Governo autoriza uso da Força Nacional em terra indígena no Pará


O governo autorizou o uso da Força Nacional de Segurança Pública na Terra Indígena Apyterewa, no Pará. A portaria, assinada pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, foi publicada nesta quinta-feira (14) no Diário Oficial da União

De acordo com o texto, o emprego das tropas foi autorizado em apoio à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em atividades e serviços considerados imprescindíveis à preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, em caráter episódico e planejado, por 90 dias.

“A operação terá o apoio logístico do órgão demandante, que deverá dispor da infraestrutura necessária à Força Nacional de Segurança Pública.”




Fonte: Agência Brasil

Arqueóloga carioca é premiada por descoberta do Cais do Valongo


A arqueóloga carioca Tania Andrade Lima é a segunda mulher brasileira a receber o prêmio internacional Hypatia, concedido pela Confederação dos Centros Internacionais para a Conservação do Patrimônio Arquitetônico em homenagem aos que contribuem para o conhecimento científico em suas áreas de atuação.

Tania foi escolhida entre os dez cientistas homenageados este ano pela descoberta do Cais do Valongo em 2011. Situado na região portuária do Rio de Janeiro, no bairro da Saúde, pelo cais passaram de mais de 1 milhão de escravizados vindos da África.

A primeira mulher homenageada com o Hypatia Award foi a também arqueóloga Niède Guidon, em 2020, por seu trabalho na criação e conservação do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, sítio que foi reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em 1991. Já o Cais do Valongo foi reconhecido em 2017 como Patrimônio Mundial da Unesco.

Orgulho

O diretor do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), paleontólogo Alexander Kellner, disse à Agência Brasil que, apesar de ter se aposentado, Tania continua como pesquisadora vinculada à instituição. Para Kellner, o ponto principal do prêmio dado a Tania é o tremendo orgulho de ter uma cientista pesquisador da área de arqueologia reconhecida e, ainda, “de poder contar com uma pesquisadora do calibre dela. É um prêmio fantástico, muito importante”.

Para Kellner, o segundo ponto importante é o prêmio ter sido dado a uma mulher. “Olha que coisa bacana que a nossa instituição consegue dar, que são as condições de qualidade e de gênero. Estamos muito felizes e orgulhosos com esse reconhecimento, totalmente justo, da grande pesquisadora do Museu Nacional.”

Em texto publicado no último dia 11, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu os brasileiros vencedores do Prêmio Hypatia 2023 por intermédio da candidatura recebida pela Cicop.Net Confederation, cuja presidente nas Américas é a arquiteta e urbanista brasileira Maria Rita Amoroso. A entrega do prêmio será no dia 16/ de outubro, na abertura da 6ª Bienal de Restauro Arquitetônico e Urbano, em Florença, Itália.

Com carreira dedicada à arqueologia, Tania é pesquisadora sênior do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e professora aposentada do Departamento de Antropologia do Museu Nacional da UFRJ. Foi fundadora do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia da universidade, para o qual ainda hoje colabora, orientando teses e dissertações e ministrando disciplinas, informou o Iphan.

Foi ainda presidente e vice-presidente da Sociedade de Arqueologia Brasileira, integra o conselho editorial de revistas científicas no Brasil e em países da América do Sul e da Europa, além de já ter recebido outros prêmios, como a Comenda da Ordem do Mérito Cultural, concedida pelo presidente Luiz Inacio Lula da Silva, em 2006, e o Prêmio Globo Faz Diferença, na categoria “Rio”, em 2016.

Racismo

Tania disse que a grande premiada este ano foi a arqueologia, que nem sempre é valorizada pela capacidade de trazer à tona “verdades indesejáveis, dolorosas, que muitos desejam esquecer ou ignorar”. A pesquisadora afirmou que o Cais do Valongo denuncia a que ponto as pessoas são capazes de chegar no ódio e no desprezo por aqueles que são diferentes delas, ultrapassando todos os limites da intolerância e da perversidade humana.

O reconhecimento a obras como a do Cais do Valongo constitui demonstração vigorosa de que uma parte muito expressiva da humanidade rejeita essa ideologia, ajudando a deter o violento preconceito racial que vem se alastrando nos últimos anos, não só no Brasil, mas no mundo inteiro, destacou Tania. Para ela, o Prêmio Hypatia é um passo importante contra o racismo e em defesa dos que são humilhados pelo preconceito racial. “Daí minha mais que infinita gratidão por esse prêmio.”

Outro brasileiro agraciado com o Prêmio Hypatia neste ano foi o padre Júlio Lancellotti, por sua luta contra a arquitetura hostil que impede moradores de rua se abrigar em espaços públicos e pela sua defesa de projetos urbanísticos inclusivos.

Sítio arqueológico

Desde 21 de março de 2023, o Iphan coordena o Comitê Gestor do Sítio Arqueológico do Cais do Valongo. É a entidade responsável pelo estabelecimento de diretrizes e monitoramento da efetividade das ações de preservação e salvaguarda do bem. O comitê é composto por 15 instituições representativas da sociedade civil e 16 governamentais, nas esferas federal, estadual e municipal, informou a assessoria de imprensa do órgão.

Com cerca de 350 metros de comprimento, o o Cais do Valongo vai da Rua Coelho e Castro até a Rua Sacadura Cabral. Sua construção foi iniciada no fim do século 18 e ficou pronto em 1811. Como a região era desabitada na época e com acesso difícil, foi escolhida para sediar o porto de desembarque de escravizados. A área deixou de funcionar como ponto de entrada de escravizados por volta de 1831, quando leis contra a escravidão começaram a ser assinadas. Apesar disso, o tráfego continuou sendo feito à noite, embora de forma clandestina.

Entre os séculos 16 e 19, 10 milhões de africanos foram levados para o continente americano. Desse total, 40% vieram para o Brasil, o que significa cerca de 4 milhões de pessoas, das quais 60% (2,6 milhões) desembarcaram no Rio de Janeiro. Por isso, a região ficou conhecida como Pequena África. Os escravizados eram expostos nos mercados e vendidos. O destino dos que morriam logo após a longa viagem era o cemitério dos pretos novos. Com a reforma urbanística do Rio promovida pelo prefeito Pereira Passos, toda a estrutura do cais foi soterrada.

Em 2011, porém, durante escavações realizadas como parte das obras de revitalização da zona portuária da capital fluminense, foram descobertos os dois ancoradouros – Valongo e Imperatriz –, junto aos quais se encontraram grande quantidade de amuletos e objetos de culto, originários do Congo, de Angola e de Moçambique.




Fonte: Agência Brasil

TV quilombola ajuda comunidade a preservar memória de lutas


“Cuidado com meu pé, vocês não estão vendo que eu tô fazendo uma reportagem? Podem parar só um minutinho? Não vão cortar o meu pé.”

É com essa mistura de humor e franqueza que o repórter Raimundo Quilombo aborda os entrevistados nos arredores da igreja do Quilombo Rampa, em Vargem Grande, Maranhão, onde vivem cerca de 500 pessoas. O grupo capina o chão para os festejos de São Bartolomeu e entra no clima descontraído do repórter. Todos já estão acostumados com o estilo de cobertura da TV Quilombo, que desde 2017 acompanha o dia a dia da comunidade.

190 anos da imprensa negra: luta antirracista liga passado e presente. Foto: TV Quilombo/Divulgação

Raimundo Quilombo (foto) e o primo William Cardoso tiveram a ideia de criar um sistema de comunicação do Quilombo Rampa – TV Quilombo/Divulgação

Cansados de serem invisíveis para a mídia tradicional, Raimundo e o primo William Cardoso decidiram criar um sistema de comunicação local. Havia muitas histórias para contar. Desde as ancestrais, que remetem ao início do século 19, quando os quilombos eram centros de resistências de escravizados fugitivos, até os dias atuais, em que a população local enfrenta novos desafios de acesso aos serviços públicos.

No dia em que se comemoram os 190 anos de surgimento da imprensa negra no Brasil, é preciso lembrar também de outras formas de comunicação que ajudam a preservar a memória e divulgar as lutas do povo negro.

“A cobertura que a grande mídia ainda faz referentes aos quilombos e à população preta em geral ainda é muito defasada, não mostra o que a gente realmente é. Ainda temos muito o que avançar. Por isso, a importância de criar veículos como a TV Quilombo, a partir da visão da comunidade. Porque ninguém melhor do que contar a tua própria história do que tu mesmo. Então, quando tem essa narrativa do outro sobre a tua realidade, ou vai sair de forma errada ou de forma incompleta”, explica Raimundo.

Criatividade e improvisação

No começo de tudo, Raimundo e William não tinham equipamentos para gravar as coberturas que faziam no quilombo. Nada de celular, computador, microfone ou câmera de vídeo. Nas palavras deles, o que tinha era só a força de vontade mesmo. Era usar a imaginação e a criatividade para interagir com as pessoas. Quando conseguiram o primeiro celular, ele foi adaptado a uma câmera de papelão.

190 anos da imprensa negra: luta antirracista liga passado e presente. Foto: TV Quilombo/Divulgação

“Bambu drone” usado pela equipe da TV Quilombo – TV Quilombo/Divulgação

Vieram outros materiais improvisados e ancestrais da comunidade. Microfones de graveto, que, mesmo sem captar áudio, davam mais credibilidade às entrevistas. O bambu foi usado para construir um tripé para a câmera e o “bambu drone”, uma vara de 10 metros em que o celular é amarrado com cipó. Os recursos ajudaram tanto a estabilizar a imagem quanto a gravar eventos por uma perspectiva do alto.

“Esses materiais modernos é que têm que se adaptar à nossa realidade e não o contrário. E, quando você inverte a lógica, indica que a maior tecnologia sempre foi e sempre será a ancestral. Porque é a única comunicação que não falha. A gente coloca os materiais ancestrais no meio da TV como uma forma das pessoas mais velhas olharem e se sentirem representadas”, diz Raimundo.

190 anos da imprensa negra: luta antirracista liga passado e presente. Foto: TV Quilombo/Divulgação

Cerca de 500 pessoas vivem no Quilombo Rampa, em Vargem Grande (MA) – TV Quilombo/Divulgação

Essa escolha ajudou a quebrar a resistência da comunidade, que no começo olhava desconfiada para a iniciativa dos jovens. Com o tempo, as pessoas passaram a chamá-los para fazer as coberturas e registrar os eventos. Mais um sinal de sucesso da iniciativa é que a equipe aumentou de dois para 40 jovens. Eles trabalham tanto na TV, quanto na Rádio Quilombo e nas redes sociais.

Formação profissional

Na equipe da TV Quilombo, não há jornalistas profissionais, com diploma universitário. A possibilidade de estudar e ter esse tipo de formação está no horizonte, até para que o trabalho continue crescendo e surjam outras oportunidades de trabalho. A maior limitação nesse momento é ausência de determinadas instituições e serviços na região. Enquanto não podem contar com uma universidade mais acessível, os comunicadores do quilombo recorrem aos aprendizados ancestrais.

“Não temos uma formação acadêmica de jornalistas. Mas temos nossa formação de comunicadores populares, a partir da nossa realidade e território. Uma comunicação que a gente já nasce com ela. As comunidades mantêm viva a questão da oralidade e da passagem de saberes de uma geração para a outra. Tudo a gente aprendeu de forma autônoma a partir da necessidade, tentando romper com essas barreiras também”, conta Raimundo.

190 anos da imprensa negra: luta antirracista liga passado e presente. Foto: TV Quilombo/Divulgação

Criatividade é uma das marcas da equipe da TV Quilombo  – TV Quilombo/Divulgação

O grupo não usa uma linguagem técnica, nem tem um manual de redação. O estilo de comunicação vai se desenvolvendo junto com a comunidade, no próprio processo de construção das reportagens. Isso ajuda a criar uma identificação maior com a TV e até a inspirar outros quilombos, que chamam a equipe para participar de coberturas, festas e entrevistas com anciãos locais. Recentemente, a equipe da TV Quilombo também teve a oportunidade de ir além do estado, cobrindo a Marcha das Margaridas em Brasília. Lá, além do evento, participou de um encontro para falar sobre racismo ambiental e trazer experiências da relação da comunidade com a natureza.

Para aperfeiçoar o trabalho que vem sendo feito, os jovens pedem doações via Pix no site oficial. No momento, não contam com nenhum tipo de patrocínio ou apoio mais consistente. Mas isso não impede que mantenham a missão de documentar, preservar e divulgar a cultura quilombola.

“É muito difícil as pessoas apoiarem esse tipo de projeto que denuncia racismo, violação de direitos, racismo ambiental e todas as formas de preconceito que existem contra comunidades quilombolas. Se fosse depender de ajuda financeira, o projeto nem tinha nascido. Nesse mundo moderno, para ter equipamento e internet melhores, temos nossos desafios. Ainda mais quando não temos acesso a políticas públicas de financiamento”, analisa Raimundo. “O mais importante é que a gente vem crescendo sem mudar o nosso jeito de fazer comunicação popular.”




Fonte: Agência Brasil

Jornalistas negros desafiam abordagens racistas da mídia tradicional


Durante o século 19, uma parte da população negra entendeu que a imprensa poderia ser uma ferramenta de luta contra a discriminação racial. Foram criados canais específicos para comunicar lutas e demandas da época. Quase dois séculos depois, faz sentido continuar existindo uma imprensa negra? O número expressivo de veículos que atualmente se identificam e se apresentam a partir dessa categoria são respostas contundentes à pergunta.

Comunicadores negros têm reivindicado cada vez mais um lugar de protagonismo e reforçado a necessidade de abordar os problemas sociais do país a partir das estruturas raciais que os sustentam. A imprensa tradicional é criticada por não responder satisfatoriamente a essas demandas. Do ponto de vista do conteúdo, pessoas brancas e negras são tratadas de formas diferentes nas matérias. Quando se analisam os sujeitos que produzem as informações, profissionais negros ainda são minoria nas redações. E, quando estão lá, raramente ocupam postos de decisão.

Exemplos da imprensa negra no século 21 não faltam, como o Portal Geledés, o História Preta, o Afropress, o Atlântico Negro, a Revista Afirmativa, o Nossos passos vêm de longe e a Cultne.TV. Para entender um pouco da perspectiva e dos objetivos dessas mídias mais recentes, a Agência Brasil entrevistou os fundadores de dois sites, criados há menos de dez anos, engajados em uma comunicação antirracista: o Alma Preta e o Notícia Preta.

O primeiro surgiu em 2015, a partir de um coletivo de estudantes negros da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e é comandado pelo jornalista Pedro Borges. O segundo foi lançado em 2018 pela jornalista Thais Bernardes. Ela já tinha experiência em outras empresas de mídia tradicionais e decidiu investir em um projeto editorial de combate às desigualdades.

Nesta quinta-feira (14), comemoram-se os 190 anos do primeiro jornal da imprensa negra no Brasil: O Mulato ou O Homem de Côr, criado no dia 14 de setembro de 1833.

Imprensa negra x imprensa branca

Existem diferenças bem demarcadas entre a imprensa negra e as mídias tidas como mais generalistas? Para o cofundador e diretor do Alma Preta, Pedro Borges, a discussão parte dos próprios princípios de segmentação e universalidade.

190 anos da imprensa negra: luta antirracista liga passado e presente. Foto: Alma Preta

Pedro Borges (à direita), ao lado de parte da equipe do site Alma Preta – Alma Preta

“Quando é preto, é considerado segmentado. Mas quem disse que a grande mídia é universal e não é segmentada? É muito pouco enquadrar veículos como o nosso em uma categoria de jornalismo de nicho. Nós utilizamos as mesmas técnicas jornalísticas que outros colegas de profissão. Mas o sujeito branco e masculino se vê no lugar da universalidade. E identifica o outro com um sujeito racializado e segmentado. Esses grandes canais de comunicação privilegiam o diálogo com uma classe média e com uma elite branca. Então, eles não são segmentados?”, questiona Pedro.

A diferença, nesse sentido, não estaria na escolha dos temas e acontecimentos a serem cobertos pelos jornalistas, mas na perspectiva que se adota em relação a eles. Borges enfatiza que o Alma Preta tem um olhar de destaque para grupos de periferias e o desejo de comunicar para transformar a realidade.

“Entendo que a mídia negra hoje também tem reivindicado um lugar de universalidade. A nossa cobertura está longe de ser recortada em casos de discriminação racial. Fazemos uma cobertura de agendas que são centrais do Brasil. E o racismo é um elemento que estrutura a sociedade brasileira. Desigualdade de moradia, saúde, segurança pública, alimentação, ambiental: todas elas têm como pano de fundo a desigualdade racial. Logo, cabe à imprensa negra cobrir todos esses assuntos”, diz Pedro Borges.

A notícia e o negro

Segundo Thais Bernardes, diretora e fundadora do Notícia Preta, a mídia tradicional sempre esteve alinhada aos interesses de uma elite política e econômica branca. Por isso, reforça e dissemina o racismo ao cobrir os fatos do dia a dia, principalmente quando sujeitos negros estão no foco da notícia.

“Historicamente, em que lugar aparecia o negro no jornal do século 19? Ele estava no lugar do ‘procura-se negro fujão’ ou ‘vende-se uma escrava’. Hoje esse lugar é o da editoria geral. O que mudou sobre os nossos corpos sendo vendidos no início do século 19 e os nossos corpos desumanizados nos anos atuais? Se você acessar os jornais, as pessoas estão ali como pessoas à margem da sociedade. Existe capa de jornal nos anos 2000 com pessoas negras amarradas em poste”, diz Thais Bernardes.

190 anos da imprensa negra: luta antirracista liga passado e presente. Foto: Notícia Preta

 Para Thais Bernardes, a mídia tradicional reforça o racismo na cobertura de fatos do dia a dia – Notícia Preta

“Quando há uma operação dentro de uma favela, a mídia tradicional sempre vai começar com ‘segundo a polícia, essa operação foi feita para combater tal coisa’. Ela vai partir sempre do lado institucional. Nós partimos do lado do morador. De quem é atingido por aquilo. Podemos falar das consequências da operação policial: das crianças que ficaram sem aula e dos postos de saúde fechados. Fazer um jornalismo antirracista é entender para quem estamos falando, é fazer uma comunicação não violenta. Isso é que define o lead, a parte principal da notícia”, complementa Thais.

Mercado de trabalho

Movimentos recentes passam a impressão de que mais empresas de comunicação têm se preocupado em responder às demandas sociais por maior diversidade racial em seus quadros. Seja por meio de processos seletivos para a contratação de pessoas negras ou, no caso de meios que trabalham com vídeo, colocar mais rostos negros nas telas. Mas, para Thais e Pedro, essas ações ainda são insuficientes.

“Eu não quero representatividade. Eu quero equidade. Porque a representatividade significa ter uma pessoa ali e, pronto, o grupo todo está representado? Será que há pessoas negras entre diretores e editores? Ou elas ficam apenas na reportagem e na frente da televisão? O que mudamos na estrutura se não ocuparmos lugares de poder e tomada de decisão? Enquanto isso não acontecer, a gente tem aí a síndrome do preto único, que justifica um discurso de que a empresa é diversa”, analisa Thais.

Canais de imprensa voltados para a produção de conteúdos antirracistas acabam sendo espaços mais receptivos para os profissionais negros e permitem que eles ocupem outras posições para além da subalternidade.

“Temos uma necessidade objetiva e cotidiana no Brasil de a população negra se organizar para ter um espaço em que possa falar e ser ouvida. Até os dias de hoje, a gente pode identificar uma gigantesca discrepância racial nas redações brasileiras. Ainda temos uma imprensa brasileira que, no corpo geral, é majoritariamente branca. E na direção, é mais raro ainda encontrar alguém negro. Isso acontece em casos excepcionais. Os únicos locais onde isso acontece com frequência são os canais da mídia negra”, diz Pedro Borges.

Manual de jornalismo antirracista

No início de agosto, o Alma Preta lançou um manual de redação antirracista. Ele traz um conjunto de princípios que devem nortear o trabalho jornalístico, a partir das experiências editorias do portal. A ideia é que ele seja lido e sirva de reflexão para comunicadores em geral, independentemente de estarem ligados aos veículos da imprensa negra.

190 anos da imprensa negra: luta antirracista liga passado e presente. Foto: Alma Preta

Pedro Borges diz que a mídia negra cobre agendas que são centrais para o país  – Alma Preta

“Em uma cobertura, você tem uma diversidade de pontos, de olhares, de palcos. É preciso respeitar as pessoas que foram vitimadas em determinados processos. Seja desde uma pessoa que foi alvo de uma ação policial, alguém despachado por uma reintegração de posse, ou vítima de grilagem e violência. Muitas vezes o jornalismo se limita a ouvir a fonte oficial e, quando escuta outras pessoas, vira uma nota de rodapé. Nosso trabalho não pode ser um release de segurança pública. Precisamos ouvir e checar todos os lados da história”, diz Pedro Borges.

Escola de Comunicação Antirracista

No fim de agosto, o Notícia Preta lançou a Escola de Comunicação Antirracista, com o objetivo de ir além da divulgação de notícias. A proposta é combater o racismo também por meio da educação. O público-alvo são os comunicadores que desejam conhecer ou aprofundar um trabalho antirracista. Entre os cursos oferecidos, destaque para Assessoria de Imprensa, Semiótica e Racismo, e História da Imprensa Negra no Brasil. A escola oferece cursos no formato online, mas também tem opções profissionalizantes presenciais, por meio de uma parceria com o Senac Rio.

“Não tem outra forma de você ser uma pessoa antirracista que não seja aprendendo e estudando. Criamos essa escola para que todos possam ter acesso a esse conhecimento. Sejam jornalistas ou outras pessoas interessadas em aprender”, disse Thais.

“O jornalismo é uma ferramenta de educação e de transformação social. Quando uma pessoa lê uma matéria, está aprendendo algo. E ser um jornalista antirracista não é só ser negro. Todo mundo deve ser antirracista.”

Legados e continuidades

Durante os estudos no Brasil e na Europa, Thais não teve aulas sobre imprensa negra nos cursos de jornalismo. Ela defende que é fundamental resgatar essa história e apresentá-la para os que trabalham hoje com comunicação. Nesse sentido, conhecer mais dos 190 anos de lutas e iniciativas da imprensa negra ajuda a situar o próprio presente. A profissão ganha contornos e missões ainda maiores.

“É fundamental para o comunicador entender que os nossos passos vêm de longe. Às vezes, as pessoas me dizem que o meu trabalho é pioneiro. Não! O jornalismo que eu faço é o jornalismo do Homem de Cor, do Mulato, do Abdias Nascimento, que fez comunicação antirracista há muito tempo. O que eu faço é uma continuidade do que os meus antepassados fizeram. E espero honrar minimamente esse caminho que eles traçaram para gente poder estar aqui”, reflete Thais Bernardes.




Fonte: Agência Brasil

Imprensa negra: 190 anos de luta antirracista ligam passado e presente


“Criminoso seria o homem de cor, se na crise mais arriscada, na ocasião em que os agentes do Poder desembainham as espadas dando profundos golpes na Constituição, na Liberdade (…) guardasse mudo silêncio, filho da coação, ou do terror.”

O texto acima está em uma das edições do primeiro jornal da imprensa negra no Brasil: O Mulato ou O Homem de Côr, criado há exatos 190 anos, no dia 14 de setembro de 1833. A mensagem é representativa de uma missão que une comunicadores negros do passado e do presente: a de não se calar diante da intimidação, da violação de direitos e de ameaças à liberdade.

Naquele contexto, o periódico denunciava a prisão arbitrária de um homem negro, Maurício José de Lafuente, acusado de vadiagem e de porte ilegal de arma. O que foi prontamente rebatido por uma série de provas. Se avançarmos para os dias atuais, há uma clara continuidade. Movimentos sociais e pesquisadores têm denunciado incessantemente as abordagens policiais racistas e a criminalização sistemática de negros: o grupo responde por 68% dos que estão hoje em presídios no país, segundo o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Entre as diferentes formas de enfrentamento do racismo, o jornalismo vem sendo, de acordo com especialistas ouvidos pela Agência Brasil, uma ferramenta importante de denúncia, debate e reflexão durante quase dois séculos. Diversas vozes e canais de comunicação têm oferecido alternativas aos discursos dominantes de exclusão e desigualdade.

“Desde o início até agora, os veículos da imprensa negra têm em comum esse sentimento de não se sentirem representados e contemplados da maneira correta pela mídia hegemônica empresarial. Eles trazem narrativas importantes de autorreferência, já que são feitos por pessoas negras”, diz Jonas Pinheiro, jornalista na Revista Afirmativa.

“Quando as pessoas contam as próprias histórias, trazem determinadas sensibilidades e perspectivas que são negligenciadas pela grande mídia empresarial, que na maioria das vezes é racista”, completa Pinheiro, pesquisador na área de comunicação e cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Homem de Côr: o início

Os primeiros capítulos da imprensa negra no Brasil podem ser contados a partir da trajetória de Francisco de Paula Brito, um homem negro que nasceu em 1809 no Rio de Janeiro. Quando jovem, aprendeu a arte gráfica na Tipografia Imperial e Nacional, ex-Impressão Régia, e seguiu carreira em outros empreendimentos como compositor, diretor das prensas, redator, tradutor e contista.

Francisco de Paula Brito é reconhecido por dois feitos históricos: ter sido o primeiro editor de Machado de Assis, maior nome da literatura brasileira, e o editor do pasquim O Homem de Côr, primeiro periódico da imprensa negra no país. Impresso na Tipografia Fluminense de Paula Brito, do qual era proprietário, o jornal teve apenas cinco edições, mas abriu as portas para todos os que viriam depois.

A partir do terceiro número, o nome foi mudado para O Mulato ou O Homem de Côr. A escravidão, ainda em vigor no país, não foi tema do jornal, que estava mais focado em denunciar a discriminação racial contra pessoas negras livres. Durante o ano de 1833, uma das principais bandeiras foi a de atacar as dificuldades impostas aos negros para conseguir cargos públicos civis, políticos e militares. Ainda no mesmo ano, entre setembro e novembro, outros periódicos desse segmento surgiriam inspirados pelo pioneiro: Brasileiro Pardo, O Cabrito, O Crioulinho e O Lafuente.

Demorariam 43 anos até que uma nova manifestação da imprensa negra surgisse. Foi apenas em 1876, no Recife, que começou a circular o jornal O Homem. Pouco depois será a vez de São Paulo, com A Pátria e O Progresso, ambos em 1899, e de Porto Alegre, com O Exemplo, de 1892. O periódico gaúcho teria a maior duração até ali da imprensa negra, sendo encerrado em 1930, por problemas financeiros.

Rio de Janeiro (RJ), 16/03/2023 – A diretora-geral do Arquivo Nacional, Ana Flávia Magalhães Pinto concede entrevista à Agência Brasil. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto apresentou dissertação sobre a imprensa negra do século 19 – Tomaz Silva/Agência Brasil

Na dissertação sobre imprensa negra do século 19, a historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto apresenta uma definição do que caracterizaria esses tipos de veículos: são “jornais feitos por negros; para negros; veiculando assuntos de interesse das populações negras”. Em comum também a postura de desafiar as tentativas de silenciamento.

“Esses momentos iniciais da imprensa negra no Brasil demonstram que, a despeito de inúmeros contratempos – entre os quais o próprio escravismo e seus instrumentos afins –, negros aqui formularam uma fala própria e tornaram-na pública. Ainda que não tenham alcançado simultaneamente todo o território nacional, esses impressos são parte do esforço coletivo de controlar os códigos da dominação e subvertê-los”, diz o trecho da dissertação de Ana Flávia. Atualmente, ela ocupa o cargo de diretora-geral do Arquivo Nacional.

Século 20

Ao longo do século 20, o número de veículos da imprensa negra se multiplicou. No Rio Grande do Sul, surge o A Alvorada, publicado entre 1907 e 1965, com interrupções. Depois A Tesoura (1924), A Revolta (1925) e O Tagarela (1929). Em Minas Gerais, circulam A Verdade (1904) e o Raça (1935). Em São Paulo, O Menelick (1915), O Xauter (1916), A Rua (1916), O Bandeirante (1918), O Alfinete (1918), A Liberdade (1919), A Sentinela (1920), Kosmos (1922), Clarim d’Alvorada (1924), Elite (1924), Progresso (1928) e A Voz da Raça (1933). Esse último era publicado pela Frente Negra Brasileira (1931-1937), principal organização negra do país no período.

Mais para a frente viriam O Novo Horizonte (1946), Mundo Novo (1950), Nosso Jornal (1951), Notícias de Ébano (1957), O Mutirão (1958), além das revistas Senzala (1946) e Níger (1960). No Rio de Janeiro, destaque para A Voz da Negritude (1953).

190 anos da imprensa negra: luta antirracista liga passado e presente. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

 Jornal gaúcho O Exemplo foi um dos que deixaram de circular por problemas financeiros – Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

A maioria das publicações teve vida curta. Em alguns casos, durando poucas edições e não indo além do primeiro ano de vida. O historiador João Paulo Lopes explica que é preciso levar em conta o contexto social daqueles que produziam e liam os periódicos.

“Os custos para publicar um jornal eram altos. Geralmente, o pagamento se dava por meio de rateio entre os editores e os ativistas, se o jornal tivesse vínculo com alguma associação do movimento negro. Outros conseguiam verba com publicidade, o que ajudava a custear a publicação por um tempo maior. E outros dependiam de assinaturas. E quando os leitores eram afetados por crises econômicas, podiam deixar de pagar pelas publicações, o que afetava a circulação. Mas nem tudo era só financeiro. De tempos em tempos, essas publicações sofriam ataques, eram empasteladas em momentos de crise política e ditaduras”, explica o historiador João Paulo Lopes.

190 anos da imprensa negra: luta antirracista liga passado e presente. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

Edição do jornal Quilombo, liderado por Abdias Nascimento – Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

Vale mencionar especialmente o caso do jornal Quilombo, liderado por Abdias Nascimento: político, artista, ativista e criador do movimento cultural Teatro Experimental do Negro (TEN). O Quilombo teve dez edições entre dezembro de 1948 e julho de 1950. E adotou agenda política marcante contra “a piedade e o filantropismo aviltantes” em relação à população negra, além de reforçar a importância de uma luta ativa contra o racismo no país.

Com o fim da ditadura, se destacariam jornais fundados por pessoas que passaram pelo Movimento Negro Unificado (MNU), fundado em 1978, tendo como pautas centrais a desconstrução do “mito da democracia racial” e a denúncia do racismo estrutural. Alguns exemplos são o Tição (1977), o Objetivo (1977), Jornegro (1977), Negrice (1977), O Saci (1978), Vissungo (1979), Pixaim (1979), a Voz do Negro (1984), o Áfricas Gerais (1995), Elêmi (1985), o Irohin (1996) e a revista Raça, de circulação nacional (1996).

“O que existe em uma marca comum, que conecta os jornais desde o Homem de Côr, é a discriminação e o preconceito. Claro, com diferenças de contexto histórico. No século 19, vivemos ainda no seio de uma sociedade escravocrata, e as publicações estão levantando questões do homem negro não escravizado nos primeiros anos do país independente”, diz Lopes.

“Com a abolição, a luta é contra o racismo estrutural, desdobrado nas mais diversas formas, frentes e caras. Nas instituições, na polícia, no mercado de trabalho, nas escolas, no campo, no acesso à terra”, acrescenta o historiador.

Passado e futuro

Nesse conjunto de periódicos históricos, um em especial prepara edição comemorativa para resgatar debates do passado e repensá-los a luz dos problemas atuais: A revista Tição, de Porto Alegre, que originalmente circulou em 1977. Com artigos de jornalistas, sociólogos e professores, o projeto pretende confrontar os diferentes contextos e analisar em que pontos houve avanços ou retrocessos nos desafios enfrentados pela população negra no país.

Jeanice Dias Ramos, que participou do Tição na década de 1970, é uma das pessoas que lideram o projeto atual, que depende de apoio financeiro para ser finalizado. Mas, assim como aconteceu antes, ela acredita que a importância do tema há de mobilizar diferentes pessoas em torno da revista.

190 anos da imprensa negra: luta antirracista liga passado e presente. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

 Revista Tição, de Porto Alegre, que circulou na década de 1970 – Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

“Naquela época, com todas as dificuldades, era incrível o número de pessoas que queriam participar do Tição. As reuniões de pauta tinham até 70 pessoas. Eram praticamente assembleias ou plenárias. Não era só discussão entre jornalistas, era uma comunidade toda querendo participar”, relembra Jeanice.

“E, se você observar as pautas daquele período, elas continuam novas. Falam de questões até hoje não resolvidas dentro da negritude. Todos os tópicos foram aprofundados na revista e os problemas são muito atuais.”

Por essa continuidade histórica de lutas e demandas, Jeanice entende que os veículos da imprensa negra vão continuar sendo canais de expressão e denúncia fundamentais no país.

“A mídia negra dá condições para que a comunidade negra se aproprie dos seus próprios problemas. Que consiga visualizar e superar os desafios que são inerentes aos negros. São questões sociais e básicas de sobrevivência. Somos majoritariamente pobres. E temos que lutar diariamente pelo pão, pela condução, pelo trabalho. Não temos uma vida fácil. Falta o viver bem para a comunidade negra. Quando um negro adolescente sai de casa, a mãe fica em pânico. Será que essa criança volta para casa? Essa é a nossa realidade.”




Fonte: Agência Brasil

Roberto Jefferson irá a júri popular por atirar em policiais


A juíza federal Abby Ilharco Magalhães, da 1a. Vara Federal de Três Rios, decidiu que o ex-deputado federal Roberto Jefferson irá a júri popular. Ele é acusado de tentativa de homicídio contra quatro policiais federais que foram cumprir mandado de prisão em Comendador Levy Gasparian, interior do Rio de Janeiro, residência do ex-parlamentar, no dia 23 de outubro do ano passado.

Jefferson reagiu à ordem de prisão e, do segundo andar da casa onde mora, com visão privilegiada, atirou contra os agentes federais. Ele usou uma carabina e atirou granadas contra o carro dos agentes, destruindo parte do carro oficial da PF.

No confronto com a Polícia Federal, o delegado Marcelo André Côrtes Villela e a agente Karina Lino Miranda de Oliveira ficaram feridos por estilhaços de uma granada lançada por Jefferson. Os dois foram levados para o hospital.

A magistrada manteve a prisão preventiva de Jefferson. Atualmente, ele está internado no Hospital Samaritano, em Botafogo, zona sul do Rio, em decisão autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, devido ao seu estado de saúde.

Na decisão, a juíza Abby Magalhães manteve a prisão preventiva do acusado. A defesa pedia a conversão em prisão domiciliar. “Como já restou consignado, tanto a materialidade delitiva quanto a autoria atribuída ao réu encontram-se suficientemente delineadas e não há novos elementos de convicção ou alteração fática, capazes de modificar a conclusão pela concreta necessidade de manutenção da prisão preventiva do réu com vistas à manutenção da garantia da ordem pública”, escreveu a magistrada.

Em outro trecho da decisão, a magistrada escreveu: “com fundamento no artigo 413 do Código de Processo Penal, pronuncio o acusado Roberto Jefferson, a fim de que seja submetido a julgamento em plenário do Tribunal do Juri”.

Na denúncia do Ministério Público Federal (MPF), “a utilização de três granadas adulteradas, conjugada com a realização de aproximadamente 60 disparos de carabina na direção dos policiais, que se encontravam em plena via pública resultou óbvio perigo comum”.

O ministro Alexandre de Moraes tinha determinado a nova detenção de Jefferson, que já se encontrava em prisão domiciliar, após atacar verbalmente, com palavras de baixo calão, a ministra do STF, Cármen Lúcia.




Fonte: Agência Brasil

Petrobras quer explorar energia eólica em áreas marítimas


A Petrobras anunciou nesta quarta-feira (13) que protocolou o pedido de licenciamento ambiental para dez áreas marítimas no Brasil onde devem ser instaladas estruturas de energia eólica offshore – obtida através da força do vento em alto-mar. Esse pedido foi protocolado no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Com isso, a Petrobras passará a ser a empresa com maior potencial de geração de energia eólica offshore no Brasil. Mais cedo, a empresa já havia anunciado uma parceria com a WEG para o desenvolvimento de um aerogerador de 7 megawatts de capacidade instalada.

“A Petrobras assume hoje o papel de maior desenvolvedora de projetos de energia eólica do Brasil. Energia eólica: a Petrobras chegou! E chegou chegando”, disse Jean Paul Prates, presidente da empresa, durante a WindPower, evento que foi realizado nesta quarta-feira na São Paulo Expo, na capital paulista.

Essas dez áreas marítimas, segundo Prates, teriam capacidade total de 23 GW (gigawatts) e estão localizadas na região Nordeste, Sudeste e Sul. Seriam três áreas no Rio Grande do Norte, três no Ceará, além de áreas no Maranhão, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Rio Grande do Sul.

De acordo com a Petrobras, a área escolhida no estado do Rio de Janeiro apresenta um diferencial entre as demais porque é a única posicionada em profundidade d’água maior que 100 metros, na qual não será possível utilizar fundações fixas, cravadas diretamente no solo marinho. Para esse caso, as instalações terão que ser flutuantes, tecnologia que vem sendo desenvolvida pela companhia em parceria com a Universidade de São Paulo (USP).

A empresa informou ainda que o pedido de início de licenciamento é uma sinalização de interesse da Petrobras para o desenvolvimento de projetos próprios, além de projetos em parceria, como o que está sendo desenvolvido com a Equinor.

“A Petrobras chegou na área de éolica e veio para ficar e transformar o Brasil”, disse Maurício Tolmasquim, diretor de Transição Energética e Sustentabilidade da Petrobras.

Regulamentação

A solicitação junto ao Ibama não vai garantir o direito sobre as áreas, explicou o presidente da empresa. “No mar, havia um problema e é por isso que não começamos ainda a trabalhar nele. Ninguém pode chegar lá no meio do mar, meter um aerogerador e sair produzindo energia. O mar não é privado”.

É por isso que tramita atualmente no Congresso Nacional uma discussão sobre a regulação deste mercado. A Petrobras só conseguirá ter direito a essas áreas solicitadas após essa regulamentação. “A lei prevê dois tipos de outorga: autorização ou concessão. E aí o Estado brasileiro deve decidir se vai usar concessões ou autorizações. Eu espero que até o final deste ano, nós tenhamos essa aprovação”, disse o presidente da Petrobras.




Fonte: Agência Brasil

Justiça interroga policiais envolvidos na morte de adolescente em 2020


A juíza Juliana Grillo El-Jaick, da 4ª Vara Criminal de São Gonçalo, interrogou, nesta quarta-feira (13), os três policiais civis acusados pela morte do adolescente João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos. João Pedro foi baleado com um tiro de fuzil no dia 18 de maio de 2020, durante uma operação conjunta das polícias Civil e Federal no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo.

João brincava em casa com amigos quando, segundo familiares, policiais entraram atirando. O menino foi atingido por um disparo de fuzil na barriga e socorrido de helicóptero, mas não resistiu ao ferimento. Lotados na Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), os três foram denunciados pelo crime de homicídio qualificado e fraude processual.

Com a conclusão dos interrogatórios, a juíza encerrou a fase de instrução criminal e acolheu o pedido da defesa dos réus, estipulando prazo de cinco dias para o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro apresentar os nomes e qualificação técnica dos peritos responsáveis pelo laudo pericial elaborado pelo Ministério Público estadual. Também foi deferido o pedido da defesa para revogação das medidas cautelares impostas aos réus.

A partir de agora, o processo seguirá para a fase de apresentação de alegações finais pela promotoria de Justiça, assistente de acusação e defesa. Cada uma das partes terá um prazo de 10 dias para se manifestar, nesta ordem. Ao término dessa fase, o juízo decidirá se os réus serão levados a júri popular.




Fonte: Agência Brasil

MMA abre consulta para plano de prevenção a desmatamento no Cerrado


Baru, cajuzinho do cerrado, pequi, mangaba, guabiroba, cagaita, buriti, araticum e murici, entre outros são frutos abundantes no Cerrado. Na fauna deste bioma, um dos animais mais simbólicos é o lobo-guará. Outros bichos representam também a biodiversidade dos que habitam os campos e as florestas com vegetação tipicamente composta por árvores com troncos retorcidos e grossos. No Cerrado, é possível encontrar ainda carcarás, tatus-canastra, veados-mateiros, raposas-do-campo, tucanos, araras, maritacas, seriemas, tamanduás-bandeira e até onças pintadas.  

O bioma é apelidado de “berço das águas” por abrigar as nascentes de três bacias hidrográficas do continente: as dos rios Araguaia, São Francisco e da Prata.

Para preservar este bioma, que é o segundo maior do Brasil e da América do Sul, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) lançou, nesta quarta-feira (13), a consulta pública do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Bioma Cerrado (PP Cerrado), até 12 de outubro.

De acordo com o MMA, os quatro eixos estratégicos do PP Cerrado apresentam 12 objetivos estratégicos e 37 resultados esperados. Para alcançá-los, há 78 linhas de ação, que incluem a elaboração e implementação de programas e ações de apoio à bioeconomia, fortalecimento da fiscalização e destinação de terras públicas para proteção, conservação e uso sustentável dos recursos naturais.

No lançamento do mecanismo de participação social, durante audiência da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, disse que a meta de desmatamento zero até 2030 no Brasil esbarra na atual legislação ambiental, que mantém a área com cobertura de vegetação nativa, a título de reserva legal, no Cerrado, em apenas 20% do território. Para Marina, é preciso buscar alternativas que promovam o desenvolvimento sustentável, mesmo com o atual Código Florestal Brasileiro.

“Há o direito legal de desmatar nos biomas o percentual estabelecido por lei. No caso do Cerrado, que é 20% só de área preservada, eu diria que não há convergência entre a ciência. Porque a gente legisla, mas a natureza não assimila. E a natureza não está assimilando o que nós legislamos, até agora, para o cerrado”, declarou a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva.

Marina Silva defendeu o trabalho integrado dos governos federal, estaduais e municipais para diminuir o desmatamento no Cerrado, como já ocorreu na Amazônia, com o plano de ação para prevenção e controle dessa prática na região, e na Mata Atlântica, onde o desmatamento caiu 40%, mesmo sem plano específico de restauração da vegetação deste bioma.

“O Cerrado ainda é o grande desafio. E nós não queremos nenhum tipo de maquiagem em relação aos problemas. Fazer política pública com base em evidência é assumir o que diz a ciência. Ter coragem de mostrar os dados de forma transparente cria aquilo que se chama de constrangimento ético para empresas, para governos, para todo mundo. E o esforço que nós estamos fazendo é por um alinhamento político, ético, para proteger o Cerrado, sem nenhum tipo de maquiagem.”

Para a secretária especial adjunta de Articulação e Monitoramento da Casa Civil, Julia Alves Marinho Rodrigues, a questão do desmatamento é tratada de forma transversal pelo governo federal desde a recriação da Comissão Interministerial Permanente de Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas, em janeiro deste ano. “Essa comissão é trabalhada em conjunto pela Casa Civil, pelo ministro Rui [Costa], junto com o Ministério do Meio Ambiente, com a ministra Marina e outros. E esse arranjo tem um propósito: o tema no meio ambiente não ser só do ministério, ser transversal a todo o governo.”

Participação social

Na audiência pública, a cientista do Cerrado e professora da Universidade de Brasília (UnB) Mercedes Bustamante expôs um estudo sobre o bioma, que perde sua vegetação nativa cinco vezes mais rápido que a Amazônia. Ela apontou a atividade agropecuária na região do Matopiba (formada por áreas de cerrado nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) como responsável pelos impactos negativos ao bioma, às mudanças climáticas e à saúde dos trabalhadores rurais.

“As temperaturas médias na nossa região já aumentaram mais do que as temperaturas médias globais e vão continuar aumentando. Nossas chuvas de verão vão tender a entrar com atraso, no século 21. A gente já está percebendo o atraso no período chuvoso. E essa combinação de aumento da seca e de alta temperatura resulta em um clima que é propício à propagação de grandes incêndios florestais”, concluiu a pesquisadora.

Outro convidado da sessão, o engenheiro florestal e coordenador da Rede Cerrado, Pedro Bruzzi, defendeu a construção de soluções coletivas pelos governos para o controle do desmatamento, baseadas em informações oficiais como as do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e sobre a situação do licenciamento ambiental das propriedades rurais. “Estamos perdendo biodiversidade, água, solos agricultáveis. O que está em jogo? Nossa segurança alimentar, nossa segurança hídrica, nossa segurança energética. Então, enquanto sociedade, não podemos ficar assistindo a essa tragédia do Cerrado brasileiro.”

A organização social Rede Cerrado representa populações que vivem nesse bioma, como indígenas, quilombolas, agricultores familiares, quebradeiras de coco babaçu, pescadores artesanais, extrativistas, veredeiros e apanhadores de flores sempre-vivas, entre outros.

O diretor da Coalizão Brasil – Clima, Florestas e Agricultura, Fernando Sampaio, ressaltou a necessidade de conciliar as agendas de desenvolvimento sustentável entre o poder público, as empresas do setor privado, a academia e a sociedade civil. É no Cerrado que está hoje metade da produção brasileira de soja, 55% da produção pecuária.

“Isso tem um peso muito grande na economia brasileira, mas, para que isso acontecesse, a gente teve que perder metade do Cerrado. E a gente está nesse ponto justamente de como promover um desenvolvimento sustentável, como é que a gente vai lidar com os desafios que a gente tem de clima, de conservação da biodiversidade, mas também de segurança alimentar e desenvolvimento econômico daqui para frente.”

“O Cerrado é onde a gente precisa pensar um novo modelo de desenvolvimento, do que a gente quer para o futuro da nossa agricultura, para o futuro das nossas florestas também”, frisa o diretor da Coalizão Brasil  – Clima, Florestas e Agricultura, Fernando Sampaio.

Defesa das águas

Na audiência, a ministra Marina Silva ainda recebeu do ex-diretor da Agência Nacional de Águas (ANA) Oscar Cordeiro Netto uma carta com cerca de 700 assinaturas pedindo reforço na política hídrica do governo federal e valorização do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima . O manifesto é endereçado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Nessa carta, nós exortamos a todos – sociedade civil, Parlamento – a trabalhar nessa reconstituição, nessa revalorização da política de águas.”

Em resposta, a ministra lembrou que a vontade originária do presidente Lula era recuperar a política e a gestão de recursos hídricos. Contudo, o Congresso Nacional, na aprovação da reestruturação de ministérios, tirou a ANA do MMA e a devolveu ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. Marina Silva disse que é preciso respeitar a decisão do Parlamento. Segundo ela, o compromisso do governo é com a gestão correta dos recursos hídricos.

“Na democracia, é assim que funciona: o Congresso decidiu, e o presidente é um democrata. Aquilo que não pode ser vetado, em conformidade com a lei, ele não tinha como vetar. Mas que bom que a sociedade está dando uma força para que a gente possa, então, recuperar aquilo que foi perdido”, acrescentou.

“Essa casa [Congresso Nacional] que desenhou a melhor política de recursos hídricos, infelizmente, na votação da estrutura do governo federal, mesmo com todos os esforços do governo, do nosso ministro [Alexandre] Padilha, do ministro Rui [Costa], de todos nós, fez uma devolutiva da Política Nacional de Recursos Hídricos para o Ministério do Desenvolvimento Regional. Não é nenhum problema. É que política pública tem que ter o loco certo”, lamentou a ministra Marina Silva sobre a saída da ANA do MMA.




Fonte: Agência Brasil

Ameaçado por dívidas, Teatro Dulcina de Moraes guarda tesouro cultural


Se fosse um espetáculo para os palcos, seria uma história de drama e suspense. No ato mais recente, uma cena de reviravolta. Porém, não há nada de ficção um uma luta para manter vivos o Teatro Dulcina de Moraes e também a faculdade que leva o nome dessa estrela da arte dramática brasileira. O prédio, no centro de Brasília, projetado por Oscar Niemeyer, é tombado como patrimônio cultural do Distrito Federal desde 2007. O local guarda acervo de mais de 70 anos do teatro brasileiro, mas está ameaçado e, por muito pouco, não foi leiloado nesta semana.

O roteiro de sufoco, em vista de uma dívida estimada em mais de R$ 20 milhões, quase teve um capítulo derradeiro e triste. O leilão, que seria realizado na quinta-feira (14), foi cancelado na terça (12), porque não seguiu, no entender da Justiça, os prazos corretos. O cancelamento, de última hora, foi motivo de alívio para a classe artística. Um respiro dentro da história, mas a luta está longe de terminar.

“Isso deu para a gente um tempo de respiro porque nós estávamos correndo com o inventário do acervo, mas com medo da iminência da perda do prédio”, afirmou o ator Josuel Junior, diretor cultural da Fundação Brasileira de Teatro, entidade criada em 1955 por Dulcina de Moraes e Odilon Azevedo. Agora, segundo ele, a equipe ganhou tempo para resolver as questões jurídicas e relacionadas ao acervo principalmente.

Teatro Dulcina de Moraes, que escapou de leilão, guarda tesouro cultural. - Foto: Acervo Teatro Dulcina

Teatro Dulcina de Moraes terminou de ser construído em 1980 – Acervo Teatro Dulcina

O secretário de Cultura do Distrito Federal, Claudio Abrantes, comemorou o cancelamento do leilão. Ele entende que o governo estava apreensivo com o que poderia ocorrer com o espaço criado pela “grande dama do teatro nacional”.

“Foi uma grande notícia. É um patrimônio do Brasil. Esse cancelamento vai nos dar tempo para analisar possibilidades e trabalhar em conjunto para que o espaço seja preservado.”

Mais tempo

A corrida para identificar peça por peça do rico acervo contido no teatro era um desespero para a gestão que assumiu a entidade há pouco mais de um ano. Havia um temor de que, com o leilão, a memória contida em mais de 4,5 mil itens, que ajudam a contar a história do teatro brasileiro trazida por Dulcina de Moraes para Brasília, se perdesse.

“Do acervo têxtil, ou seja, figurinos, vestidos, nós já temos cerca de 500 peças inventariadas. Mas o acervo conta com cerca de 4,5 mil.”

Josuel Junior calcula que sejam necessários pelo menos mais quatro meses de trabalho para conhecer toda a memória do lugar.

O acervo, segundo explica, conta mais de 70 anos de história do teatro brasileiro. “A gente precisava mapear todas essas dívidas por meio de relatórios financeiros. Ele foi quase concluído agora em agosto e nós interrompemos tudo por conta do leilão”. Nada do que está no prédio histórico foi digitalizado.

Teatro Dulcina de Moraes, que escapou de leilão, guarda tesouro cultural. - Foto: Acervo Teatro Dulcina

Acervo do Dulcina de Moraes conta mais de 70 anos de história do teatro brasileiro – Acervo Teatro Dulcina

“A gente está fazendo de tudo para que haja uma sensibilização nacional de entendimento da importância do Dulcina de Moraes. Isso aconteceu nesta semana. Até semana passada a gente estava tendo que convencer que Dulcina era uma figura importante no teatro brasileiro”, lamenta.

O susto fez, no entender do diretor, com que representantes da sociedade e da classe artística compreendessem o que estava em jogo. O leilão ocorreria, inicialmente, para pagar uma dívida que, contabilizando apenas os 57 processos trabalhistas acumulados, somam mais de R$ 600 mil.

“Inimaginável”

Por iniciativa de artistas e de outras pessoas que frequentam o espaço, foi formada uma vaquinha online para tentar angariar R$ 600 mil para evitar o leilão. “Foi uma iniciativa da sociedade que está se mobilizando. Nós entendemos que todas essas dívidas devem e merecem ser pagas. Nós estamos há pouco mais de um ano nessa gestão tentando mapear o que foi que aconteceu no Teatro Dulcina nesses últimos 40 anos para tentar entender a origem dos problemas financeiros.”

O autor da ideia da vaquinha foi o ator Wellington Abreu, do Teatro Scutum, de Brasília. A primeira fase dessa ação solidária se encerra nesta quinta, dia em que iria ocorrer o leilão. Até agora, pouco mais de R$ 6 mil foram doados. “É um teatro de resistência, um ato de amor.  É um espaço que não pode acabar”, afirma o artista.

O pesquisador Josuel Junior explica que as peças trazidas por Dulcina de Moraes para Brasília, na década de 1970, representam um recorte cultural inimaginável para o Brasil. Quando a artista saiu do Rio de Janeiro, além de vir concretizar o sonho de construir a faculdade e de ensinar os jovens a arte do teatro, ela trouxe um acervo histórico pertencente à família.

“O acervo histórico inclui trabalhos realizados pela companhia dela, a mais badalada companhia do teatro do Rio de Janeiro na primeira metade do século 20.” O lote foi adquirido em 1964. Dulcina de Moraes mudou-se para Brasília em 1972. As construções do teatro, da faculdade e das salas começaram em 1973 e terminaram em 1980.

Ditadura

“Quando ela veio para cá, trouxe baús com muitos figurinos, adereços cênicos com decorações. Só que, quando ela trouxe para Brasília, nem tudo foi aberto. Nós tivemos contato, por exemplo, com um álbum original da primeira temporada do Auto da Compadecida [peça de 1955, de Ariano Suassuna]”, diz o pesquisador.

O acervo têxtil inclui as indumentárias cênicas e roupas pessoais de Dulcina de Moraes, tais como vestidos, figurinos diversos, roupas de alta costura, chapéus e pares de sapatos. “Fora isso, a gente tem um acervo que são documentos expedidos pela censura da ditadura militar, incluindo cartas, escritos, manifestos e ofícios relativos a termos da censura em espetáculos teatrais. A gente não conhecia um documento da censura que carimbou todas as páginas de uma peça de teatro.”

Teatro Dulcina de Moraes, que escapou de leilão, guarda tesouro cultural. - Foto: Acervo Teatro Dulcina

Acervo do Teatro Dulcina de Moraes inclui documentos expedidos pela censura na época da ditadura – Acervo Teatro Dulcina

O acervo guarda mais de 3 mil fotos que recontam o que foi apresentado no teatro na primeira metade do século 20. Imagens, aliás, desde a década de 1930. “É uma coleção que eu me arrisco a dizer que é a maior relativa ao teatro brasileiro. Isso é raríssimo”, diz Josuel Junior.

Para fazer o inventário, o pessoal do teatro Dulcina pediu apoio de voluntários que, diante da possibilidade do leilão, passaram a trabalhar sem parar na identificação das peças, das fotografias à indumentária.

Entre as voluntárias, a museóloga Desiree Calvis, que ficou encantada pelo o que descobriu. “A gente começou pelos paletós do Odilon Azevedo [escritor e marido de Dulcina de Moraes]. Nós começamos numa fase que estava faltando luz no teatro. Seguimos uma ordem para garantir que os tecidos ficassem acondicionados de uma forma que não deteriorassem um ao outro”, afirma a pesquisadora.

A museóloga não conhecia a história da Dulcina de Moraes, mas viu um chamamento nas redes sociais. Havia um pedido para higienizar, mas ela viu que o trabalho era mais complexo do que isso.

“Eu senti muito interesse de vir mesmo sem entender a dimensão do que iria encontrar. Eu fiquei muito tocada porque não era a história de Brasília, mas do teatro brasileiro.”

Entre as novidades descobertas, um vestido original assinado pelo estilista francês Christian Dior, do ano de 1952. “E não é pouca coisa. A gente encontrou um vestido feito para ela fazer uma peça. Isso mostra a dimensão que ela tinha para o mundo.”

“É necessário que haja mobilização”

O presidente da Federação Brasileira de Teatro, Gilberto Rios, que foi assessor particular de Dulcina de Moraes na década de 1980, afirma que recebeu telefonemas de pesquisadores e artistas estrangeiros na tentativa de receber o acervo da artista. “Mas esse acervo pertence ao povo brasileiro. A gente precisa compreender e entender. A solução passa pela mobilização do povo”, considera.

Ele recorda que Dulcina e Odilon tinham o sonho de garantir dignidade ao artista brasileiro. “Se hoje a profissão do ator existe nesse país, Dulcina de Moraes brigou muito por tudo isso, inclusive pela regulamentação da profissão”. Ele explica que a atriz foi uma mulher que passou a vida inteira dentro do teatro. Ela largou a vida no Rio de Janeiro para levar a arte cênica para a capital federal.

A faculdade, aliás, tem vocação e história que representaram a formação de 70% dos arte-educadores do Distrito Federal. O diretor da faculdade, Fernando Esteban Reynoso, contextualiza que o ensino superior praticado no local está impregnado de lembranças da fundadora.

“Isso gera um fascínio e um amor incondicional. É um teatro cheio de glórias que deveriam ser resgatadas.”

Atualmente, 24 alunos estão fazendo os cursos da faculdade. Mas, por conta de problemas do prédio, como falta de água e luz, os estudantes passaram a ter aulas em outro local, no Centro Cultural de Brasília (CCB). São novos artistas que sonham em voltar para o local tão cheio de histórias e memórias, que devem ir além de sustos e medo. Os artistas querem mostrar que cada cena para tentar salvar o teatro é feita para celebrar uma história de amor.

Quem foi Dulcina de Moraes

Dulcina de Moraes é considerada uma das principais atrizes da história do Brasil. Ela nasceu em 1908 em meio a compromissos profissionais dos pais, os atores Átila e Conchita de Moraes, que se apresentavam pelo interior do Rio de Janeiro. Aos 15 anos de idade, ela estreou na peça Lua Cheia e foi considerada revelação. Ela integrou companhias teatrais até fundar com o marido, o escritor e ator Odilon Azevedo, um grupo próprio, em 1935. Foi a Companhia Dulcina-Odilon.

A peça Amor, de Oduvaldo Vianna, foi um dos maiores sucessos. Em 1945, outro grande espetáculo marcaria a sua carreira, a peça Chuva, de uma novela de Somerset Maugham. Foi responsável por dar oportunidade a novos artistas, tanto que seguiu o grande sonho de ter uma própria faculdade de arte dramática, construída a partir da década de 1970. Dulcina morreu em 1996, em Brasília, aos 88 anos de idade.




Fonte: Agência Brasil