parentes de brasileiros resgatados da Faixa de Gaza. O presidente afirmou que o país continuará tentando buscar todos os que quiserem sair da região do conflito e voltar para o Brasil ou, no caso de estrangeiros, acompanhar os parentes brasileiros.
“A gente vai tentar fazer todo o esforço que estiver ao alcance da diplomacia brasileira para tentar trazer todos os brasileiros que lá estão e que queiram vir para o Brasil. Inclusive, alguns companheiros que tinham parentes não brasileiros eu pedi para trazer e a gente trataria de legalizar as pessoas aqui no Brasil”, disse o presidente.
“Tem mais gente na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Enquanto tiver lista e possibilidade da gente tirar uma pessoa, mesmo que seja uma só, a gente estará à disposição para mandar buscar as pessoas. Não vamos deixar nenhum brasileiro ficar lá por falta de cuidado do governo”, acrescentou Lula.
Junto com o presidente, na pista, aguardando os repatriados, estavam o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino e o ministro da Secretaria de Comunicação.
Lula os recebeu na pista, cumprimentou um a um no pé da escada do avião. O primeiro a descer foi Hasan Habee, que ficou conhecido pelos vários vídeos que fazia e encaminhava para a imprensa, com depoimentos frequentes da angústia que passava na Faixa de Gaza, em meio a ataques de Israel.
“Boa noite. Queria agradecer ao presidente, governo federal, Força Aérea e Itamaraty. A gente ficou lá 37 dias, muito sofrimento. Às vezes passamos fome e sede”, disse Habee. “O que está acontecendo lá é um massacre. Minhas filhas ficaram muito chocadas lá. Na primeira e segunda semana a gente mentia [para elas]. A gente falava que essas bombas [jogadas por Israel na Faixa de Gaza] eram de festas de aniversário, mas a gente não conseguiu segurar por muito tempo”, acrescentou ele.
Habee falou que as filhas fechavam a janela para se sentirem seguras sempre que um avião do exército israelense passava. Em seguida, pediu para Lula providenciar também a vinda dos seus parentes, que estariam aguardando a liberação de uma segunda lista de brasileiros ou parentes de brasileiros.
Na manhã de segunda-feira (13) Lula já havia confirmado que estaria na Base Aérea de Brasília, para cumprimentar o grupo de repatriados. O gesto, de caráter simbólico, encerra um longo processo de negociação entre a diplomacia brasileira e os encarregados de Israel e Egito pela liberação de pessoas pela passagem de Rafah, na fronteira entre Gaza e Egito.
“A chegada desse décimo avião aqui no Brasil é o coroamento de um trabalho muito sério que a gente deve a muita gente que trabalha no governo, deve à aeronáutica Brasileira, ao ministro das Relações Exteriores, que fez um trabalho excepcional quando assumiu a presidência do Conselho de Segurança da ONU”, disse o presidente.
Os brasileiros só foram incluídos na sétima lista. O país com mais nacionais retirados de Gaza foram os Estados Unidos. Além dos Estados Unidos, outros oito países tiveram mais de 100 nacionais autorizados a sair da Faixa de Gaza. Mesmo com a demora ao concretizar a saída dos brasileiros, especialistas em relações exteriores consideraram a operação uma “vitória diplomática”.
O grupo que desembarcou na Base Aérea de Brasília ficará hospedado por, pelo menos, dois dias em alojamento da FAB, onde receberá apoio psicológico, cuidados médicos e imunização. Depois desse período, uma parte irá para outras cidades no Brasil, onde ficarão com parentes, e outra será deslocada para um abrigo especializado em acolhimento de refugiados no interior de São Paulo.
Voltando em Paz
Este será o décimo voo da Operação Voltando em Paz, do governo federal, que cumpre mais uma missão de repatriação em áreas de conflito no Oriente Médio. A aeronave VC-2, cedida pela Presidência da República, está há quase um mês no Egito para o resgate dos repatriados oriundos da Faixa de Gaza. Os outros voos partiram de Tel Aviv, em Israel, e de Amã, na Jordânia, com brasileiros que estavam no território palestino da Cisjordânia.
Com os dez voos, a Operação Voltando em Paz terá transportado um total de 1.477 passageiros, além de 53 animais domésticos. Do total, foram 1.462 brasileiros, 11 palestinos, três bolivianas e uma jordaniana.
No dia 7 de outubro, o Hamas, que controla a Faixa de Gaza, lançou um ataque surpresa de mísseis contra Israel e a incursão de combatentes armados por terra, matando civis e militares e fazendo centenas de reféns israelenses e estrangeiros. Em resposta, Israel bombardeou várias infraestruturas do Hamas, em Gaza, e impôs cerco total ao território, com o corte do abastecimento de água, combustível e energia elétrica.
Os ataques já deixaram milhares de mortos, feridos e desabrigados nos dois territórios. A guerra entre Israel e Hamas tem origem na disputa por territórios que já foram ocupados por diversos povos, como hebreus e filisteus, dos quais descendem israelenses e palestinos.
Os brasileiros e parentes repatriados da Faixa de Gaza já estão em Brasília. O avião VC-2 trazendo os 32 resgatados pousou às 23h24na Base Aérea. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está no local e recebe o grupo nesse retorno ao Brasil.
Os repatriados aguardavam há mais de um mês para deixar a região do conflito entre Israel e Hamas. “Agradecemos muito do fundo do coração a todos que ajudaram a gente a chegar aqui. Não estou acreditando ainda que estou aqui, que estou viva”, disse a jovem Shahed Al-Banna, de 18 anos.
O grupo ficará hospedado por, pelo menos, dois dias no Hotel de Trânsito de Oficiais, na Base Aérea. Eles receberão apoio psicológico, cuidados médicos e imunização.
Depois desse período, o grupo vai se dividir Brasil afora. Vinte e quatro pessoas irão para São Paulo, sendo que 12 ficarão na casa de parentes e outros 12 em um abrigo especializado em acolhimento de refugiados no interior do estado. Quatro ficarão em Brasília, dois seguirão para Florianópolis (SC), um irá para Cuiabá (MT) e outro para Novo Hamburgo (RS).
Ao chegarem ao Brasil, também será feita a regularização migratória, pela Polícia Federal, e a emissão de outros documentos que permitam o acesso a serviços públicos e ao emprego.
Das 32 pessoas, 22 são brasileiros, sete são palestinos naturalizados brasileiros e três são palestinos parentes próximos de brasileiros. No total, são 17 crianças, nove mulheres e seis homens.
Resgates
Este é o décimo voo de resgate da Operação Voltando em Paz, liderada pelo governo federal para repatriação de brasileiros em áreas de conflito no Oriente Médio.
Desde o início da guerra entre Israel e Hamas, o Brasil resgatou 1.477 pessoas e 53 animais domésticos. Os primeiros resgatados desembarcaram no Brasil em 11 de outubro. Do total, foram 1.462 brasileiros, 11 palestinos, três bolivianas e uma jordaniana. O grupo que chegou nesta segunda-feira, no entanto, é o primeiro que estava em Gaza, região onde se concentra a maior parte do conflito.
Os outros voos da Operação Voltando em Paz partiram de Tel Aviv, em Israel, de onde saiu a maioria dos resgates, e de Amã, na Jordânia, com brasileiros que estavam em Israel e no território palestino da Cisjordânia.
Os brasileiros que chegam hoje cruzaram a fronteira da Faixa de Gaza com o Egito, pelo Portal de Rafah, no último domingo (12), após serem contemplados na sétima lista de autorização da saída de estrangeiros de Gaza.
Eles chegaram ao Cairo no período da noite, onde foram recepcionados por equipes médicas e de psicólogos. Eles jantaram, dormiram e tomaram café da manhã nesta segunda-feira (13), antes de embarcarem para o Brasil. O voo fez duas paradas técnicas: uma em Las Palmas, na Espanha, e outra na Base Aérea do Recife, já em solo brasileiro.
Guerra
No dia 7 de outubro, o Hamas, grupo que controla a Faixa de Gaza, lançou um ataque surpresa de mísseis contra Israel e a incursão de combatentes armados por terra, matando civis e militares e fazendo centenas de reféns israelenses e estrangeiros. Em resposta, Israel bombardeou várias infraestruturas do Hamas em Gaza e impôs cerco total ao território, com o corte do abastecimento de água, combustível e energia elétrica.
Os ataques já deixaram milhares de mortos, feridos e desabrigados nos dois territórios, sendo a maior parte em Gaza.
As apostas para concorrer ao prêmio da Mega-Sena da Virada podem ser feitas a partir desta segunda-feira (13). Considerado o principal concurso das Loterias Caixa no ano, a Mega da Virada em 2023 tem prêmio estimado em R$ 550 milhões, o maior valor da história, de acordo com a Caixa Econômica Federal. Esse sorteio não acumula para outros concursos. Se ninguém acertar a faixa principal, de 6 números, o prêmio é dividido entre os acertadores da segunda faixa, com acerto de 5 números, e assim por diante. O sorteio do concurso nº 2.670 ocorrerá no dia 31 de dezembro, o último do ano, às 20h, pelo horário oficial de Brasília.
É possível apostar nas lotéricas de todo o país fazendo um jogo mínimo de R$ 5 (aposta simples de seis números), escolhendo entre os números de 1 e 60, ou pela internet, no aplicativo e no site oficial das Loterias Caixa. As lotéricas também vendem participação em diversos bolões, que são apostas feitas em grupo e com a garantia do seu recibo de cota individual. Para concorrer ao prêmio, é só marcar de seis a 20 números de 1 a 60.
O valor do prêmio acumulado pode aumentar ainda mais ao longo das próximas semanas, de acordo com o volume de apostas. No ano passado, a Mega da Virada sorteou cerca de R$ 520 milhões e cinco apostas acertaram o prêmio e dividiram a bolada.
A cada 8 minutos, uma menina ou mulher foi estuprada no primeiro semestre deste ano no Brasil, maior número da série iniciada em 2019 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Foram registrados 34 mil estupros e estupros de vulneráveis de meninas e mulheres de janeiro a junho, o que representa aumento de 14,9% em relação ao mesmo período do ano passado.
Os dados compilados pelo Fórum, divulgados nesta segunda-feira (13), apontam ainda que os feminicídios e homicídios femininos cresceram 2,6% no período, em comparação ao mesmo período de 2022. Foram 722 mulheres vítimas de feminicídio – quando o crime ocorre por razões de gênero. Mais 1.902 foram assassinadas e tiveram os casos registrados como homicídio. A entidade avalia que os números mostram que o estado brasileiro segue falhando na tarefa de proteger suas meninas e mulheres.
O resultado, segundo o FBSP, está na contramão da tendência nacional dos crimes contra a vida. “Recentemente, o Monitor da Violência, publicação do G1 com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o NEV-USP, mostrou que os crimes contra a vida caíram 3,4% no país no primeiro semestre deste ano. Ou seja, embora o país tenha tido êxito na redução da violência letal no período, os assassinatos de mulheres apresentaram crescimento”, aponta o relatório divulgado hoje.
Para Isabela Sobral, supervisora do núcleo de dados do FBSP, a Lei Maria da Penha é um mecanismo importante para prevenir o assassinato de mulheres. “A lei coloca o instrumento da medida protetiva de urgência, que é fundamental para prevenir a violência contra a mulher e o feminicídio. É importante que essa ferramenta seja de fato utilizada. Em diversos estados, existem estudos que mostram que as mulheres que são vítimas de feminicídio, em sua maioria, não possuíam medida protetiva de urgência contra o seu agressor”, disse.
“Isso tem que ser feito pelo fortalecimento da rede de atendimento, que vai acolher essa mulher em situação de violência, oferecer opções para ela que muitas vezes ela não tem ou sente que não tem. A gente precisa capacitar as polícias para fazer um atendimento adequado dessa mulher. É muito importante que elas estejam capacitadas para fazer isso da forma adequada e apresentar esses instrumentos, como a medida protetiva de urgência, que são fundamentais para a proteção dessa mulher”, acrescentou.
Isabela Sobral ressalta ainda a necessidade de que os policiais estejam capacitados para investigar e identificar casos de feminicídio entre os homicídios adequadamente, já que há diferença considerável na classificação do crime entre os estados.
“A respeito dos feminicídios, essa classificação depende de uma interpretação da autoridade policial, já que estamos falando de registros policiais nesse levantamento. Quem faz essa classificação é o delegado nesse primeiro momento e, após a investigação. Tem estados que têm percentuais acima de 70% de feminicídios registrados em relação ao total de homicídios de mulheres e outros estados um percentual de apenas 20%”, apontou.
Subnotificação
Os dados de violência compilados correspondem aos registros de boletins de ocorrência em delegacias de Polícia Civil de todo o país. Como há subnotificação de casos de violência sexual, os números de estupro podem ser ainda maiores.
“Cabe ressaltar que os estupros são um tipo de crime geralmente, tipicamente, muito subnotificados por motivos diversos, seja porque a mulher tem medo de registrar ou porque não compreende que aquilo pelo que passou se tratou de um estupro ou porque se trata de uma criança ou uma pessoa vulnerável que não consegue identificar ou que tem medo, não consegue falar, confia naquele autor”, disse Sobral.
Estudo recente do IPEA sobre a prevalência de estupro no Brasil, com dados de 2019, estimou que apenas 8,5% dos estupros que ocorrem no país são registrados pelas polícias e 4,2% pelos sistemas de informação da saúde. “Se assumirmos este mesmo percentual de casos notificados para este ano, temos cerca de 425 mil meninas e mulheres que sofreram violência sexual nos primeiros seis meses de 2023”, apontou o relatório do FBSP.
A supervisora do núcleo de dados do FBSP acrescenta que a maior parte dos autores de estupros são pessoas conhecidas das vítimas e que a maior parte também dessas vítimas são vulneráveis. Em relação a tipificação nos boletins de ocorrência, 74,5% dos casos de estupro registrados no primeiro semestre do ano foram de estupro de vulnerável. Isso significa que as vítimas tinham menos de 14 anos ou eram incapazes de consentir, seja por enfermidade, deficiência mental ou qualquer outra causa que não pode oferecer resistência.