Jovens kayapó fazem elo da ancestralidade com modernidade cultural


Além de ser responsável pela curadoria da exposição Mekukradjá Obikàrà: com os pés em dois mundos, o coletivo Beture – movimento dos Mekarõ opodjwyj, composto por cineastas e comunicadores indígenas Mẽbêngôkre-Kayapó – produziu o material da mostra, que faz o elo entre a ancestralidade e indígenas mais jovens desta etnia. A exposição – aberta neste sábado (28), no mezanino do Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Niterói, no estado do Rio – segue até o dia 26 de novembro.

Beture é o nome de uma formiga de cabeça vermelha e a traseira preta, encontrada no território Kayapó, cuja característica é uma mordida bastante potente. Ela tem as mesmas cores usadas pelos indígenas da etnia quando se pintam para a guerra.

“A juventude Mẽbêngôkre-Kayapó deseja registrar a vida e a cultura de seu povo por meio de tecnologias audiovisuais e diversas mídias. Hoje, o coletivo desempenha um papel fundamental na conquista de reconhecimento cultural, assim como na visibilidade das estruturas políticas”, informaram os organizadores da mostra.

Audiovisuais

Desde 2015, quando surgiu, o Beture contribui para organizar e estruturar um movimento da juventude que vem se espalhando por muitas comunidades indígenas. Desde então, formações audiovisuais têm sido realizadas para potencializar as produções do coletivo e ofertar aos cineastas mais conhecimento sobre as técnicas de captação de imagens, de roteirização e edição.

O material da exposição com fotos e vídeos do acervo do coletivo foi obtido pelos cineastas kayapó em viagens por algumas aldeias e retrata a transformação da cultura do povo Mebêngôkre-Kayapó, que habita seis terras indígenas no sul do Pará e no norte de Mato Grosso. A mostra tem ainda três telas pintadas por 15 mulheres Kayapó durante o Acampamento Terra Livre (ATL) de 2023, que ocorreu entre 24 e 28 de abril, em Brasília.

“As histórias a gente juntou na parte de vídeos como os nossos avós foram antigamente e não estão mais presentes e, com isso, nós jovens estamos com o objetivo de trazer isso, reviver [a cultura] e fortalecer mais ainda”, contou a kayapó Kokokaroti Txukahamãe Metuktere, em entrevista à Agência Brasil e à TV Brasil.

Niterói (RJ), 27/10/2023 – A comunicadora e integrante do Coletivo Beture, Kokokaroti Txucahamãe Metuktire durante visita à exposição Mekukradjá Obikàrà: com os pés em dois mundos, no Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Niterói. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Niterói (RJ), 27/10/2023 – A comunicadora e integrante do Coletivo Beture, Kokokaroti Txucahamãe Metuktire durante visita à exposição Mekukradjá Obikàrà: com os pés em dois mundos, no Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Niterói. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil – Tomaz Silva/Agência Brasil

Por causa dos estudos, a jovem kayapó, de 22 anos, que integra o coletivo, passou a viver fora da Aldeia Capoto na Reserva Capoto-jarina e foi morar em Colniza, uma cidade próxima em Mato Grosso. Ela disse que, mesmo fora do local de origem, é possível manter as tradições culturais.

“Muitas vezes pode ter um jovem que se pergunta se vai perder a sua cultura, só que não. Você pode preservar a cultura usando o conhecimento indígena”, observou, acrescentando que já tem algumas formações, mas pretende fazer universidade, mais especificamente, curso de cinema.

Por meio do trabalho de pesquisa para a exposição, Kokokaroti pôde ver pela primeira vez a imagem do avô.

“Esse momento que estamos tendo aqui nessa exposição, a gente buscou, correu atrás de cada das imagens e, principalmente, eu vi uma foto do meu avô, que eu não tive oportunidade de conhecer, nem a luta dele. A gente encontrou as imagens de cada liderança, todas tiveram vozes importantes naquela época. A gente conheceu umas culturas, tipo danças tradicionais que aconteciam naquela época e não acontecem mais. Com esse objetivo, eu quero buscar conhecimento sobre cinema”, explicou.

Machismo

A jovem destacou ainda a presença das mulheres entre os kayapó. Segundo Kokokaroti, atualmente elas têm atuado de forma conjunta e isso ajuda a combater o machismo nas comunidades.

“É uma coisa muito importante ter a presença da mulher dentro dos espaços, porque existe muito machismo que a gente enfrenta e agora estamos nos juntando mais para ocupar espaço, fortalecendo [as mulheres] dentro da comunidade da aldeia e nos estudos”, observou.

Para Kokokaroti Txukahamãe Metuktere, os cantos tradicionais que vê dos antepassados e os cortes de cabelos das mulheres e dos homens são as representações que mais caracterizam a cultura kayapó. “[Isso] é iniciado pelos nossos antepassados e nossos avós. É um símbolo nosso mesmo e o corte tradicional da mulher, que o homem também pode fazer”, afirmou.

Profissionalização

Como forma de garantir uma fonte alternativa de renda para o povo Mẽbêngôkre-Kayapó, os Mekarõ opodjwyj buscam um caminho profissionalizante. Na área política, atuam para gerar a possibilidade de jovens lideranças participarem de mobilizações políticas e ainda nas trocas de conhecimento com outros povos.

O audiovisual se transformou em um instrumento potente dos Mẽbêngôkre-Kayapó para o fortalecimento cultural dos próprios registros sobre a vida, atividades cerimoniais e cotidianas.

A produção do Beture é de cerca de 30 filmes por ano, que costumam tratar do metoro, que são as festas de nominação, os eventos políticos e alguns filmes de ficção representando as narrativas da origem da mitologia Mẽbêngôkre-Kayapó, principalmente transmitida pelos mais velhos.

Os filmes são exibidos nas comunidades e são muito bem recebidos nas aldeias Mẽbêngôkre-Kayapó, mas junto a outros públicos em níveis regional, nacional e internacional também têm acesso.




Fonte: Agência Brasil

Pesquisadores encontram carcaças de 23 botos em Coari, no Amazonas


Pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) encontraram 23 carcaças de botos-vermelhos e tucuxis em lagos de Coari, no Amazonas. O município é vizinho a Tefé, onde mais de 150 animais morreram, desde setembro. A maioria das carcaças se encontrava em estado avançado de decomposição, indicando que os animais haviam morrido já há alguns dias.

Boletim divulgado na sexta-feira (27) pelos institutos de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) informa que a maioria das carcaças é de botos-vermelhos, assim como ocorreu em Tefé, e que amostras dos animais mortos estão sendo coletadas para análise na busca de compreender a causa das mortes. A alta temperatura da água é apontada como a maior hipótese.

“Além disso, estão sendo instalados sensores automáticos de temperatura da água para monitoramento deste parâmetro, e amostras de água foram coletadas para análise físico-química em laboratório”, diz o boletim.

Em Tefé, pesquisadores do Instituto Mamirauá seguem realizando o monitoramento contínuo dos botos-vermelhos e tucuxis do Lago Tefé, bem como da qualidade da água do lago. Equipes de voluntários profissionais estão apoiando as atividades de monitoramento e se revezando junto com pesquisadores locais.

“Com o nível do lago ainda muito baixo, persistem as chances da temperatura da água do lago voltar a subir bastante, comprometendo os animais residentes. Nos últimos dias, a temperatura da água no ponto P1 de monitoramento tem se mantido elevada entre 36 e 37,7°C”, diz o boletim.

Um flutuante de reabilitação foi estruturado para receber e tratar animais que apresentem sinais clínicos drásticos.

Desde o dia 23 de setembro, foi identificado um evento incomum de mortalidade de botos e tucuxis na região do Lago Tefé, no Médio Solimões, no interior do Amazonas. Um total de 155 animais veio a óbito, sendo 131 botos-vermelhos e 24 tucuxis.

Desse total, 123 animais passaram por exames de necrópsia, com amostras de tecidos e órgãos dos animais enviados para diversos laboratórios especializados distribuídos pelo Brasil.

A seca e a temperatura da água chegou a 39,1°C às 16h no dia 28 de setembro, quando 70 botos morreram. Uma operação, com participação de diversos órgãos, foi montada para socorrer os animais ainda vivos.

Para evitar mais mortes de botos em trechos de águas mais quentes do Lago Tefé, os pesquisadores montaram uma espécie de cordão para isolar esses trechos e conduzir os botos para áreas mais profundas do lago, onde a temperatura é mais baixa.

Apesar de a alta temperatura seguir como causa mais provável, os pesquisadores não descartam outras possibilidades como alguma contaminação da água ou doenças nos animais. Além das altas temperaturas medidas no lago durante o período da tarde, há também uma grande variação da temperatura da água durante o dia, chegando a variar entre 28°C e 38°C diariamente.

“Tivemos 17 indivíduos já avaliados com análises histológicas e até o momento não há indício de um agente infeccioso relacionado como causa primária da mortalidade. O diagnóstico molecular (PCR) de 18 indivíduos também deu resultado negativo para os agentes infecciosos Morbillivirus, Toxoplasma, Clostridium, Mycobacterium e Pan-fúngico, associados a mortes em massa”, informa o boletim.




Fonte: Agência Brasil

Secom cria GT para discutir participação social na comunicação pública


O ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), Paulo Pimenta, anunciou a criação de um Grupo de Trabalho (GT) para discutir a participação social na comunicação pública.

O anúncio, feito nessa sexta-feira (27), ocorreu em reunião com o presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Jean Lima, e com os integrantes do extinto Conselho Curador da empresa.

O conselho foi extinto em 2016 por medida provisória do ex-presidente Michel Temer, o que contribuiu com o desmonte da comunicação pública no país, eliminando a participação da sociedade civil na EBC.

“O anúncio de formação desse GT é um alento depois de tanto tempo de espera pela retomada da EBC de fato pública. Mas precisamos garantir a participação da sociedade nessa discussão”, disse Akemi Nitahara, representante dos trabalhadores no conselho, cassado em 2016. “É a participação social que garante que os interesses da sociedade serão levados em conta na produção dos conteúdos”, acrescentou.

Como será

O GT será formado por três integrantes da Secom, três integrantes da diretoria da EBC, três representantes do antigo Conselho Curador da empresa e três representantes das entidades representativas dos trabalhadores. Segundo a Secom, o objetivo do grupo é debater a participação social, definir diretrizes e propor medidas para o aprimoramento da comunicação.

“O Conselho Curador, que foi extinto, era um espaço importante de diálogo com a sociedade e que merece ser respeitado e ouvido. Dentro de um esforço de diálogo com relação à comunicação pública e a EBC, vamos constituir um grupo de trabalho reunindo Secom, EBC, representações de servidores e também a representação da sociedade civil, para juntos pensarmos propostas e ideias na perspectiva de se melhorar cada vez mais a comunicação pública no Brasil”, disse o ministro, em nota divulgada pela Secom.

Para Nitahara, o Conselho Curador é fundamental para garantir que a EBC seja, de fato, uma empresa de comunicação pública. “Desde 2016, com a cassação do colegiado pelo Temer, não se pode mais chamar a EBC tecnicamente de uma empresa de comunicação pública. O Comitê Editorial, previsto pela mudança feita na lei, não supre essa demanda, já que ele não tem funções práticas, pode ser considerado figurativo”, finalizou.




Fonte: Agência Brasil

Eclipse parcial da Lua será hoje e poderá ser visto pela internet


Um eclipse parcial da Lua, quando o satélite natural será encoberto pela sombra da terra, poderá ser visto neste sábado (28). Segundo o Observatório Nacional, o fenômeno poderá ser visto na região mais ao leste do Brasil, nos estados do Ceará, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe e Rio Grande do Norte e parte de Minas Gerais, Bahia, Maranhão e Piauí.

Nesse tipo de fenômeno, a Lua fica encoberta por dois tipos de sombras: a umbra, sombra escura que não recebe luminosidade do Sol, e a penumbra, a sombra clara que ainda recebe luminosidade do Sol.

Quando a Lua vai entrando na umbra há o eclipse parcial. Quando está totalmente mergulhada na umbra, ocorre o eclipse total. Quem estiver nos estados acima mencionados terá a oportunidade de ver uma pequena porção da Lua que ficará mordida por parte da Terra, já que a cobertura máxima será de 6% e vai ocorrer durante o nascimento do satélite.

Dicas para ver o eclipse

Para observar o eclipse, o Observatório Nacional recomenda procurar locais com boa visibilidade para o leste, já que a Lua nascerá com o eclipse em andamento. Verifique aqui como será a visualização na sua região.

Para quem não puder observar diretamente o fenômeno, o Observatório Nacional transmitirá em tempo real o eclipse pela internet, a partir das 15h.

Além de exibir imagens do eclipse, os astrônomos convidados pelo Observatório Nacional vão conversar com o público sobre astronomia, astrofísica, telescópios e obtenção de imagens astronômicas. Será possível interagir com os astrônomos, enviando perguntas e comentários através do chat da live no YouTube.

Os eclipses da Lua ocorrem durante a Lua cheia. Ela nasce quando o Sol se põe. Para observar esse espetáculo, é recomendável procurar locais com boa visibilidade para o leste, já que a Lua nascerá com o eclipse em andamento.




Fonte: Agência Brasil

Imensa e desigual, zona oeste é 70% do Rio e tem 41% da população


Composta por 43 bairros, a zona oeste da capital fluminense conta com praias turísticas, parques e reservas naturais e também é palco de grande desigualdade. Trata-se da maior área do município do Rio de Janeiro, com mais de 70% do território, e também da que mais cresce em população. De um lado, está localizada a Barra da Tijuca, bairro com condomínios e shoppings de luxo. De outro, está a maior área de pobreza do município, onde fica, por exemplo, a comunidade Três Pontes, em Paciência, a origem da família que lidera a milícia responsável pelos ataques criminosos desta semana.

A Agência Brasil entrevistou especialistas sobre a região que concentra 41% da população carioca. A zona oeste, considerada o berço das milícias do Rio de Janeiro, tem uma história complexa, que envolve um passado agrícola, especulação imobiliária e uma enxurrada de investimento para a realização de grandes eventos, como as Olimpíadas de 2016.

“A zona oeste é uma região que, por muito tempo, foi uma área esquecida pelos poderes públicos. Então, de fato, não foi, durante anos, uma área de investimento prioritário, em todos os sentidos. Olhava-se para a zona oeste como se fosse uma outra cidade e não parte da mesma cidade. Essa é uma representação social bastante forte no imaginário do Rio de Janeiro e, sobretudo, no imaginário dos grupos mais abastados e do poder público”, diz o pesquisador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni-UFF) Daniel Hirata.

arte zona oeste rio de janeiro

A pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Espaço Urbano, Vida Cotidiana e Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UrbanoSS-Uerj) Patricia Nicola complementa: “A zona oeste é muita coisa. Ela compõe mais de 70% da área territorial da cidade e a maior parte da população também reside naquela localidade, 41% das pessoas moram na zona oeste. Interessante a gente ver que o que a gente chama hoje de zona oeste, antes, era chamado de sertão carioca”.

A zona oeste é a área do Rio de Janeiro que mais cresceu nos últimos anos. Segundo relatório da prefeitura, entre 2000 e 2013, enquanto toda a cidade teve um crescimento da área construída de 36,6%, na zona oeste, houve uma expansão de 80%. Além disso, entre 2000 e 2010, enquanto a população da cidade aumentou 7,9%, a da zona oeste cresceu 16,8%, o que corresponde a mais de 80% do crescimento total do Rio. A densidade demográfica, ou seja, a quantidade de habitantes por área, ainda é menor que a das demais regiões do Rio de Janeiro.

Rio de Janeiro (RJ), 27/10/2023 - Condomínio de luxo, na Barra da Tijuca, zona oeste da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Condomínio de luxo na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio – Tânia Rêgo/Agência Brasil

Sertão carioca

Esse crescimento chamou a atenção de Patricia Nicola que, no mestrado, pesquisou a região a partir do programa de habitação do governo federal Minha Casa, Minha Vida, onde atuou entre 2011 e 2013. A pesquisa deu origem a artigo publicado na revista Dilemas. No estudo, a pesquisadora reuniu informações sobre a história de ocupação da região que ajudam a entender a atual configuração da área, tanto em termos de estrutura quanto das características da população residente.

Segundo a pesquisa, a zona oeste já foi conhecida como o sertão carioca, nome dado pelo pesquisador e escritor Magalhães Corrêa no livro de mesmo nome, de 1936. A zona oeste passa a se integrar de fato ao Rio de Janeiro, com os limites de hoje, a partir do ato adicional de 1834, que criava o Município Neutro ou da Corte. Com a proclamação da República, a região tornou-se a zona rural do Distrito Federal, até que em 1960, com a transferência da capital para Brasília, passou a ser a zona oeste do Rio de Janeiro. Antes disso, a região chegou a abrigar latifúndios de senhores e senhoras de engenho, fazendas e também quilombos, formados por pessoas escravizadas que fugiam dos latifúndios.

Patricia Nicola cita alguns marcos da urbanização da área, que era uma importante produtora agrícola. A estrada de ferro da região é um desses marcos de crescimento. O surgimento da estrada de ferro no final do século 19 fez com que houvesse uma concentração populacional e comercial perto das estações de trem. Além disso, a construção de novas estradas, muitas delas atravessando montanhas, integrou ainda mais a região ao restante da cidade. Outro eixo de expansão foi a construção da Vila Militar, entre 1904 e 1918, destinada a ser um bairro com escolas, jardins, praças e toda a infraestrutura para atender militares e suas famílias.

A partir da década de 1960, o então governador Carlos Lacerda iniciou o programa de remoção de favelas e reassentamento de famílias faveladas, transformando a zona oeste em local de expansão da cidade para assentamento da população de baixa renda.

“Na década de 1960, começa-se a construir habitações populares, de forma específica, para a população de baixa renda”, diz. “Com esse vetor de produção habitacional, a zona oeste começa a crescer e cresce não só o território, mas a população. E que população é essa [É] essa população removida de favelas. Favelas de Copacabana, da Lagoa [ambos bairros da zona sul do Rio] – a Lagoa era uma grande favela que foi removida”, acrescenta.

A pesquisadora conta que essa característica persiste e que observou enquanto trabalhava no Minha Casa, Minha Vida o mesmo movimento que ocorreu na década de 1960. A chegada de pessoas sem uma estrutura do Estado para atendê-las. “Envia para lá mais pessoas e não pensa em equipamentos públicos de saúde e transporte. Principalmente porque, se alguém é deslocado de um ponto para outro da cidade, ele não larga o trabalho. Passa a morar mais longe do trabalho, onde é mais barato. Para se deslocar para o trabalho, isso custa caro. O serviço público não acompanha, o governo não acompanha, não ocupa esses espaços e deixa livre para outras organizações e pessoas ocuparem esses espaços”, analisa.

27/10/2023 Rio de Janeiro (RJ), Foto feita em 08/03/2014 - As Forças Armadas voltaram a ocupar a Vila Kennedy, zona oeste da cidade. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Forças Armadas e forças estaduais de segurança ocupam Vila Kennedy, na zona oeste do Rio, para instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora em 2014 – Tânia Rêgo/Arquivo/Agência Brasil

Outro marco na história da zona oeste é o processo de ocupação acelerado a partir dos anos de 1970. Esse processo, de acordo com Patricia Nicola, foi marcado por uma intensa especulação imobiliária e pela formação da Barra da Tijuca. “Esse marco do planejamento público foi materializado pelo trabalho do arquiteto Lúcio Costa e sua proposta de Plano Piloto para o ordenamento territorial da região da Barra da Tijuca e Baixada de Jacarepaguá”, diz trecho do artigo da pesquisadora. “A Barra da Tijuca é um dos locais mais valorizados do Rio; o espaço é concebido como mercadoria a ser consumida por aqueles que podem pagar por ela, um ‘sonho de consumo’ valorizado pela mídia e pelo setor imobiliário”, complementa o artigo.

Surgimento das milícias

O pesquisador Daniel Hirata explica que as milícias se consolidam na região justamente por conta da desigualdade e da ausência do Estado em determinadas localidades. “As desigualdades sociais estão no coração do problema de segurança pública, no sentido que elas acabam produzindo condições para o desenvolvimento desses grupos, na zona oeste. A ecologia urbana da zona oeste é diferente da zona sul e mesmo da zona norte no sentido que não tem uma delimitação tão clara entre o morro e o asfalto”, diz.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) classifica os bairros do Rio de Janeiro de acordo com o Índice de Desenvolvimento Social (IDS). Em termos de extensão, a zona oeste concentra a maior área com os piores indicadores, o nível 1, em uma escala que vai até 5, sendo que o IDS 5 representa as melhores condições de vida.

O IDS leva em consideração as condições de moradia, educação e renda, com informações sobre acesso a água, esgoto, coleta de lixo por serviço de limpeza, número de banheiros por morador, porcentagem de analfabetismo, rendimento médio do responsável pelo domicílio, porcentagem de domicílios com rendimento do responsável de até dois salários mínimos e porcentagem dos domicílios com rendimento do responsável igual ou maior que dez salários mínimos.

27/10/2023 - Mapa dos bairros do município do RJ de acordo com a distribuição do IDS 2010. Foto: IPEA

Mapa do Ipea agrupa bairros do Rio de acordo com o Índice de Desenvolvimento Social (IDS) – Ipea

O artigo A Zona Oeste do Rio de Janeiro, Fronteira dos Estudos Urbanos?, também publicado na revista Dilemas mostra que, em 2008, a zona oeste tinha um terço das bibliotecas e dos centros culturas que a zona sul tinha, mesmo com uma população quatro vezes maior. Em Guaratiba, um dos bairros da região, somente 51,3% dos domicílios tinham acesso à rede geral de esgoto em 2010, enquanto a média de toda a cidade era 93,5%.

As desigualdades são somadas a características de uma área onde a cidade ainda tem grande potencial de crescimento, o que favorece a atuação das milícias, de acordo com o pesquisador Daniel Hirata. “A zona oeste é uma fronteira urbana, uma área para qual estão dirigidas a expansão da habitação, do serviço, e equipamentos urbanos do Rio de Janeiro, e toda essa produção da cidade é parte importante do modelo de negócios das milícias. As milícias atuam no loteamento de terras, na construção imobiliária, na compra e venda de imóveis, na administração condominial, no provimento de infraestrutura, de água, luz, lixo, circulação de produtos como, por exemplo, a água e o gás de cozinha. É a própria produção da cidade que está no coração do modelo de negócios das milícias”, diz o pesquisador.

27/10/2023 - Rio de Janeiro (RJ), Foto feita em 21/09/2023 - Foto aérea da Comunidade do Rio das Pedras, na zona oeste da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Joá, Itanhangá e Jardim Oceânico ficam na parte mais rica da zona oeste da capital fluminense – Tânia Rêgo/Agência Brasil

Hirata destaca ainda a realização de grandes eventos, como as Olimpíadas de 2016, que concentrou grande parte das arenas de competição na Barra da Tijuca. “Naquele momento tivemos uma série de investimentos públicos muito importantes que dirigiram e intensificaram essa fronteira urbana, a expansão urbana em direção à zona oeste. Eles estão presentes nesses locais e, portanto, esse é um momento que favoreceu muito a expansão desses grupos.”

Ações do poder público

Para ambos os pesquisadores, uma maior presença do Estado na região pode ajudar no combate às milícias. Uma maior atuação, por exemplo, nas áreas de educação, saúde, transporte público, cultura e prestação de serviços públicos impediria que grupos criminosos expandissem a atuação.

“Esse mercado desregulado acaba favorecendo a parasitagem desses grupos para aferição e lucros. Uma presença do Estado nesse sentido seria muito mais eficiente para o enfrentamento desses grupos armados, para garantir esses serviços e equipamentos públicos de qualidade e também preços mais justos para a população residente e com efeito de letalidade muito menores”, diz Hirata.

“É uma parte de cidade que cresce cada vez mais. É uma parte da cidade que merece receber um olhar melhor dos nossos governantes. É uma parte da cidade que merece ser tratada como qualquer parte da cidade, com respeito, com dignidade, com serviços públicos que cheguem àquela população que lá precisa. Serviços de assistência, de saúde, de educação. O Estado não pode chegar à zona oeste somente com uma arma. O Estado precisa chegar à zona oeste com serviços públicos para aquela população que lá mora e vive”, ressalta Patricia Nicola.




Fonte: Agência Brasil

São Paulo tem programação para a Virada Esportiva deste fim de semana


A 16ª Virada Esportiva, promovida pela prefeitura de São Paulo, será realizada neste final de semana (28 e 29) na cidade. Haverá práticas esportivas de forma gratuita para a população espalhadas por diversos bairros.

Com mais de duas mil atividades, a programação contempla desde crianças e jovens até adultos e idosos. Além de diversas modalidades, que incluem atletismo, bocha, beach tennis, escalada, futebol e yoga, entre outros, a virada terá palestras sobre a importância do exercício físico e shows de música.

O hip hop vai ocupar o Largo da Batata e o rock será no Campo Limpo. Na região do M’Boi Mirim, o público poderá aproveitar pagode e sertanejo.

Outra atração é o xadrez, que terá campeonato para crianças, na zona norte, e jogos pedagógicos com xadrez gigante na zona oeste.

Crianças

Também para crianças, dois roteiros turísticos foram elaborados para percorrer o centro da cidade. Um deles terá a temática do Halloween, o outro levará o público a pontos que remetem à história da cidade, como Mosteiro de São Bento, Edifício Martinelli, Farol Santander, Pateo do Collegio, Solar da Marquesa e Praça da Sé.

O centro histórico sediará também uma pedalada, na manhã de domingo, que saíra da Praça da Sé e vai percorrer pontos como Rua Boa Vista, Rua Líbero Badaró, Viaduto do Chá, Avenida Ipiranga, Largo do Arouche, Praça da República e Rua Líbero Badaró, entre outros.

A programação completa está no site da virada.


 




Fonte: Agência Brasil

São Paulo: Casa das Rosas reabre restaurada e com nova exposição


Depois de quase dois anos fechada para restauro, a Casa das Rosas, um dos poucos casarões remanescentes na Avenida Paulista, em São Paulo, abre novamente suas portas ao público a partir das 15h deste sábado (28).

Criada pelo escritório do arquiteto Ramos de Azevedo (1851-1928) – o mesmo idealizador de outros edifícios importantes da cidade, como o Theatro Municipal, a Pinacoteca de São Paulo e o Mercado Municipal, a Casa das Rosas foi originalmente concebida para ser residência e era mais um entre os muitos casarões de milionários barões do café que havia na Avenida Paulista daquela época.

São Paulo (SP) 27/10/2023 - Reabertura da Casa das Rosas na avenida Paulista com entrevista coletiva da Secretária estadual de Cultura, Marília Marton.  
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Visitantes contarão com espaços antes não disponíveis ao público – Paulo Pinto/Agência Brasil

A mansão foi concluída em 1935 e habitada pelos herdeiros do arquiteto até meados dos anos 80, quando a Avenida Paulista já não era a mesma: prédios comerciais, bancos, arranha-céus e trânsito viraram sua nova realidade. Hoje, poucos casarões daquele período. A Casa das Rosas, que virou um museu em 2004, é um deles.

Restauro

O público que visitar a nova Casa das Rosas vai poder conhecer espaços da casa que não estavam abertos para visitação, como a sala de lanche e a copa. Já os banheiros com azulejos e objetos verdes ou em cor de rosa e o quarto do casal, por exemplo, que eram conhecidos, foram restaurados. O investimento no restauro foi de R$ 4,2 milhões, custeados pelo governo de São Paulo.

São Paulo (SP) 27/10/2023 - Reabertura da Casa das Rosas na avenida Paulista com entrevista coletiva da Secretária estadual de Cultura, Marília Marton.  
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Casa das Rosas, na avenida Paulista, reabre neste sábado . Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil – Paulo Pinto/Agência Brasil

“A Casa das Rosas renasce com suas características originais visíveis e recuperadas”, disse Marcelo Tápia, diretor da Casa das Rosas, em entrevista à Agência Brasil. Entre essas características originais, destacou ele, estão alguns papéis de parede originais que foram restaurados à mão.

Um dos focos do restauro foi a reparação de problemas identificados na estrutura física do imóvel, como rachaduras, infiltrações e melhoria nos sistemas elétrico e hidráulico. Além disso foram mantidos detalhes originais da casa como as gárgulas e os adornos metálicos. O projeto também deixou o museu mais acessível com piso tátil, corrimãos duplos e placas contendo inscrição em Braille. “Foram feitas, por exemplo, valas entre o solo e o subsolo para ter um arejamento onde fica o acervo do Haroldo de Campos. Foram feitas intervenções estruturais e estéticas”, explicou Tápia.

“Foi um processo longo e profundo, porque foi preciso investigar a textura e a composição da massa original. Foi a primeira vez que a casa recebeu um restauro que desocultou características originais. É possível viver aqui essa aparência ligada ao passado, à memória da casa, a esse estilo arquitetônico eclético que representa muitas tendências, um tempo de morar e um tempo da Avenida Paulista que era feita só de residências da elite. Agora, como espaço público, a pessoa vai poder ter contato com essa história, inserido nesse contexto atual frenético da avenida”, disse o diretor da Casa das Rosas.

Cada um desses espaços da casa conta agora com uma placa informativa, que dizia como ele era usado na época. “Tem algumas indicações com fotos e textos mostrando como era usado o ambiente no tempo da residência”, explicou Tápia.

São Paulo (SP) 27/10/2023 - Reabertura da Casa das Rosas na avenida Paulista com entrevista coletiva da Secretária estadual de Cultura, Marília Marton.  
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

 Reabertura da Casa das Rosas na avenida Paulista com entrevista coletiva – Paulo Pinto/Agência Brasil

Ressignificação

Renovada e com mais ambientes abertos para visitação, a Casa das Rosas agora apresenta um novo conceito museológico e expográfico. Com isso, a casa-museu vai se dedicar não somente à sua vocação literária e poética, mas também para as artes visuais e outras identidades artísticas, como as performances.

“O aspecto da literatura e da poesia será mantido. Ele prossegue sendo o Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, mas em diálogo com outras expressões. Então, estamos ampliando esse leque para acolher as tendências e as linguagens diferentes que convivem nessa cidade. Há representação de linguagens, artistas, tendências e grupos das diferentes regiões”, disse Marcelo Tápia.

Com essa ressignificação, o museu preparou uma exposição inédita para a sua reabertura e que reúne esculturas, instalações, vídeos, gravuras e pinturas. A exposição temporária e chamada de Vivências do Novo, é composta por dois módulos.

São Paulo (SP) 27/10/2023 - Reabertura da Casa das Rosas na avenida Paulista com entrevista coletiva da Secretária estadual de Cultura, Marília Marton.  
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Reabertura do Museu Casa das Rosas, por Paulo Pinto/Agência Brasil

O primeiro, no térreo, apresenta imagens históricas da Avenida Paulista e do museu como testemunha das transformações urbanas, culturais e artísticas da cidade. No térreo também é falado sobre o trabalho de restauro do museu. Já a segunda parte da mostra, chamada Dimensão Cidade, exibe no andar superior, obras de 15 artistas contemporâneos. A exposição tem curadoria de Paula Borghi.

São Paulo (SP) 27/10/2023 - Reabertura da Casa das Rosas na avenida Paulista com entrevista coletiva da Secretária estadual de Cultura, Marília Marton.  
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Dimensão Cidade exibe no andar superior, obras de 15 artistas contemporâneos. – Paulo Pinto/Agência Brasil

“Para a abertura, fizemos uma exposição que toma conta da casa. O mesmo espaço que vamos utilizar para atividades culturais, agora está sendo usado para a exposição. Vamos mostrar a vocação da casa, mas mostrando a diversidade de expressões artísticas da cidade, a história da casa e a importância desse patrimônio nesse corredor cultural”, disse Tapia.

A nova exposição, disse a curadora, foi pensada para a reabertura e tem início do lado de fora da Casa das Rosas, no jardim de rosas. “Temos uma instalação lá fora, da Natalie Salazar, uma poesia em neon no jardim. E, no primeiro andar, em todos os cômodos da casa, desde o banheiro à varanda, do corredor à sala, há trabalhos artísticos. São 15 artistas diversos em identidade, pesquisa e linguagens artísticas. Temos artistas de 29 a 92 anos. Temos trabalhos em gravura, uma linguagem antiga das artes visuais, até trabalhos com novas mídias audiovisuais”, explicou Paula Borghi.

Entre os trabalhos em exposição está um produzido pelo artista indígena Xadalu Tupã Jekupé. “O Xadalu é um artista de Porto Alegre e que trabalha aqui em São Paulo e que tem um diálogo muito grande com a aldeia Guarani-Jaraguá. Ele traz para a gente um depoimento de um parente falando sobre como é morar em uma aldeia, muito próxima da cidade, e vir trabalhar no centro da cidade de São Paulo, vendendo artesanato. Temos um relato desse parente do Xadalu, escrito em guarani, com tipografia da pichação. Mas temos também uma tradução em português, contando esse lamento da terra. Acho que abrir uma exposição falando da Dimensão Cidade e não trazer as vozes diversas dessa cidade não seria coerente”, disse a curadora.

Outro artista que terá trabalho exposto nessa mostra é o poeta Augusto de Campos. “A exposição faz bastante esse cruzamento entre literatura e artes visuais. A gente tem um artista icônico, o Augusto de Campos, participando com um poema, que é uma versão inédita e que passa em um painel de led”, adiantou Paula Borghi.

Como parte da mostra, a exposição contará também com intervenções, visita guiada, bate-papo e performances que ocorrem entre outubro e novembro. Mais informações sobre o museu, que tem entrada gratuita, podem ser obtidas no site https://www.casadasrosas.org.br/index.php

São Paulo (SP) 27/10/2023 - Reabertura da Casa das Rosas na avenida Paulista com entrevista coletiva da Secretária estadual de Cultura, Marília Marton.  
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Reabertura da Casa das Rosas conta com obras de 15 artistas, com diferentes linguagens, que têm de 29 a 92 anos – Paulo Pinto/Agência Brasil

O museu Casa das Rosas é uma instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, gerenciada pela Organização Social de Cultura Poiesis.




Fonte: Agência Brasil

Mega-Sena deve pagar neste sábado prêmio acumulado de R$ 90 milhões


O concurso 2.650 da Mega-Sena, que será sorteado neste sábado (28) à noite em São Paulo, deverá pagar o prêmio de R$ 90 milhões a quem acertar as seis dezenas. O sorteio será às 20h, no Espaço da Sorte, na Avenida Paulista, em São Paulo.

O último concurso, na quinta-feira (26), não teve ganhador das seis dezenas. Foram sorteados os números 06 – 11 – 26 – 32 – 46 e 56.

As apostas para o concurso de hoje podem ser feitas até as 19h (horário de Brasília) do dia do sorteio nas casas lotéricas credenciadas pela Caixa, em todo o país ou pela internet.

O jogo simples, com seis dezenas marcadas, custa R$ 5.




Fonte: Agência Brasil

GO: operação resgata 53 trabalhadores de situação análoga a escravidão


Auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego resgataram 53 cortadores de cana-de-açúcar em condições de trabalho análogas à escravidão no município de Inhumas (GO). Os trabalhadores foram localizados na última terça-feira (24). no âmbito da Operação Cana Queimada, que envolveu, ainda, agentes do Ministério Público do Trabalho (MPT), Ministério Público Federal (MPF) e da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Para recrutar os trabalhadores, figuras chamadas, no contexto, de “gatos” atuavam nos estados do Maranhão, Piauí e Bahia. Os aliciadores ganhavam R$ 43 mensais por cada trabalhador que conseguiam atrair para os empregadores.

Os trabalhadores eram obrigados a alugar um lugar onde morar em cidades goianas próximas a Inhumas, como Araçu e Itaberaí. Após garantir a moradia, tinham que apresentar um comprovante de endereço aos empregadores, para que fossem tratados como moradores da região, o que livrava os patrões de fornecer alojamento e alimentação.

Os imóveis onde dormiam eram antigos e sem ventilação, não dispondo de camas e, em alguns casos, nem sequer de colchões. Nos barracos, também não havia cozinha.

Durante o expediente, também faltavam banheiros disponíveis aos trabalhadores. Outra irregularidade vista pelos auditores fiscais foi a ausência de pausas para descanso e de equipamentos de proteção individual em boas condições de uso.

Os representantes da empresa que contratou os trabalhadores, cujo nome não foi revelado, receberam notificação dos auditores fiscais do trabalho para que providenciem rescisão e coloquem em dia todas as verbas rescisórias, que totalizam R$ 950 mil. Como a empresa se recusou a pagar a quantia devida, será necessário que se garanta a medida por meio da Justiça, através de processo a ser movido pelo MPT.

As vítimas ganharam passagens de ônibus, compradas com recursos da União, para poder retornar às suas cidades de origem, e foram cadastradas no sistema de “seguro-desemprego de trabalhador resgatado”, o que possibilita que recebam três parcelas de um salário mínimo cada, conforme determina a lei. Os bilhetes foram adquiridos pelos auditores fiscais.

A empresa que explorou os trabalhadores será autuada por todas as infrações constatadas pela equipe de fiscalização e pode ter o nome inserido na lista de empregadores que submetem seus empregados a condições análogas às de escravidão. Além disso, os responsáveis podem responder criminalmente, por promover “redução à condição análoga à de escravo”, crime cuja pena pode chegar a até oito anos de prisão e multa.

Denúncias de casos de trabalho análogo à escravidão podem ser feitas pelo site https://ipe.sit.trabalho.gov.br/

*Com informações do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (Sinait).




Fonte: Agência Brasil

Demarcações são fundamentais para futuras gerações, diz cacique Raoni


“Os não indígenas não estão tendo noção do que estão destruindo, por isso, nós, como povos indígenas, dentro de território, dentro da floresta, sabemos o que pode acontecer se continuar destruindo”, afirmou o cacique kaiapó Raoni Metuktire, que visitou nesta sexta-feira (27) a exposição Mekukradjá Obikàrà: Com os Pés em Dois Mundos. A mostra está sendo instalada no mezanino do Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Niterói, região metropolitana do Rio.

 Para Raoni, a demarcação das terras dos povos originários, além de preservar a natureza, é importante para manter as próprias culturas.

“Nossos territórios são demarcados para poder manter tudo que tem dentro e preservar a natureza. Dentro de um território, temos floresta, animais, rios e temos nossas próprias culturas e tradições. Por isso, pensamos e pretendemos que continuemos com a nossa vida como povos nativos dentro de floresta. Por isso, defendemos nossa terra, a floresta. Por que defendemos o meio ambiente? Estamos vendo o aquecimento global, está cada vez mais quente na Terra, está cada vez mais secando rios, isso é muito preocupante para nós”, afirmou.

Raoni considera as demarcações fundamentais também para as futuras gerações. “As nossas terras demarcadas são para outras gerações. Eles têm que ter o território para continuarem com a vida, a cultura e os costumes deles. Precisamos de território para ter animais, precisamos dos rios, da floresta, das aves para continuar com nossa vida dentro da floresta.”

A mostra, que será aberta neste sábado (28) e vai até 26 de novembro, apresenta adornos usados nas festas e rituais, fotos, vídeos, depoimentos e um acervo produzido pela nova geração por meio do coletivo Beture, que é um movimento de cineastas e comunicadores indígenas Mẽbêngôkre-Kayapó.

Segundo o líder indígena, a mostra, que deixa evidente a ancestralidade de seu povo, é também uma forma de manter a memória dos kaiapó. “Sim, tem que ser mostrada a nossa cultura, mostrada também para os não indígenas, que são vocês, para que vejam a nossa cultura viva, tenham respeito por nós, pelos povos indígenas, a nossa terra. E essas fotos mostram [que é] para os jovens continuarem com a cultura deles, origem ancestral, por isso, é importante mostrar a nossa cultura para podermos mostrar para todos não indígenas e jovens indígenas para continuarem com a cultura deles”, afirmou.

Raoni ficou satisfeito com o que viu. “Como a nossa cultura ainda é forte e ainda vive entre nós, estou vendo aqui essas fotos e muitas de recordações. Foram tiradas há muito tempo e hoje, nesse momento, está tendo a mostra dessas fotos. Vi que é muito importante mostrar a nossa cultura, nossa arte e nossa tradição, para motivar nossos jovens a continuarem com a cultura deles. Por isso, estou vendo e gostando muito desse trabalho que está sendo feito”, pontuou.

O cacique kaiapó comentou ainda a importância da exposição em meio a tanta discussão no país sobre o marco temporal das terras indígenas. “Quando fazemos isso, e vocês fazem junto, mostramos a nossa vida para que eles possam nos respeitar, respeitar, para não acontecer nada de ameaça contra nós”, concluiu.

Niterói (RJ), 27/10/2023 – O Cacique Raoni durante visita à exposição Mekukradjá Obikàrà: com os pés em dois mundos, no Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Niterói. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Niterói (RJ), 27/10/2023 – O Cacique Raoni durante visita à exposição Mekukradjá Obikàrà: com os pés em dois mundos, no Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Niterói. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil – Tomaz Silva/Agência Brasil

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A exposição Mekukradjá Obikàrà: Com os Pés em Dois Mundos, é realizada pela Petrobras, por meio do projeto Tradição e Futuro na Amazônia (TFA), patrocinado pelo Programa Petrobras Socioambiental, que tem a gestão do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade. De acordo com os organizadores, a Conservação Internacional Brasil e as organizações representativas parceiras do projeto, os institutos Kabu e Raoni e a Associação Floresta Protegida apoiam a iniciativa.

A gerente de Planejamento de Responsabilidade Social e Direitos Humanos da Petrobras, Sue Wolter, disse que é longa a história de investimentos socioambientais da companhia, dentro do compromisso do desenvolvimento social do país e da transformação das pessoas.

Sue revelou que o Tradição e Futuro da Amazônia é um projeto de seleção pública na linha de florestas, que é uma das quatro realizadas pela Petrobras. As outras são oceano, desenvolvimento econômico sustentável e educação. O outro compromisso da empresa é com projetos ligados ao respeito aos e direitos humanos e à promoção dos direitos humanos, acrescentou.

“Tem uma linha transversal em todos os projetos, que são de povos tradicionais, povos indígenas e pescadores e populações menorizadas: LGBT, pessoas com deficiência, população negra. Para a gente, é muito importante um olhar para esses saberes. Uma das ações do projeto é resgatar e divulgar os saberes tradicionais. É o que a gente está fazendo aqui. Hoje é o ápice dessa ação dentro do projeto”, disse Sue Wolter em entrevista à Agência Brasil.

Ela explicou que o projeto Tradição e Futuro na Amazônia é desenvolvido em cinco terras indígenas com trabalhos de educação ambiental, agrofloresta para geração de renda, estoque de carbono na região, saberes tradicionais e resgate materializado na juventude, que faz a conversa com o tradicional e os meios de comunicação e com os meios audiovisuais, preservando e divulgando todo esse conhecimento. Esse projeto é de sucesso e vai ser renovado. “Ele vai continuar por mais quatro anos, porque a gente tem todo um olhar muito especial para as populações tradicionais.”

Niterói (RJ), 27/10/2023 – Exposição Mekukradjá Obikàrà: com os pés em dois mundos no Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Niterói. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Niterói (RJ), 27/10/2023 – Exposição Mekukradjá Obikàrà: com os pés em dois mundos no Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Niterói. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil – Tomaz Silva/Agência Brasil

Programação

A programação de inauguração da exposição, com entrada franca, começa às 10h com a abertura do museu e entrada simbólica dos indígenas na mostra.

Às 10h30, começa a feira de artesanato, inclusive com pintura corporal, e realiza-se a plenária dos povos tradicionais em defesa de seus territórios e maretórios com participação de representantes dos povos indígenas, quilombolas e caiçaras do Pará, de Mato Grosso e do Rio de Janeiro. Na parte da tarde, às 17h, haverá apresentação de canto e dança, chamada de Metoro, que são as festas. Às 17h30, haverá apresentação do cacique Raoni e de outros líderes kaiapó sobre a história deste povo.

Entre as 18h e as 20h, está previsto um mapping (projeção) da arte kaiapó na fachada do prédio. A agenda termina com uma apresentação musical do Rapper Matsi.




Fonte: Agência Brasil